29/07/2015

Não há dia

que passe em que não tenha vontade de fazer coisas contigo. Pôr de parte a compostura e as observâncias sociais. Espalhar o vinho sobre a mesa e dizer que foste tu. Girar os pratos pelo ar até aterrarem no chão.


Não há dia em que não guarde a vontade em suspenso até ao amanhã.

28/07/2015

Metades


26/07/2015

Pensamentos dispersos no cair do Domingo

Há coisas da nossa vida que não interessam a ninguém, de tão irrelevantes que são. De que serve partilhá-las, se o destino delas é o caixote do lixo do Esquecimento?


No mesmo caixote é possível encontrar bens de primeira necessidade, como corações sem dono que os queira. E cabeças desorientadas à procura de mãos que recuperem os ditos órgãos.


O Esquecimento tem um apetite voraz. Nada lhe resiste. Até Aquiles será engolido, mais dia menos dia.

24/07/2015

Eu não sei

o que é que os homens com mais de cinquenta andam a fazer à vida deles, mas alguns deviam ser proibidos de sair à rua, tal é o nível de sensualidade que atingem. Ao lado deles, os de trinta são uns meninos. E depois querem que eu, rapariga simples e séria, mantenha a compostura.

21/07/2015

A mesa da cozinha

A mesa da cozinha está vazia de pessoas permanentes. Só se sentam nas cadeiras as pessoas temporárias, aquelas de que fujo desde que me lembro e que têm poderes para, todas as vezes que quase consigo, trazer-me de volta. A mesa da cozinha não é minha. Nem são meus os pratos, os talheres, os copos, a toalha. Não decido nada na cozinha onde todos os dias decido por imposição o jantar. Acontece lembrar-me das mesas das cozinhas que já foram minhas e onde se sentaram as pessoas que escolhi. Nada me pertence já: nem cozinhas, nem mesas, nem pessoas. 

Tenho as malas feitas, debaixo da cama, e deixo todas as noites a janela do quarto aberta. Há-de passar uma estrela em cadência que tenha espaço para mim e me leve para nunca mais voltar.

Página em branco

É traço distintivo de quem vive da escrita o medo da página em branco. A ausência de ideias, a inabilidade de alinhavar as frases, a incerteza da qualidade final. Tudo isto está largamente documentado e testemunhado.

Eu não tenho medo da página em branco por não saber o que escrever. Eu tenho medo da página em branco por temer escrever demais.

20/07/2015

18/07/2015

Dona Maria, vá dormir!

Dona Maria - Chão da Feira

17/07/2015

Lábios

O reflexo no espelho devolve-me o movimento da minha mão enquanto pinto os lábios. São uns lábios bonitos -- tenho de o reconhecer. É uma pena andarem tão desaproveitados -- tenho de o lamentar.

16/07/2015

São oito horas

São oito horas e o comboio parte. Há um apito que marca o início da marcha, um apito que não é o assobio da mão levantada a acenar com uma bandeira, como se nos dissesse adeus, como se nos desejasse uma boa viagem. Nas estações e apeadeiros das nossas linhas, já nada é como dantes. Os apitos, os avisos, as cores, os bancos, as portas, tudo parecido, asséptico, muito longe da memória. A voz roufenha que anunciava a chegada do comboio foi substituída por uma voz computorizada que demorou muito tempo a saber o nome das terras que anunciava. Descontinuaram o Inter-Regional, desde esse dia o meu prazer por viajar descontinuou.

São oito e meia e o comboio chega. Longe do centro, Coimbra ainda é uma cidade respirável. A chegada é sempre mais rápida do que a partida. Há-de levar-me uma hora a voltar para casa. Um comboio climatizado há-de arrastar-me pelas linhas de ferro, mostrando sequências de estações vazias, de portas fechadas, pintadas de azul e branco e protecções de alumínio. Fecho os olhos e lembro-me dos comboios da minha infância, quando os meninos queriam ser maquinistas e as meninas passear muito.

Chego. A minha estação de parte incerta.

15/07/2015

Podemos nós viver cortados ao meio?

Sermos exactamente meio bons ou meio maus?


04/07/2015

Olhos de lince

O meu passado está sentado à minha frente e olha-me com olhos de lince. Sabe, por aturada experiência, que a verdade se esconde mais no fundo dos meus olhos do que na superfície dos meus lábios. Digo-lhe que está tudo bem, porque está mesmo bem, se não tudo, quase lá, numa esquina do tempo que se aproxima a passos largos do concreto. Acredita. O meu passado que me olha com olhos de lince sentado à minha frente convence-se da minha verdade.

O que o meu passado de olhos felinos não sabe é que o meu fugir pela janela e o meu esgueirar nas sombras é a consequência da desabituação. Desaprendi as convenções da socialização, a língua descobriu-se torpe nas conversas, o raciocínio trôpego, os gestos vagos. 

Também não sabe da minha dificuldade em dar corpo aos nomes que acumulo em listas de contactos que deixaram de contactar com mãos e risos e abraços apertados à chegada e à partida. Desconhece igualmente que me estou a esquecer da melodia das vozes, por isso, digo em voz alta os nomes das minhas pessoas, para as sentir mais próximas.

Ignora o tempo que passo a a olhar as fotografias guardadas nos arquivos do meu computador, para cinzelar na memória os traços dos rostos que se esbatem na humidade espessa do tempo.

As minhas pessoas começam a não me pertencer e eu começo a não saber estar com elas. Por isso, fujo, principalmente quando se sentam à minha frente e me vasculham a alma à procura do que não sei esconder.



01/07/2015

A ingratidão também acontece por inabilidade

Não estou habituada a que demonstrem que se lembram de mim. Que me ocorra, não tenho em casa qualquer caneca ou prato que me diga que alguém meu conhecido esteve num determinado lugar e pensou em mim tanto que foi impelido a carregar terracota polícroma vidrada, para que não me esquecesse da sua viagem.

Claro que não estou a considerar que ninguém, nunca, se lembra de mim, seria um absurdo, ainda para mais quando sei que somos capazes de nos lembrar das pessoas mais insuspeitas, nas alturas mais insuspeitas. Apenas, que não é costume que me digam que o fizeram.

Foi, por isso, com grande espanto que me entregaram um envelope pardo, com um conteúdo lindo de morrer e uma missiva que me deixou naquele estado de assombro enternecido de que padecem as pessoas quando apanhadas de surpresa. Acho que ainda não saí dele, caso contrário já teria agradecido ao remetente do envelope pardo.

Sim, este texto é um mea culpa público. Mas é também um profundo agradecimento -- é tudo tão lindo!

Estou perdoada?, minha linda e querida pessoa remetente e que não vou dizer quem é. :))