17/08/2016

Um sótão e um céu

Todas as histórias têm um inicio. Algumas, por vezes, não se sabe dizer quando realmente começaram, deu a surpresa de serem percebidas em estado avançado. Havia uma rapariga que vivia num sótão de um prédio, no meio da cidade. Não se sabe muito mais sobre ela, só que um dia conheceu um homem que pintava céus. Bateu-lhe à porta e pediu permissão para ver o fim da tarde do alto da janela do sótão. Espantada, deixou-o entrar e observou-lhe com atenção o cuidado com que misturava as cores. Posso voltar amanhã? Pois, sim, voltasse. Ele voltou. Todos os dias, várias vezes, sempre para ver o céu tão próximo, tal era a altura da janela. Este céu é meu, disse-lhe, preciso dele, não mo tires. Se me impedires de ter este céu, morro. A rapariga que vivia no sótão guardou aquele pedaço de céu só para ele. Às vezes, vinham outros homens bater-lhe à porta, mas ela não os deixava entrar, podiam roubar-lhe o céu que já não lhe pertencia. Dele não sabia muito, para além de pintar céus e de ter ficado com o céu da sua janela. Vivia os dias a esperá-lo e, quando as visitas começaram a rarear, convenceu-se que era por razão das coisas muito dele, as coisas de que ela não sabia. Um dia, o homem que pintava céus deixou de bater à porta da rapariga que vivia num sótão. Passaram-se muitos dias de vigia à janela, o coração perto da porta, o céu a perder a cor. Num fim de tarde de Inverno, cheio de nuvens carregadas e luz barroca, a rapariga que vivia num sótão viu o homem que pintava céus debruçado numa janela de um quarto andar, vários prédios abaixo. O céu da rapariga que vivia num sótão de um prédio, no meio da cidade, anoiteceu e para sempre ficou trancado do lado de fora da janela. Fim.