08/02/2016

A resistência da memória

Tenho-me esquecido de tudo. Da rua onde vivias, dos pontos de referência que davam à rua onde vivias, o nome da estação de metro que apanhávamos, o nome do café onde esbardalhei o chocolate do croissant na compostura festiva da minha saia e onde te esbardalhaste a rir com a minha cara chocada. Esqueci-me de muitos dos assuntos das nossas conversas, de como fomos de umas às outras. Esqueci o teu número, o teu percurso académico, as minudências da nossa convivência.

Mas não esqueci o hotel ao fundo, visto da altura da varanda, e a rua sempre a rugir de trânsito, nem o peso da manta de lã, nem o cheiro do frango assado, nem o teu joelho dobrado servindo de apoio ao meu queixo, enquanto discorrias sobre a chuva lá fora, nem os teus olhos tristes, nem a última mensagem com a promessa que não cumpriste, nem aquele abraço que depois foi o último, nem o lugar gélido que escolheram para nos encontrarmos pela última vez, nem o som dos meus passos no cimento triste da cidade fantasma onde te abandonei, nem do dia do teu aniversário que deixaste para nós celebrarmos por ti: em silêncio, olhando as velas que se consomem e derretem sobre um bolo que ninguém quer comer..