31/12/2015

Reciclam-se os desejos (e as imagens)



Bom Ano a todos!!!

30/12/2015

Quando falta só um bocadinho

Depois de ter querido que tudo mudasse, tendo tudo ficado igual, e de ter lançado os foguetes do céu figueirense antes do tempo; depois de ter pedido a 2013 que me deixasse saudades e de ter feito as pazes com ele, por não ter correspondido integralmente; depois de ter esbardalhado os dias; depois disto tudo, chego ao fim de 2015, como Fernando Pessoa chegou ao fim da Mensagem -- «Senhor, falto-me cumprir eu».


somethingtoseeorhear:

Burt Glinn, Ad Reinhardt painting at the MoMa, N Y C, 1964
Burt Glinn, Ad Reinhardt painting at the MoMa, N Y C, 1964

29/12/2015

O dia brilha

O trabalho acumula-se por todo o lado. Cresce como pequenas ervas entre as pedras e espalha-se como as sementes maduras levadas pelo vento. Abro e fecho livros, cadernos, pastas sem corpo, sem saber o que quero encontrar. Minto. O que quero encontrar é a única coisa que não está. Fecho os olhos, imagino como seria, canso-me ainda mais. O vento sopra mais sementes prenhas de tudo menos do que eu queria. O dia brilha com energia renovada, castiga os olhos fatigados em olhar o que poderia estar e não está. Doem-me as mãos. Deixa-me adormecer no teu regaço.


eikadan:

From ‘Pure as snow’ seriesMira Nedyalkova
From ‘Pure as snow’ series
Mira Nedyalkova

27/12/2015

Manhãs

Acordar com vontade de me abandonar ao tempo. Confirmar que ainda sei de cor os caminhos por onde os meus dedos andaram e onde me perdi sem remédio. Fechar os olhos como quem guarda o sonho e aprisiona o desejo que se esvai pelos lábios entreabertos. Sentir o corpo a desfazer-se de saudade, engolido pelo calor da cama sempre vazia.

23/12/2015

Não sei desejar pela metade

Carla Pinto Coelho


Por isso, para todos, desejo o melhor e dias felizes por inteiro.

Lista de desejos natalícios (com atraso considerável)

A pensar nos atrasados (e talvez isto não seja politicamente muito correcto) que me querem encher de prendas este Natal e ainda não descobriram o que me dar, eu dou uma ajudinha.

Lista de desejos natalícios

um descascador
um ralador
um coiso de cortar coisas em fatias
um descaroçador
uma faca de legumes
um quebra-nozes
um copo de medir
uma balança
um tacho que leve mais de 5 kg (não é uma panela, é um tacho)
um cheque-oferta numa gráfica com direito a impressão de 500 000 rótulos
um cheque-oferta numa fábrica de vidro com direito a comprar 500 000 frascos
açúcar, muito açúcar (pacotes de quilo, sacos de 10 ou 25 kg, desde que seja Sidul ou RAR)
sacos de nozes
abóboras menina
sacos de colheres
resmas de sacos de papel
quilómetros de ráfia
berliques e berloques



Enfim, não quero ser muito exigente, nem pedir demasiado.
São só umas sugestões singelas.

22/12/2015

às vezes o tempo fica parado e espera-se. não se sabe muito bem o quê.


21/12/2015

Atar as pontas

Temos a vida transformada num novelo. Entre a parca habilidade em enrolar o fio e o descuido alheio pela meada de que somos feitos, o mais certo é chegarmos a uma altura em que as pontas são mais que muitas e as oportunidades de as atar, muito escassas. Devemos, por isso, aceitar com toda a alegria os momentos em que os enganos do passado possam ser esclarecidos - pelo menos o vislumbre de que seja isto mesmo que venha a acontecer.
E as outras? É esperar com paciência. Pode ser que atinjamos um dia o ponto perfeito de não termos mais passado desarrumado para nos perturbar o resto dos dias.

18/12/2015

Até...


17/12/2015

Perhaps I've done all wrong

a verdade é que fiz o melhor que soube.
 

Wrong way by ~dropoflight

16/12/2015

Se a música não fizer a parte dela...


Seafret - Oceans

15/12/2015

A trapezista

 
 


Começou a subir aos telhados.
Começou a resolver neles muito tempo.

(Primeiro, os dedos na janela mais acima.
Depois, era o cabelo que subia.
Um pulso a içar a alma para outra cidade.)

Daqui vê-se tudo.
Os gatos deitam-se e lambem-me os pés.

Os pés sobem molhados pela chuva.
Os homens congeminam negócios estendidos nas mulheres.

As crianças gritam dentro das casas quando os sonhos
lhes arrancam pedaços das costas.

Os homens caminham com quadros pendurados nos joelhos
As pessoas escrevem artigos nas revistas
sobre o que seria o mundo se alguém do outro lado as ouvisse

E é então que eu saio
e sobre os ombros das árvores disponho a economia
cravando-lhe os dentes ou
roçando apenas o meu sexo
no trapézio

Inclino-me sobre a sua demência particular
neste dia emparedado entre sucessos e crisântemos
e as crises
e ouço as ruas onde lá em baixo uma pessoa
ajeita um pouco melhor os ossos

Aquela mulher fabricou uma cozinha resistente a tudo
atravessou os séculos assoberbada de electrodomésticos
inexpugnáveis – ao fim-de-semana envolvia-os em celofane e espanava
um pouco melhor os filhos.

Mais à frente o parque onde as estratégias se apresentam -
o presidente à frente, seguido pelo hidrogénio ou o hélio
– conforme a posição do sol no buço da democracia –
e o écran reflectindo o écran e a
maresia.

Aqui no alto rodo os pés e alongo mais os braços.
Nos primeiros meses estendia-me com o corpo para baixo e deixava
o sangue inundar a cabeça. Via manchas vermelhas da
menstruação por entre os amigos que prometia esquecer.
Eles traziam-me os seus corpos nus e eu aquecia as suas unhas
cravadas pelo vidro.

Dizem: se os videntes permanecem firmes perante pequenos tiranos
podem chegar a suportar a presença do incognoscível.
Todo o conhecimento é o resultado de uma deslocação.
Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
Se quiseres fazer como o feiticeiro índio da tribo iaqui,
perguntarás: e esse caminho tem coração?

Perdi a minha agenda de fenómenos electromagnéticos.
Não sei por isso de que lado esperar
este súbito irromper
da melancolia.



rui costa
metphoria
guimarães2012
fundação cidade de guimarães
outubro 2012

 

14/12/2015

Nem este blogue o é

A ideia da exposição da intimidade é enganadora, porque as pessoas presumem sempre que sabem coisas que não sabem, fazem inferências baseadas em nada. Julgo que a intimidade diz respeito aos temas da poesia, todos os temas grandes da poesia são de certa forma íntimos – o amor e a morte são assuntos bastante íntimos. Mas um poema não é um diário

Pedro Mexia, em entrevista no Jornal I



(lido no blogue da Rita Nashe; realce meu)

12/12/2015

Furiosamente

baking:

11/12/2015

E no regresso é isto

Uma pessoa escavaca-se no blogue, esbardalha-se em músicas, letras, imagens, cenas... e passam dias sem que alma vagueie neste espaço. Um dia, tropeça em Hans Bellmer, gosta do que vê, partilha e em dois dias o homem chega às 200 visitações.
 
Sem ter punch line que acabe com isto, é melhor ir secar o cabelo e passar um creme nas mãos.

Viver dói

Percebemos toda a nossa irrelevância quando, no momento em que mais precisamos das nossas pessoas, elas decidem abandonar-nos.

09/12/2015

Hans Bellmer

07/12/2015

A terceira panela

Tenho a terceira panela ao lume. O açúcar desfaz-se na água e, correndo tudo bem, há-de começar a caramelizar e eu hei-de juntar-lhe bananas às rodelas e deixar apurar. Cheira por isso a banana na cozinha, uma banana madura e cheia de pintas. É a terceira panela que ponho ao lume, hoje. As encomendas chegam sem aviso e são sempre em grande, mesmo que sejam de frascos pequenos. O açúcar vai-se desfazendo, a fruta cozendo, os frascos enchendo. A cozinha cheira a banana, mas já cheirou a pêra e a vinho do Porto, a abóbora e há-de cheirar a maçã -- com pequenas notas de limão pontilhadas de canela. São bonitos os frascos que vou enchendo e onde hei-de colar rótulos lilases e atar fitas douradas. A terceira panela ferve no lume. Vejo o açúcar a desfazer-se na água. Não sei se é o açúcar se sou eu.

06/12/2015

O castigo do exilado

é saber que nunca regressará a casa.
 
Cuca, a Pirata*
 
 
 
*Desculpa, Cuca, mas não consegui esperar pela resposta. :)
 

04/12/2015

Speaking of Truth


LALEH

Princesa abandonada





fere-me uma dor na alma feita de cinza e olvido
um saco tropeçado no chão a transtornar-me a alegria

03/12/2015

A resistência dos materiais

Não há como fugir. Nalgum momento específico todos vão exigir, tentar quebrar-te, impor, forçar, dobrar-te à sua forma. Hão-de ficar muito ofendidos quando o material de que és feito resistir. E hão-de dizer que a culpa é tua, és tu que não sabes fazer as coisas -- porque as coisas bem feitas são feitas como eles querem. E hão-de ir embora, batendo a porta com estrondo, com grandes gestos dramáticos e afectados. E hão-de deixar-te sozinho, mergulhado na culpa que te impuseram, a ver se quebras, a ver se cedes. Depois hão-de cansar-se e procurar outras vítimas. O material de que és feito ficará então ainda mais resistente.

02/12/2015

Tenho secretamente guardado mapas das terras que ainda não vi.

E das que vi, também, para que um dia possa voltar. Tenho traçado rotas e marcado lugares, com um marcador de ponta média. Escrevo datas previstas de visitação e planeio passeios que durem vidas. Chapéu na cabeça, mochila às costas, sapatos leves nos pés. Distraio-me. A minha pele ainda não se habituou ao prurido que o chumbo das correntes lhe provoca.