07/10/2016

Nas setas grogues do Cupido

Gostava de ler definições de amor. Agradavam-lhe particularmente as que descreviam com pormenor o enamoramento das almas, o poder de um olhar que se cruzava, o inesperado que acontecia, a facilidade com que a vida de duas pessoas mudava, por culpa das setas certeiras de Cupido.

Falava da paixão com a propriedade de quem tinha lido muito e tomado como seu o que era de outros, já que as setas que voavam em todas as direcções, acertavam em todos, menos nela. Durante esse tempo, oscilou no medo de ser incapaz de se apaixonar e o desejo crescente de o fazer. Por isso, ainda se lembrava com todos os pormenores da primeira vez que lhe aconteceu confirmar em nome próprio o tanto que lera – e percebeu que ficava aquém.

Aceitou que lhe era muito difícil apaixonar-se, da mesma forma que aceitou que, sempre que se apaixonava, o sentimento durasse anos e quase outros tantos a ser arrumado nas gavetas do esquecimento. No entanto, ao contrário de tudo o que lera, não eram as mãos trementes, nem o coração descompassado, muito menos o sorriso que se colava à cara, que lhe confirmavam que se apaixonara. Essa confirmação vinha da intensidade da preocupação.

Quando começava a preocupar-se com as coisas simples de um homem: se comia, se dormia, se o dia corria bem, se andava feliz, se precisava de ajuda, se lhe faltava um carinho, se se se…, era certo que aquele homem tinha conseguido quebrar a barreira de discreto distanciamento que erguia à sua volta.

Por incontáveis vezes engolia o cansaço, escondia a decepção com outras coisas, quebrava a vontade de estar em silêncio e não falar com ninguém, apenas para estar disponível para ele, porque ele precisava. Claro que ser assim acabava por passar a ideia de ter uma resistência às coisas e umas «costas largas» que honestamente não tinha, porque depois ficava só ela com o seu lastro numa mão, e o lastro dele na outra. Sozinha, a soterrar-se no peso do mundo.

Havia também um denominador comum que a fazia compreender que a paixão tinha acabado (ou que tinha conseguido extingui-la): a não preocupação.

Quando já não se preocupava com o que se passa na vida daquele homem que lhe tinha sido tão essencial, sabia que tinha acabado. Na verdade, sabia que estava gasta, tinha-se deixado consumir pelas exigências alheias, até não haver mais nada.

17 comentários:

  1. Acho que foi o Impontual que disse: O amor esgota

    Bom dia Simple Girl

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    1. Pois esgota, por isso deve ser alimentado constantemente. Caso contrário, pufff!, lá vai ele. :)

      Bom dia, noname!

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  2. É complicado.
    Vale a pena quando ajudamos a carregar os fardos, mas também somos ajudados!
    O amor é bi-direccional!
    Quando não é, é uma treta!

    :)

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    1. Claro, isso é essencial.
      O que me dá que pensar nisto é a forma como se percebe que se está e se deixa de estar apaixonado. :)

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  3. Identifiquei-me muito com o teu texto.
    Por muito que o Amor nos tolde o raciocínio e nos tente mostrar que "não é bem assim"... a pessoa mais importante da nossa vida somos nós próprios. Nós é que estamos em primeiro lugar. Não é egoísmo, é amor próprio. Talvez o Amor verdadeiro, puro, consista em, por vezes, partilhar o pódio, bem como das derrotas ... :) Mas eu nada sei acerca do Amor...

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    1. É resistência também, arriscaria a dizer! Se nos perdermos, não sobra mais nada.
      Oh, acho que ninguém sabe (andamos todos a fingir ;)!

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  4. Senão for na conta, peso e medida de ambos os lados, mais tarde ou mais cedo acaba. Mas não faças, porque sabes que não é, da preocupação com o outro a única medida do amor.

    Bom é ele dançar o tango e ela falar italiano. Ahahahahahah

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    1. Ma io parlo italiano, caro conta corrente!
      Dove sono gli uomini che ballano il tango? ;)

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    2. Ainda bem.

      Eu danço o tango ;)

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    3. Oh gioia inesprimibile! ;)

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  5. A “preocupação” como medida do “amor”… interessante… todos temos os nosso padrões mas parece-me que no texto falta a perspetiva do outro. Longe de ser perito no assunto, continuo a entreter a ideia que o “amor” será uma experiência a dois, uma troca… ou será romantismo da minha parte?

    Beijinho,
    FATifer

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    1. Peço desculpa de por caneta em seara alheia. Mas é mesmo isso, uma troca! Não me parece romantismo. A dificuldade é com quem fazer trocas.

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    2. Nada há a desculpar, pelo contrário, agradeço sim a achega, com a qual concordo plenamente!

      Cumprimentos,
      FATifer

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    3. Meus caríssimos leitores, que eu muito estimo, deixem que vos diga que estão a partir de um pressuposto errado nos vossos comentários.

      Mi spiego (viste, cc? ;)
      Vocês estão a assumir que nunca houve reciprocidade e que o sentimento amoroso, a existir, foi unilateral. Ora, em momento algum isso é dito. Se houve uma «história», teve de começar de alguma forma, teve de ter uma certa duração, ainda que tenha acabado (e acaba o amor, quando acaba a troca).

      O problema dos enamoramentos que terminam é raramente terminarem ao mesmo tempo, para ambos, ficando um a chafurdar no sentimento, à espera de dias melhores. E, como bem sabemos, esta é a temática de milhentos textos pela blogosfera fora: o que é que faço como que me sobrou?

      Tentar entender por que se perdeu um afecto (atenção que nem lhe chamo namoro, por acreditar que a perda de uma amizade que tinha sido bem forte pode levar a sentir o mesmo) é um trabalho solitário, condenado na maioria das vezes à própria perspectiva -- até porque o outro já se escafedeu e está pouco importado em dar a sua versão dos factos.

      Claro que este texto é uma visão unilateral, para estar lá a do outro, era preciso que se tivesse entendido porque é que o outro deu de frosques e, meus caros, sinceramente, eu não percebi.

      Vá, deixem lá de achar que estes textos são sobre o Brad Pitt (na esperança que ele vá ao Google pesquisar por raparigas simples e descubra que eu lhe devoto uma paixão há qu'anos, principalmente desde que ele mostrou o rabo no 'Tróia') e que, obviamente, ele não tem correspondido à altura. Nunca é assim tão simples. :)


      P.S.: a sério que para conversarem aqui neste antro de mutilação emocional é preciso pedirem desculpa e dizerem obrigado? :))

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    4. Faltou dizer uma coisa.
      A preocupação é um elemento, bem importante para mim, por razões cá minhas. O que não invalida as borboletas no estômago, as mãos a tremer, o coração a mil e essas coisas bonitas que todos sabemos fazerem parte da paixão.

      Bem se vê que não leram o meu Cais. ;)

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    5. Começando pelo PS … da minha parte não é preciso mas faço.

      Depois, agradeço o esclarecimento. É propositadamente unilateral (mas eu não assumi nada, apenas constatei a ausência talvez por não ter considerado a unilateridade propositada).

      Os textos serão sobre o que tu entenderes eu não fantasio apenas analiso e “mando bocas” se me apetece :P

      :)

      Em relação à adenda não tinha interpretado que os outros elementos que mencionas estivessem totalmente ausentes. Mas, como tu própria afirmas, estão mais ligados à paixão. A “preocupação” é para ti uma medida do “amor”. “Paixão” e “Amor” só são sinónimos no dicionário, na minha opinião. ;)

      Beijinho,
      FATifer

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    6. Ninguém disse que não havia reciprocidade. Aliás tu não o dizes no texto. Aqui o amigo FATifer e eu concentramo-nos foi na tua curiosidade, isto é, numa coisa tua que é teres a preocupação com o outro como medida de amor. Só isso :)

      Mi spiego também Carla ;)

      Se ele dançar o tango ensina-lhe. Se ela falar italiano ensina-lhe.

      O que será suficiente para se conhecerem bem a fazer coisas boas :) só isso ;)

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