14/09/2016

Esperar é uma forma angustiosa de não chegar a lado nenhum

Sem queixas nem queixumes


Pedem-te que esperes e tu esperas.
Pedem-te um pouco de chão e tu dás.
Ficas então com tempo nas mãos e menos
espaço para poisar os pés.

Suportas o desconforto da imobilidade e a dormência
das pernas que não têm por onde andar. Não lamentas
− o que deste, deste, voluntariamente.

Suportas a preguiça das horas e as rugas na pele.
E esperas. Esperas hoje como esperaste ontem e esperarás
amanhã. Esperas sem saber por que esperas.

Sem queixas nem queixumes.

Depois percebes que a tua espera é vã.

Tomaram o teu chão como outra forma de
colonização e questionaram a tua generosidade.
Pisaram ambos.

Deixaram-te com menos chão e menos tempo.
E pernas incapazes de andar


poema: meu
título: Fernando Esteves Pinto

2 comentários:

  1. Gosto do título e do poema, muito, Carla.

    Há muito quem pense que a mulher nasceu para esperar e depois fica a ver passar navios...

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    1. O Fernando escreve maravilhosamente bem, é um prazer divulgá-lo. :)

      Na altura, já lá vão 3 anos, escrevi isto como resultado de uma espera emocional. Em abono da verdade, quando olho para trás, parece que mais não fiz do que esperar, com resultados ao nível da devastação de um tornado. E isto é o que sempre me custa mais a entender, o que se pede quando se sabe que não se vai cumprir. Enfim... já arrumei o assunto.

      Ontem, recuperei-o por questões mais práticas, menos emocionais. Estou à espera de coisas que me ultrapassam e não posso deixar de esperar. É o sistema. Desgastante, mas é o sistema. :)

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