25/10/2016

Os moralistas da treta

Sempre que acontece algum percalço/acidente com uma criança, lá vêm os moralistas da treta dar conselhos sobre a melhor forma de conservar hermeticamente os mais pequenos, como se a infância fosse um período amorfo em que tudo corre conforme o previsto e não há cá lugar a desvios.

Não defendendo a negligência dos adultos, que a há em muitos casos, talvez fosse bom que estes comentadores opiniosos se lembrassem do tempo em que foram crianças e dos sustos que terão eventualmente, e escrevo «eventualmente» porque devem ter sido todos uma espécie de cães de loiça muito quietos e sossegados que atravessaram a infância postos em sossego para grande consolo das almas dos seus ricos paizinhos, repito, os sustos que eventualmente terão dado aos adultos que os supervisionavam.

Assim de repente, lembro-me da história de a minha mãe ter enfiado um feijão no nariz e não ter dito à minha avó, pelo menos até ter ficado com o nariz tão inchado que só na farmácia a salvaram de males maiores; ou de o meu pai contar que uma tarde de Verão se esqueceu de avisar a tia da futebolada com os amigos, tendo deixado a senhora em prantos a pensar que ele tinha caído a um poço; ou daquela vez em que o meu irmão mais velho se escondeu junto ao telhado da casa dos meus avós e fez toda a gente procurá-lo a tarde inteira, porque teve medo de dizer onde estava; ou ainda aquela vez em que um dos meus irmãos mais novos decidiu ir ver as pedras da praia e desaparecer por uns terríveis instantes que nos convenceram que o garoto tinha ido mar dentro.

E, como estas, inúmeras trapalhadas feitas pelos mais novos. Se há história/negligência no caso da criança desaparecida em Ourém? Pois, pode haver, mas também pode tratar-se do caso simples de uma criança a fazer das suas. Não é preciso tratar a família como se fossem uns idiotas.

8 comentários:

  1. É isso, Carla...
    Sobretudo, não enxergo a utilidade da definição de hipóteses explicativas por quem está longe do caso, não conhece nada de coisa alguma, num período em que o caso está em investigação...

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    1. Faz-se um drama de tudo como se houvesse uma novidade nos acontecimentos que espanta toda a gente!
      Às vezes pergunto-me se estas pessoas têm andado no mundo e fico a pensar que os jantares com esta gente devem ser uma tremenda seca, por não terem história alguma para contar.

      Claro que também pode haver alguma coisa mais grave, mas, como bem dizes, estando em investigação...

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  2. A menina Carla anda revoltada.

    E ainda bem :)

    Concordo (outra vez) pois claro.

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    1. Eu tenho picos de grande revolta. :)
      Se não se lêem mais é porque eu questiono a relevância de tudo o que para aqui vem e depois acho que não vale a pena e fica só comigo.

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  3. Eu "fugi" de casa com 3 anos durante umas férias de verão no Algarve. Os meus pais deitados, os meus primos no mesmo quarto a dormirem, e simplesmente levantei-me, abri a porta de casa, uma moradia térrea e saí para a rua, fui andando rua fora, descalça, de pijama apenas e caminhei até ao local que conhecia; a praia. Fui encontrada por uns turistas ingleses que estranharam uma criança àquela hora de pijama na praia, fui entregue no posto local da gnr. A minha mãe só de manhã deu pela minha falta e ia morrendo do coração, procurou por todo o lado e só após umas boas horas sem me encontrar foi ao posto da gnr apresentar queixa, e lá estava eu a almoçar sopa na companhia deles.

    A história por acaso até acabou bem e ficou para mais tarde recordar, mas podia ter acabado muito mal. Não foi por negligência dos meus pais.

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    1. Consigo imaginar a aflição da tua mãe - como é que se explica a alguém, mesmo a polícia, que não se sabe da filha?

      A sorte dela foi não haver uma CMTV na altura, caso contrário, ainda acabava crucificada em praça pública.

      A menina era fresca. ;))

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  4. Partilho com gosto. Gostei e fico "cliente"...

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