10/07/2016

Teoria de Atar Pontas - aplicação prática

kulturtava:
“ Miguel Cuesta
”
Miguel Cuesta

É preciso que passe significativo passado para que se entenda a história que se viveu. Só a abundância da água correndo por baixo da ponte pode limpar a visão turva do que ficou, amaciar as arestas, desgastar a mágoa.

Agora, quando já passaram anos que não cabem nos dedos de uma mão, e te vou votando ao esquecimento, sei que posso remexer no lastro que me deixaste, sem medo de me ferir. Posso analisar-te à lupa, peneirar-te os defeitos, estender-te ao sol da minha verdade.

Desde o primeiro dia em que me deixaste medir a profundidade dos teus olhos verdes vi a minha vida inteira. Vi o futuro de muitas décadas. Vi-nos velhos, mesmo velhos, de rugas elegantes, os meus cabelos brancos presos no carrapito da pressa, os teus ombros curvados sobre o tabuleiro de xadrez.

Haverias de me ensinar a paciência das peças que se movem segundo um rigor que desconheço e eu, que sempre te obedeci em quase tudo, haveria de aprender com afinco e jogar até te vencer. Depois, jogaríamos às cartas, porque o amor resulta em muito de uma boa mão.

Conversaríamos demoradamente as nossas conversas íntimas, aquelas coisas só nossas, carregadas de ironia, ácidas como só o nosso humor sabia ser.

Teríamos chá às 5 e bolo fresco, todos os dias. E seríamos daqueles tais velhos muito velhos, como só os velhos que se amam sabem ser.

Agora, quando já passaram anos que não cabem nos dedos de uma mão, posso dizer-te num murmúrio apagado pela culpa que procurei no fundo de outros olhos um futuro assim. Não o encontrei, a profundidade ocular dos remexidos mal me cobriu os tornozelos.

Roubaste a minha velhice. Há seis anos que não consigo dar rumo à minha vida.

2 comentários:

  1. Carla, quando se escreve assim cria-se a dúvida se terá passado suficiente passado para mexer no lastro sem medo de ferimento... Não será preciso mais passado?

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    1. Cheguei à conclusão que, por muito passado que passe, será sempre assim. A menos, claro, que aconteça alguém que me vire de pernas para o ar - não excluo a hipótese. :)

      Escrever tão claramente sobre o "culpado" pela existência deste blogue é sinal que o passado vai passando. Devagarinho, mas pasando.

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