31/03/2015

Devo ter encontrado o livro da minha vida

Dás reviravoltas ao corpo e à imaginação para afastar a tristeza. Mas quem te disse que é proibido estar triste? A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste; todos os dias acontecem coisas, aos outros e a nós, que não tem remédio, ou melhor, que tem esse antigo e único remédio de nos sentirmos tristes.

Não deixes que te receitem alegria, como quem prescreve uma temporada de antibióticos ou colheres de água do mar em estômago vazio. Se deixares que te tratem a tua tristeza como se fosse uma perversão ou, na melhor das hipóteses, uma doença, estás perdida: além de triste, irás sentir te culpada. E tu não tens culpa de estar triste. Não é normal que sintas dor quando te cortas? Não arde a pele se te dão uma chicotada?

Pois, do mesmo modo, o mundo, a vaga sucessão dos factos que acontecem (ou dos que não acontecem) criam um fundo de melancolia. Já o dizia o poeta Leopardi: «tal como o ar enche os espaços entre os objectos, assim a melancolia enche os intervalos entre um prazer e outro».

Vive a tua tristeza, tactei-a, desfolha-a nos teus olhos, molha-a com lágrimas, envolve-a em gritos ou em silêncio, copi-a em cadernos, anota-a no teu corpo, anota-a nos poros da tua pele. Pois só se não te defenderes fugirá, por momentos, para outro lugar que não o centro da tua íntima dor.

E para saboreares a tua tristeza vou recomendar-te também um prato melancólico: couve flor em brumas. Trata-se de cozer em vapor de água essa flor branca, triste e consistente. Devagar, com aquele odor que tem o próprio hálito que a boca exala nas lamentações, ela vai-a cozendo até amaciar. E em volta em bruma, no seu vapor fumegante, põe-lhe azeite e alho e alguma pimenta, e salga-a com lágrimas que sejam tuas. Então saboreia-a devagarinho, mordendo-a do garfo, e chora mais, e chora ainda, que aquela flor acabará por ir chupando a tua melancolia sem te deixar seca, sem te deixar tranquila, sem te roubar a única coisa que é tua naquele momento, a única coisa que já ninguém te poderá tirar, a tua tristeza; mas com a sensação de teres partilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré-histórica, com essa flor que os noivos nunca pedem nas floristas, com essa flor de couve que ninguém põe nas jarras, com essa anomalia, com essa tristeza florescida, a tua própria tristeza de couve-flor, de planta triste e melancólica.



Héctor Abad Faciolince in Receitas de Amor para Mulheres Tristes, Ed. Presença


texto encontrado no blogue Há Vida em Marta

30/03/2015

Quando morre um poeta

"A morte de alguém nunca nos compensa da falta que nos fará, ainda que a obra deixada seja bastante e nos pareça completa. É uma merda. A morte de alguém é uma merda. Quando nos agarramos aos poemas é porque não nos podemos agarrar a mais nada."

valter hugo mãe, "autobriografia imaginária", in JL, 8-21 de fev. 12

29/03/2015

Actos de cobardia

As músicas têm o poder de nos permitir apropriar da criação alheia sem nos comprometermos demasiado. Simplificando: facilitam-nos valentes actos de cobardia.


Your flesh against maine - Dillon

28/03/2015

Inauguras-me o mundo

Inauguração do Mundo - Governo


Ai a saudade feita de ti, um fogo posto, um fogo meu
todos os nomes que ouço e cada som chamam por ti
eu sou quem ama tudo em volta, se tudo em volta és tu

sem fim, o meu desejo e de mais ninguém, será sempre assim
um céu solar, uma combustão desmedida, o que a saudade quer

nesta cidade há milhões de ti, milhões de rostos, como o teu
a vida passa feliz e a vida passa feliz

sem fim, o meu desejo e de mais ninguém, será sempre assim
um céu solar, uma combustão desmedida, o que a saudade quer

tu inauguras o mundo solar, mil milhões de biliões de obsessões por ti
tu inauguras o mundo, nascem as luzes no verso do meu peito
um incêndio é agora a noite inteira

27/03/2015

Será que alguém pensa

, na sede de culpar o piloto suicida, na família a quem exigem as respostas que não tem?
Alguém questiona a devastação que vai na vida dos que ficaram com as consequências de um acto que não foi seu?
Será assim tão difícil um pouco de humanidade, e um pouco de silêncio, enquanto se juntam as notas de culpa que não trarão cento e cinquenta pessoas à vida?

Aprendizagem ao longo da vida

Aprender a solidão é uma tarefa solitária. Aprende-se quando se aceita que não há livro que preencha, música que console, corpo que abrace. Só uma total e omnipresente ausência de tudo.

Lisa by EmilySoto

25/03/2015

O que é pior?

Que morra um poeta e se multipliquem as elegias e os panegíricos, mesmo ocos, mesmo hipócritas.
Ou que morra um poeta e se multiplique o silêncio?

24/03/2015

Estou tristíssima

Aos amigos


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
─ Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.

De paixão.




Escolho este poema pela evocação de outro poeta cuja perda foi irreparável.

23/03/2015

No meu mundo perfeito

Há poucas coisas que me enchem de orgulho. Não digo que não tenha gostos variados e profundos sobre vários assuntos ou pessoas, apenas não produzem em mim aquele sentimento de alegria orgulhosa como o trabalho do meu segundo irmão. Porque um bocadinho dele está em tudo isto e poucos foram os que lá conseguiram chegar.


21/03/2015

Pensar em poesia é pensar no meu poeta. Por hoje basta.

20/03/2015

Ai, caramba!

Ontem foi dia do Pai, hoje começa a Primavera, amanhã é dia da Poesia! Isto é muita celebração seguida para uma pessoa só.


18/03/2015

Que tens andado a fazer, Carla?

Muitas coisas, meus caros.
Há uns meses, talvez muito influenciada pelos blogues de culinária que sigo, para não deixar estragar a muita fruta que amadurecia nos pomares cá de casa, experimentei fazer uns doces. Nada de muito complicado, receitas seguidas de viés e a coisa deu-se. Tem sido um fartar de distribuir doces por toda a gente, para muitos lados, até para o estrangeiro.

Num dia destes, entre dentadas lambuzadas em bolachas torradas bem cobertas de doce de abóbora com nozes, o meu pai e o meu irmão mais novo lembraram-se: por que não fazes doce para vender?

Desta pergunta meio grunhida aos frascos alinhados no armário passaram umas semanas intensas de procura de voluntários para prova doceira e de experiências na cozinha.

Depois disso, foi decidir-me pelo nome, construir a imagem, escolher os frascos, tentar uns rótulos, criar o blogue, as páginas do Facebook e do Google+, fazer contas e mais contas e consumir muitas horas em frente ao computador.

É com muito orgulho maternal que vos apresento o meu mais recente projecto: A Colher Gulosa.



Ah, aceito encomendas e tal. Isto é, se vos apetecer, claro. ((:

17/03/2015

13/03/2015

Ó senhores da BBC, não

suspendam o Top Gear! Depois onde é que eu vou ver homens a fazer figuras parvinhas e carros muita giros??

A polémica pode ser seguida aqui. Isto, claro, se fizerem a mínima ideia do que estou a falar...

11/03/2015

Give me shelter

Porque olhar para as folhas de Excel está-me a cansar as pálpebras. Melhor pensar em coisas bonitas.


Ben Horard - Only love

09/03/2015

São dias

attimi-rubati:Passion by Lyonah
Passion by Lyonah


de uma preguiça que se espalha no forro da mente
ainda que o corpo se mova e os afazeres cresçam
como pequenos fungos no verde das horas
é na horizontalidade revolta do leito do linho
que descansam os corpos feitos tempo

05/03/2015

E eu p’ra aqui neste sarilho

O rádio do carro cá de casa tem um temperamento particular. Não sei se por velhice, se por cansaço, mas os momentos de silêncio com que nos brinda tem um quê de amuo de mulher que se sente ignorada. Apanha-nos à falsa fé e é aos gritos que nos faz saber a que velocidade correm os jogadores de futebol no campo ou nos põe a par de conversas que, sou capaz de jurar, vêm de Marte ou de outro planeta onde há extraterrestres. Raramente conseguimos mantê-lo na mesma estação, duas viagens seguidas, sem contar que nos dias de calor lhe dão desmaios que duram e duram e duram.

Ainda assim, é capaz de surpreender - em espaços de tempo que rondam os cem anos - e, numa das últimas viagens que fiz em direcção à foz do Mondego, decidiu que a Antena 2 era boa companhia durante os vinte e cinco minutos que durou o trajecto.

Foi graças a esta mudança de humor do rádio do carro cá de casa que descobri esta música, parte do projecto de FF, SAFFRA. Tão bonita, não é? Para vocês, com os cumprimentos do rádio destrambelhado do carro cá de casa.




A safra deste ano - SAFFRA

O campo está no ponto para se poder semear
O coração está pronto para bater mais devagar
E eu p’ra aqui neste sarilho,
Nem semeio o milho, nem vou namorar

A voz da minha mãe chama para a ceifa uma vez mais
Mas já a tua voz me quer distante lá dos trigais
E eu que sou bom rapazinho
Esqueci-me o caminho da voz dos meus pais

Só sei que a safra deste ano vai ter mais beijos do que trigo
E sei que ou muito me engano ou tu tens o plano de casar comigo

Meu pai há de ficar zangado se eu não aparecer
Mas ver-me apaixonado há de fazê-lo reviver
Os tempos em que as raparigas
Cantavam cantigas para o endoidecer

Ficar a olhar pirilampos causa um certo fastio
O coração é como os campos, também requer pousio
E quando eu já estiver cansado
Volto para o arado, que eu não sou vadio

Só sei que a safra deste ano vai ter mais beijos do que trigo
E sei que ou muito me engano ou tu tens o plano de casar comigo


02/03/2015

who cares?


as coisas não me interessam o suficiente para me preocupar em pensar sobre elas. será indício de alguma patologia, um sintoma, um traço de personalidade. não me interessa. a política, a cultura, a vida alheia, os meus dramas, de nada quero saber. agride-me o excesso das palavras que se dizem porque o silêncio é um bicho de pêlo áspero que arrepia as mãos e puxa malhas nos collants perfeitos dos sempre-tontos. tontos no debitar de palavras sobre tudo, sobre nada, sobre um par de botas e de flip flops. chiacchierare - tagarelice que me evoca o cacarejo, pequenas galinhas bicando assuntos, engolindo-os inteiros, batendo asas assustadiças. que interessa? no fim, vamos todos morrer.

01/03/2015

A Starry Sunday