12/09/2016

O fim do sótão

A rapariga que vivia num sótão, no meio da cidade, contemplou a vida do lado de lá da janela alta, por muitos dias. Junto ao chão, as pessoas moviam-se em ondas para dentro e fora dos edifícios; os carros seguiam a ordem dos semáforos e um vapor acinzentado subia às alturas. Não olhava para cima -- o céu era as barras invisíveis que a mantinham presa. Numa manhã clara, com restos de calor, abriu os olhos e espantou-se do sótão, da janela, do céu, de tudo. Porquê viver tão alto?, tão longe de tudo?, tão perto de nada? Arrastou caixas vazias pelas escadas acima, empurrou caixas cheias pelas escadas abaixo, esvaziou o sótão e mudou-se. Antes de sair, queimou a caixa de cartão escondida debaixo da cama, aquela que tinha jurado não voltar a abrir e depois abriu mais vezes do que as recomendadas por qualquer pessoa sã. Viu-a arder, crepitando as reminiscências do passado, até ser um montículo de cinza fria. Guardou a cinza dentro de um saco preto, trancou o sótão vazio, desceu as escadas numa pressa fugitiva, abriu a porta do prédio como quem busca a liberdade, deixou que a porta se fechasse atrás de si com estrondo, para sobressalto dos ex-vizinhos do primeiro andar, e afastou-se. O saco ficou largado no primeiro caixote do lixo que encontrou. Agora, a rapariga vive numa casa junto ao mar. É no avesso do céu que deposita as resoluções finais: nunca mais dar nada de seu, quem lhe quiser o mar, pague renda elevada, com contrato vitalício. Se não quiser, não perturbe, não chateie -- as mudanças são cansativas e a rapariga que vive numa casa junto ao mar só quer viver de futuro.

10 comentários:

  1. Mas que solução inteligente tomou a menina do (ex)sotão. Vistas e caminhadas à beira mar é do mais belo e revigorante que se pode ter. E sim... Rendas altas, muito altas :))

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    1. Muito altas e tudo preto no branco, para não haver cá desculpas. :))

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  2. Belo texto ... quantas vezes eu queria queimar (até às cinzas) a caixa de lembranças que tenho comigo!!!!

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    1. As lembranças estão sempre, ficam é mais esbatidas. Agora objectos que agarram essas lembranças é que podem ser consumidas pelo fogo. :) (ou pelo delete)

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  3. Carla, essa rapariga estará consciente que se nunca mais der nada de seu também é provável não receber nada dos outros?

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    1. Mas a rapariga especifica: «quem lhe quiser o mar, pague renda elevada, com contrato vitalício». Não vá acontecer o que lhe aconteceu ao céu, deu-o e depois nicles.

      A rapariga dará sempre alguma coisa, mais não seja o seu templo a contemplar o mar. :)

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  4. Respostas
    1. Espero que não te tenha decepcionado o rumo que o sótão levou. :)

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  5. A rapariga tomou uma boa decisão. Está-se muito bem junto ao mar. :)

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  6. Como dizia o velho sábio, "o melhor está para vir". E é junto à água que tudo de bom pode acontecer. Já vi uma porta a boiar e imaginei para que mundos daria ela entrada ;)
    Beijo e Godspeed
    PS - O IMI a mais que se paga junto ao mar é uma ninharia, comparado com a paz de espírito que nos traz :)

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