02/12/2016

Agradecimento póstumo (com dez anos de atraso)

Finalmente, tenho de te agradecer. É um agradecimento que chega com dez anos de atraso, mas é importante que fique registado. No dia em que partiste, amontoaste, embrulhaste em papel de jornal, implodiste e explodiste o meu coração, disseste que era melhor assim, que ficaria melhor sem ti -- quero que tenhas uma vida porreira e não não uma vida como a minha. E desapareceste no ar, como se não passasses de uma imaginação feita nuvem, bem ao gosto dramático das personagens dos maus romances. Agora que passaram dez anos e eu já me refiz da tua maldade, mesmo tendo escavacado com o coração mais uma vez ou duas, pelo caminho, posso dizer com toda a propriedade que tinhas razão. Tinhas toda a razão, na verdade. A minha vida não é como a tua e finalmente está porreira. Melhor que porreira, bem para lá disso. Agradeço-te, por isso, porque viste o que eu não via e não me impediste de alcançar o melhor que alguma vez tive. Aqui entre nós, que ninguém nos lê, não trocava um segundo do que tenho agora por qualquer bocadinho do passado. Podes voltar para o horizonte onde te desterraste, não preciso de ti, tenho planos para os próximos cinquenta anos.

10 comentários:

  1. Identifico-me muito nas coisas que escreves. Fizeste bem agradecer. Contudo, ao agradeceres, nao estarás a dar a importância que já nao deveria ter?

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    1. Olá, Anónimo, é bom saber que alguém se identifica com as insignificâncias que escrevo.
      Para responder à pergunta, deixo um excerto de uma coisa que escrevi há 3 anos:

      «Peço-te, por isso, que sejas sempre delicada com a lembrança do que deixaste para trás, que te lembres de todos e os guardes com ternura, e te lembres de mim como alguém a quem falta percorrer trinta ou quarenta anos para ser como tu.


      Do passado não guardo mágoa. Nunca te esqueças.»

      http://uma-rapariga-simples.blogspot.pt/2013/11/cartas-um-eu-no-futuro-2.html

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  2. Cinquenta anos é muito tempo! ;)

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    1. Com um bocadinho de sorte, até é pouco. :)

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  3. Carla, pressenti neste texto um tom irónico com o qual não me identifico, até porque associei tratar-se do mesmo assunto acerca do qual por aqui se escreveu largamente. E esta minha não identificação com o registo ganha força quando leio no final o "não preciso de ti". Não me parece, então, que se coadune com um agradecimento. Fiquei, igualmente, a fazer a mesma pergunta que o anónimo do dia 2 de Dezembro.

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    1. Isabel, ficamos aqui com vários berbicachos para resolver:
      1 - o tom irónico é uma quase constante nos meus textos (e nos comentários); às vezes cai para o lado do sarcasmo. acontece desde que me lembro de escrever (e de falar)

      2 - não sei de qual assunto falas, porque eu escrevo sobre vários ao mesmo tempo, às vezes nem eu sei já quais são

      3 - identificares-te ou não com o registo é uma questão do teu gosto enquanto leitora, de todo é uma preocupação minha enquanto «escritora»

      4 - só eu posso avaliar a profundidade desse «não preciso de ti», só eu sei se é cru, se não é; se foi necessário ou não - independentemente da sensibilidade de quem me lê

      5 - se consideras que não há um agradecimento, é porque não deves ter lido bem o que escrevi

      6 - a pergunta do Anónimo não tem por que ser respondida; a mim interessa a opinião de uma pessoa em particular, se essa pessoa entendeu o alcance do que escrevi, basta-me.

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    2. Carla, não tenho aqui qualquer berbicacho para resolver.
      Quando encontro uma caixa de comentários aberta parto do princípio que é interessante para quem escreveu receber as opiniões que se alinhem com o que foi escrito e as outras que não se identificam.
      Daí, não poderia supor que interessava a opinião de uma pessoa em particular. Caso contrário, não teria comentado.

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  4. E poc, a pergunta repete-se... "não estarás a dar a importância que já não deveria ter?"

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    1. A resposta mantém-se, cabe-me a mim decidir.
      Talvez a insistência na pergunta venha de uma leitura enviesada do texto.
      Talvez... porque eu vou escrever o que me apetecer e isso não está aberto a discussão.

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  5. Às vezes apetece exorcizar na escrita algo que já passou. Acho perfeitamente aceitável que, embora agradecendo, se constate que, agora,não se precisa dessa pessoa. Passado no passado, presente no presente.

    Beijos, Carla :)

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