31/05/2016

Tive a certeza de que morreria

No dia em que me deixaste plantada a olhar para um rectângulo estático na minha mão, tive a certeza de que morreria. Foi um pensamento exagerado, daqueles que se têm quando se perde o primeiro amor. Não que eu não soubesse que estavas a um passo de o fazer, claro que sabia. Deixa-me dizer isto de outra forma, a minha metade racional sabia, a minha metade emocional estava no auge da negação. Assim faz mais sentido, até porque, como bem sabes, funcionámos sempre às metades e pela metade – só os fracos precisam de coisas inteiras.

Não é de admirar, por isso, que metade de mim se tivesse conformado e a outra metade quase falecido. O que não sabes é que, durante mais de um ano, vivi como se não tivesse lado direito: a cavidade torácica estava vazia e o braço parecia que nem era meu. Fatalidades que só uma descendente de uma linhagem de mulheres passionais e trágicas é capaz de conhecer.

É agora que fazes aquela expressão de quem não diz, mas pensa, tu és realmente muito estranha.

Não foi bonito o que fizeste. Nem nada elegante, vindo de um homem que gostava dos pequenos rituais burgueses e apreciava a formalidade dos gestos. Não foi bonito, não foi sensato, não foi eficaz. Foi cruel, mesquinho e desrespeitoso. Também cobarde.

Naquela altura, ainda não tinha aprendido a arte de deixar cair, deixar ir, e mais coisas em ir que te lembres. Ainda achava, ó inocência!, que uma palavra era suficiente, que devia haver uma certa consideração entre pessoas que se quiseram bem, que as histórias precisam de um fim, quando as personagens sabem que não vai haver continuação.

Talvez agora entendas a reacção exagerada de quase falecimento, e possas até perdoá-la. Era ingénua, era crédula, uma optimista irritante, até me teres ensinado o sofrimento. Continuo igual, só menos ingénua, menos crédula, menos optimista.

Depois que recuperei o meu lado direito, fiz tudo o que me disseste: arranjei um gajo do Norte, um bonzão, culto e tal (no «e tal» fica o resto que não é decente escrever aqui). Agora é que ia ser! Não foi… Morreu-me! Isto é, morreu-se ele mesmo sem ajuda de ninguém. Achas isto bem? Previste-o nesse teu futurismo certo e inabalável do que eu seria?

Ironicamente, também ele me deixou plantada a olhar para um rectângulo estático, à espera do que não veio. Eu sei que insistias muito na teoria da ciclicidade da História, podias era ter-me dito que seria a minha história a girar neste looping enjoativo.

Não vais levar a mal que te diga que vocês se confundiram um bocadinho, que a voz que me disse a morte dele também me disse a tua, que o lugar onde o deixei também te deixei a ti.

Depois disto, tive a certeza que morreria, não de amor, mas de desgosto. De mágoa. De decepção. Fez-me tanta falta, naquela altura, a habitação do teu abraço, onde tudo fazia sentido, e as tuas palavras a dizerem que tudo ficaria bem, que sobreviveria.

Outra coisa que não sabes é que, por princípio, não acredito nas pessoas. Elas podem elogiar-me, destratar-me, cantar-me, o que de bom e de mau for, que eu não acredito. Não as levo a sério – se for em forma de elegia, menos ainda. Mas em ti eu acreditava.

No outro dia, enquanto procurava informações na nave-mãe, encontrei-te – bolas, continuas um totó de primeira! Depois, fechei a janela e não voltei a querer saber de ti. Então, porquê este texto? Porque me ocorreu escrever sobre isto, enquanto limpava a louça. As minhas motivações sempre foram um pouco estranhas (ou estou só a espantar os meus fantasmas).

Tudo isto lembra-me aquele poema do Vasco Graça Moura, «Blues da morte de amor», que não me fez qualquer sentido quando o li antes de ti e agora, depois de ti, parece ter-me sido dedicado.

já ninguém morre de amor, eu uma vez 
andei lá perto, estive mesmo quase, 
era um tempo de humores bem sacudidos, 
depressões sincopadas, bem graves, minha querida. 
mas afinal não morri, como se vê, ah, não, 
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes, 
ah, sim, pela noite dentro, minha querida. 




Olha, safei-me! Mesmo que não veja para onde, pelo menos larguei-te – a ti e a todos.



O atropelo da maravilha #1

Há coisas que acontecem na vida sem que as imaginássemos (mesmo que até tenhamos tido alguma responsabilidade, por nos termos chegado a elas). Acontecem. O sentimento que fica é de um delicioso atropelo de espanto.

Para iniciar esta série de atropelos de acontecimentos inesperados, uma ligação para a Preguiça Magazine, onde podem ler um conto meu. 

Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.

Quero agradecer ao Paulo Kellerman pela oportunidade, ao João Pedro Coutinho pela ilustração, e à querida pessoa que tornou isto tudo possível.


(vou continuar a olhar para a página e maravilhar-me...)

30/05/2016

Tiros nos pés

una-lady-italiana:
“ Friend & Johnson - Geof Kern - Portraits
”
Friend & Johnson - Geof Kern - Portraits


Tudo se resume a poder. Desde que se nasce que se luta pelo poder, pela imposição da vontade. Leva-se este espírito faccioso pela vida fora. O que resulta daqui raramente é bom. 

Na pintura de um carro




29/05/2016

As eleitas

creepyyeha:
“ Creepyyeha
”
peónias

e as preferidas e as amadas e as... tudo e tudo.

27/05/2016

Para arrumar o dito de vez

Há assuntos sobre os quais resisto a escrever. Os motivos podem ser variados e tanto podem pender para o lado da ignorância (para quê insistir em discorrer sobre o que não sei?), como para o lado do desinteresse. 

Por exemplo, as razões que motivam a criação e a linha editorial de um blogue são, definitivamente, sem interesse. Simplificando, cada um escreve o que quer, como quer, para quem quer, e, se eu não quero ler, não vou lá. Ponto. Acabam-se os dramas. Há tantos blogues interessantes e que vão ao encontro dos meus gostos que perder tempo com os que não me interessam nem me acrescentam é tão-só isso -- uma perda de tempo.

Outro motivo para considerar o assunto desinteressante é saber que todos, e são mesmo TODOS, os blogues são uma construção. Podem ser mais alinhados com as vivências diárias, podem ser temáticos, podem ser mistos, o que for, mas são construídos segundo um ideal, uma visão pessoal, por isso não podem ser lidos à letra, como se, a partir de algumas entradas, se tivesse um conhecimento holístico do autor.

Ter um blogue de fotografia não invalida que se goste de música; ter um blogue de música não invalida que se goste de telenovelas; ter um blogue sobre o dia-a-dia não invalida que se goste de moda; e daqui podíamos ir bem longe. São apenas opções de quem publica.

Por isto, é que leio blogues sempre com alguma reserva, tentando ler texto a texto, sem querer ver sequências onde, às tantas, não as há. E é por isto também que me aborrece seriamente que façam juízos de valor sobre mim, com base no blogue; ou que questionem as minhas opções só por acharem que devia fazer diferente. 

E é ainda por isto que gosto tanto deste pedaço da entrevista do Pedro Mexia ao IA ideia da exposição da intimidade é enganadora, porque as pessoas presumem sempre que sabem coisas que não sabem, fazem inferências baseadas em nada. Julgo que a intimidade diz respeito aos temas da poesia, todos os temas grandes da poesia são de certa forma íntimos – o amor e a morte são assuntos bastante íntimos. Mas um poema não é um diário. 

Os meus blogues servem para reflectir sobre momentos, sobre ideias que vêm e depois vão embora, e tanto falam da minha vida sentimental (às vezes, da falta dela), como do trabalho, como da família, como dos meus passatempos, como de acontecimentos com anos, como de tudo junto, como de nada. Não traduzem sempre (o que não quer dizer que não o possam fazer) o meu estado de espírito. Um blogue não tem de ser um diário.

Gosto de um certo tipo de textos, de um certo tipo de imagens, de um certo tipo de músicas, mas esse gosto não faz de mim necessariamente uma deprimida, uma pessimista, o que quiserem. Faz de mim apenas uma pessoa que gosta de um certo tipo de textos, de um certo tipo de imagens, de um certo tipo de músicas...

Este assunto é mesmo tão desinteressante que nem devia perder tempo com ele, mas, para não dizerem que não avisei, mais vale arrumar o dito de vez.


25/05/2016

Pede-se gentilmente...

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A alguém que escreva a minha história e me conte já o fim.

Obrigada.
2 Dezembro 2008



(agarrada a este post que já tinha sido replicado em 2013 veio uma conversa com uma pessoa que nunca vi na vida e de quem só soube o nome, mas que me fez rir com o seu sentido de humor. lamentavelmente, parei o diálogo (que de tão público que era não tinha em si maldade alguma) por causa de valores mais altos. na verdade, fiquei sem a conversa e sem os tais valores, o que me levou à conclusão que, desde que a consciência esteja em paz, nunca se devem perder coisas bonitas por pressão de outrem. anónimo h., se me lês, peço imensa desculpa)

23/05/2016

Isto não é uma resposta

Fazes-me perguntas às quais não quero responder. Conheces a minha tristeza pelo silêncio, lês nas entrelinhas do que não escrevo, adivinhas as notas falhadas da música que te vou dando, e é por coisas assim que te vou conservando nas profundidades do meu passado. Tudo o que supões está certo, não há muito mais por onde explicar.

13/05/2016

But in time, everything must go

Acabei de tropeçar nesta música. Bem bonita.





Watch Kimbra feat. Van Dyke Parks perform her song 'As You Are' from her sophomore album 'The Golden Echo' for Artist Journal.

Directed by Mark C. Roe

(C) 2014 Kimbra & Warner Bros Records

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CREDITS

Cinematography by Christopher Macdonald
Camera Operating by Damon Mosier, Cooper James & Solly Benzacar
Camera Assisting by Philip Martin, Jack Mandish & Ben Montemayor
Gaffing by George Oliver
Production Design by Anne Marie Taylor
Art Direction by Andrew Philip Cortes
Set Dressing by Emily Little & Andy Rines
Live Music Recording by Bryan Gonzalez
1st Assistant Directing by Adiel Adra
Grip Assisting by John Natividad
Makeup by Christina Krasch & Charlie Quintero
Wardrobe & Styling by Devin Winter
Digital FX by Camden Remington
Production Assistance by Thaddaeus Williams and Lyka Gozon

Special thanks to Kevin, David, AJ & Dina

12/05/2016

Literatura de cordel

Quando era miúda, miúda de Secundário, por influência de duas colegas de turma, comecei a ler romances cor-de-rosa. Eram uma boa forma de passar duas horas à espera do autocarro para voltar para casa, ou de ocupar o tempo na praia, ou de arejar a cabeça nas viagens de comboio de regresso das aulas da Faculdade.

Guardei alguns, mais por questões sentimentais do que por razões estéticas ou de valor literário. O divertimento não tem de ser sempre elevado, superior, às vezes pode ser só cor-de-rosa.

Digam lá que não estão cheiinhos de vontade de o ler? Seus marotos!

As histórias eram redundantes, havia sempre o homem super rico, super charmoso, super solteiro, e havia sempre a rapariga super o contrário: ingénua, desconhecedora da sua beleza, pobre... só coincidiam no estado civil (de repente, lembrei-me de uns certos livros cinzentos e não deve ter sido por acaso). Ah, e claro, sempre as opositoras belas, sofisticadas, ricas e com interesses diferenciados pelo herói. Era assim, mais coisa menos coisa. Aquilo dava sempre umas grandes voltas, muitas confusões, às vezes acusações que facilmente seriam aceites nos postos da GNR ou balcões da APAV, mas que acabam sempre bem, resolvidos em duas páginas. A harmonia era para o resto dos dias das personagens (pelo menos das principais).

Ora, lembrei-me disto por causa de um conto que me acabou de cair no email. Li-o todo, trespassada pela certeza de que aquele conto mais não era do que um plano para um romance Harlequim. Estupefacta com o desenrolar da história e a abismada por ter sido escrito por alguém com alguma relevância e presença pública.

Definitivamente,  relevância e a presença pública não são garantia de qualidade. Ainda não acredito no texto mauzinho que li, onde uma agressão continuada de um homem a uma mulher se revolve em duas linhas e uma boa intenção. E nem se trata de feminismo ou vitimização, é tão-só um absurdo.

Pelo menos a Harlequin é assumidamente previsível (e, pelo que vi agora, tem capas novas).

I Won’t Complain

I won't complain - Benjamin Clementine

11/05/2016

Não há grande diferença entre escrever para os mortos ou para os vivos. É certo que os mortos não entenderão. Os vivos, na maior parte das vezes, também não.

10/05/2016

It's just a spark but it's enough

Last Hope - Paramore



Every night I try my best to dream
Tomorrow makes it better
Then I wake up to the cold reality
And not a thing has changed

But it will happen
Gotta let it happen




Não sei qual a frequência disto, mas aconteceu-me a necessidade de mudar, de deixar para trás o planeamento de anos, para abraçar projectos que andaram uma vida inteira escondidos dentro de mim e que são, tenho de confessar, assustadores. 

Três coisas que nunca pensei vir a fazer estão quase a tornar-se realidade. São centelhas, é certo, mas são pequeninos nadas suficientes para me fazer andar para a frente. Ainda não sei muito bem o que pensar.

09/05/2016

07/05/2016

Tenho saudades da Avenida da Liberdade ao cair do dia, nos Sábados preguiçosos.


A Few Snapshots from Lisbon, Portugal :: This is Glamorous - Avenida da Liberdade, Lisboa:
Roseline @thisisglamorous

06/05/2016

Assim vai o meu mundo

Joel Peter Witkin, Las Meninas, 1987 

Lido não sei onde

as pessoas nem sempre são capazes de assumir as suas próprias dificuldades e acham que são as outras que não estão preparadas para ouvir

03/05/2016

O dia inteiro

Hoje tive de admitir a evidência do que tenho negado: fazes-me falta.
Mesmo que estivesse tudo errado desde o início, mesmo que estivesse tudo condenado desde o início, a falta que me fazes é uma ferida aberta que se recusa a fechar e dói subtilmente o dia inteiro.



Dark Passenger - Daniela Andrade

Não julgarás

Somos muito rápidos a julgar. Existe em nós um juiz frustrado que saca do martelo à mínima oportunidade. Todos te julgámos (ou quase), com mais ou menos intensidade, com mais ou menos razões. Hoje, enquanto conduzia, pensei no que seria deixar ir o carro, vê-lo ganhar vida própria até ao limite. Pela primeira vez, meu Aquiles, questionei se deverias ter realmente escolhido a vida longa.

02/05/2016

Aceitação, ou a passividade desolada

Do que mais me custou a aprender nesta vida foi a aceitação. Não a aceitação dos começos ou das mudanças, mas a aceitação do fim. Muitas vezes recusei entender (e aceitar) a inevitabilidade do ciclo que chega ao seu ocaso. Muitas mais vezes insisti até à exaustão, por acreditar que havia uma dose grande de culpa que me pertencia, e, se as coisas iam acabar, a razão estava unicamente em mim: eu não tinha feito o suficiente, eu tinha feito demais, eu não tinha investido, eu tinha sido orgulhosa por ter esperado um qualquer avanço do outro lado, eu culpada, sempre. Com o tempo fui aprendendo que nem tudo pode ser da minha responsabilidade, a compreender o valor real dos meus esforços e a antecipar com maior precisão o fim. Assisto, agora, a tudo com uma enorme dose de passividade desolada por saber que nada conseguirá travar a sucessão dos eventos. Pesam estes sobre mim como chumbo, atrofiando os esforços inocentes que nascem debaixo de todo aquele lastro. Às vezes, esses esforços perdem as folhas nas arestas aguçadas e secam antes mesmo de ver a luz. Há-de haver um que consiga, que irrompa pelo meio do lixo do passado e cresça de tal forma que afaste para bem longe tudo aquilo. Ou então ficará tudo como está.


01/05/2016

Pensamentos dispersos no Dia da Mãe

Aos 36 anos, há quem exiba uma família perfeita, há quem exiba um namorado excitante, há quem exiba uma carreira de sucesso. Eu exibo um cabelo castanho que nunca viu tinta e desconhece cabelos brancos.


Aos 36 anos entra-se numa espécie de limbo onde já ninguém conta connosco para nada: o Dia da Mãe é para as mais velhas, que já o são, ou para as mais novas, que estão quase a ser, as que já não são novas e ainda não são velhas são transparentes.


Entretanto, é Dia da Mãe e o irmão mais novo fez anos, Foi muito festejo para um bolo de chocolate só.