31/01/2015

O segredo dos teus olhos

Katia Chausheva


«Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;
Se os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso.»
Mt. 6, 22-23

29/01/2015

A profundidade da minha ignorância

Desde ontem que ando a matutar nos vencedores do Prémio Nobel da Literatura. Reformulo. Desde ontem que ando a matutar em quantos vencedores do Prémio Nobel da Literatura conheço e/ou já li. Com uma ajuda da sempre amiga Wikipédia, conto 101 vencedores e pressinto já o negro do obscurantismo literário que se aproxima. Não há como fugir à negra nuvem, ter lido oito em cento e um, e ter um à espera há cerca de dez anos, atira-me para uma idade média das letras, para o nono círculo infernal dos bons leitores, para o desterro dos intelectuais. Não sei se o facto de ter tido este pensamento enquanto lia Mondiano em francês tem algum atenuante. É que é «chique a valer»!


A parca lista da vergonha

Thomas Mann (1929)
Luigi Pirandello (1934) - na língua original, sff
Eugene O'Neill (1936)
Hermann Hess - o tal que está em espera
Ernest Hemingway (1954)
Gabriel García Márquez (1982)
Camilo José Cela (1989)
José Saramago (1998)
Patrick Mondiano (2014)


Depois há os que se lêem aos retalhos, espalhados por antologias e sítios de poesia, como Neruda ou T. S. Eliot, mas esses não contei.

28/01/2015

Cartas ao meu eu futuro - 4

Tenho cada vez mais dificuldade em saber o que serei. Insisto e persisto em desenhar em folhas de papel alvo o encadeamento da minha história, obrigando-me permanentemente a usar cores garridas, muito femininas e delicadas, que contrastem com a trindade que me acompanha: branco-preto-cinzento. Não é fácil. Nem sei se o argumento da intemporalidade do meu trio ajuda a explicar o que quer que seja, pode ser só o conforto de não ter de pensar muito ou uma falta de jeito natural para combinar cores e padrões mais garridos.

Divago. Acontece-me muito, se viajo, se arrumo, acontece-me mais. Raramente quando escrevo, aí há uma rigidez de argumentação que me prende os dedos e por mais que queira escrever frases sem pensar não sou capaz. Se dou por uma ausência de vírgula, uma concordância a martelo, é num ápice que volto atrás e componho tudo - só depois prossigo. Entretanto, a minha divagação esmoreceu.

Não sei se daqui a muitos anos continuarás tão divagadora como agora, ou se terás já desistido de escrever - se ao menos soubesses usar aqueles programas em que falas, falas e o computador escreve, escreve. Quem me dera saber desenhar, ou pintar, ou tocar um instrumento. Não sei e por isso trago sempre dentro de mim um grito que se forma no estômago e me pressiona o coração, uma ânsia de me libertar disto que me formiga nos dedos e que acho se chama... Não sei como se chama, apesar disso, gostava de me confortar com a ideia de que um dia aprendi formas de arte mais intuitivas, mais plásticas ou sonoras.

Daqui a muitos anos, quando leres isto, desejo com todas as forças que tenhas aprendido a solidão. E que tenhas aceitado com naturalidade que, contra tudo o que sempre foste sentiste precisaste, a comunidade é um nome que te foi abstracto. Aprende, pois, a aceitação do refugo de que és feita, material de pechisbeque que não dignifica os que te acompanham. Só depois poderás construir-te em fundações de pedra, a mesma pedra das montanhas solitárias no nordeste transmontano.

27/01/2015

Tristeza

Andrea Margret 
Andrea Margret por Mark Sink

«Com uma faca de cozinha fizeram-me um golpe entre o pescoço e o abdómen.
Enfiaram a mão e arrancaram tudo.
Selaram com agrafos.
Tudo sem anestesia.
As portas da angústia movimentam-se lentamente.
Dói-me muito.»

Isabel Pires (2014). Inquietude. p. 17


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Isabel, querida, por favor, cria um blogue! 

E a escrita. Ah, a escrita!

26/01/2015

Natureza humana



«E, por se multiplicar a iniquidade, 
o amor de muitos esfriará.»
Mt. 24, 12

24/01/2015

Postal de Natal fora de horas

No Mercado de Natal em Tréveris, Alemanha. Mais fotografias do lado de lá.

22/01/2015

Vento do sul

Tinha o hábito de abrir a janela pela manhã. Cedo, quando o dia mal tinha acordado. Abria a janela para trás e afastava os cortinados. Nos dias frios de Inverno, a geada era uma espécie de neve, cobrindo o chão e os telhados de alvura gelada. Na rua havia ainda o silêncio. Nem bicho nem homem perturbavam a sua espera. Era de janela aberta, cortinados afastados e rua em silêncio que esperava. Por vezes, Noto soprava sobre o seu cabelo, enrodilhava-lhe a roupa e acariciava-lhe a pele. Nesses dias, os dias eram solstício de Verão e ela uma Perséfone a abandonar o Hades.



intimates5
Sophie Vlaming by David Bellemere

20/01/2015

Da lembrança dos dias ácidos

Yulia Kasban

o.f. (1967-2007)
José Mário Silva

Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.

Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.



17/01/2015

A certeza dos abismos

um homem e uma mulher dançam. ninguém ouve a música mas eles sabem-na de olhos abertos e ouvidos a ouvirem para dentro. não se tocam -- cada um dança no seu canto da sala. entre eles metros de chão, cada taco é um revés. se ao menos eles soubessem voar.

Isabel Muñoz

15/01/2015

Mais personne sait comment on fait des papas

Stromae é o cantor da moda por terra belgas e francesas - e outras que agora sai cansativo elencar - muito à custa de «Alors on dance». Junta ritmo, uma guarda-roupa muito sui generis, letras incisivas e uma postura corporal que escapa ao dito normal. 

Este ano arrebatou três galardões nos prémios da música francesa, Les Victoires de La Musique, intérprete masculino do ano, melhor álbum e melhor vídeo. O vídeo em causa causou grande  burburinho antes de se saber que tinha sido propositado, já que Stromae aparecia embriagado pelas ruas de Bruxelas, gritando a plenos pulmões «formidable». E quem nunca fez figuras tristes depois de lhe terem posto uns patins que ponha o dedo no ar para eu me vingar em glória.

Pelo que soube, o aparecimento deste cantor esteve durante muito tempo envolto em mistério, sabe-se agora que o pai, que teve pouca presença na sua vida, morreu no genocídio do Ruanda em 1994, e que lhe inspirou a música que se segue.

E por que me lembrei dela? Quem conseguiu que o último número de Charlie Hebdo (quem não conseguiu que clique aqui) vai encontrar nas páginas finais uma caricatura de Stromae a cantar «Papaoutai».

E depois? E depois, nada. Era só para partilhar.


Papaoutai - Stromae


Papaoutai
Stromae


Dites-moi d'où il vient,
Enfin je saurais où je vais,
Maman dit que lorsqu'on cherche bien,
On finit toujours par trouver,

Elle dit qu'il n'est jamais très loin,
Qu'il part très souvent travailler,
Maman dit "travailler c'est bien",
Bien mieux qu'être mal accompagné, pas vrai?

Où est ton papa?
Dis-moi où est ton papa.
Sans même devoir lui parler,
Il sait ce qui ne va pas,

Ah sacré papa,
Dis-moi où es-tu caché?
Ca doit faire au moins mille fois que j'ai,
Compté mes doigts,

Où t'es papa où t'es?
Où t'es où t'es où papa, où t'es?

Quoi qu'on y croit ou pas,
Y aura bien un jour où on y croira plus,
Un jour ou l'autre on sera tous papa,
Et d'un jour à l'autre on aura disparu,

Serons-nous détestables,
Serons-nous admirables,
Des géniteurs ou des génies,
Dites-nous qui donnent naissance, aux irresponsables,

Ah dites-nous qui tient,
Tout le monde sait comment on fait les bébés
Mais personne sait comment on fait des papas,
Monsieur jesaistout en aurait hérité, c'est ça...

Faut l'sucer que son pouce ou quoi,
Dites-nous où c'est caché, ça doit,
Faire au moins mille fois qu'on a bouffé nos doigts,

Où t'es papa où t'es?
Où t'es où t'es où papa, où t'es?

Où est ton papa?
Dis-moi où est ton papa,
Sans même devoir lui parler,
Il sait ce qui ne va pas,

Ah sacré papa,
Dis-moi où es-tu caché,
Ça doit faire au moins mille fois que j'ai,
Compté mes doigts,

14/01/2015

Como se estivesse na rua

é assim que me sinto em casa. Gelada -- das raízes ao tronco.


Luxemburgo

Natureza humana

Gostamos do que nos dá estatuto. Tanto pode ser uma aliança no dedo, um smartphone no bolso ou um Charlie Hebdo debaixo do braço.

13/01/2015

As tesouras são nossas amigas

Mesmo aqueles que vivem os dias na companhia de pequenas angústias castradoras podem ter um momento de grito e libertação. Eu, que não cortava o cabelo há um ano, epiranguei-me. Despedi-me hoje dos meus fios castanhos que já quase chegavam à cintura e comecei um sério caso de paixão com o comprimento pelos ombros e com uma franja. Vinte anos depois.


12/01/2015

Passa das três

Passa das três. Finalmente as malas estão arrumadas. Desde ontem ao fim da tarde. A mala grande está realmente arrumada, chegou ao fim da linha. Há que procurar outra. As fotografias já descansam em pastas. Muitas foram amarrotadas para o fundo do balde do lixo. Está frio, um frio que me arrefece a mão direita e me deixa os dedos hirtos. Apago uma letra a cada duas que escrevo. É difícil escrever com tanto frio na carne. Passa das três. É preciso escolher o saco porque é preciso sair. Há pequenos acertos para que o fim deste ano seja como planeado no papel. O casaco vermelho olha-me da altivez do cabide. Desde que se pavoneou por um Casino que ninguém o atura. Penso naquela noite e nuns olhos sagazes que me perguntaram em francês: porque é que mesmo no meio de tantas pessoas estás tão sozinha? Divisão das partes, respondi. A minha cabeça abandona frequentemente o meu corpo. São as terras distantes que a atraem sem remédio. Passa das três. É hora de voltar a sair.

Sweet chariot

foto minha - algures na cidade do Luxemburgo


Sometimes I'm up, and sometimes I'm down,
But still my soul feels heavenly bound.


09/01/2015

Sobre Charlie?

E pensar que muitos que gritam pela blogosfera serem Charlie, todos e cada um, são os mesmo que moderam comentários, impedem Anónimos de dizer de sua justiça, apagam o que não lhes convém e até mimam os que pensam diferente com posts personalizados.

O ser humano é  um bicho curioso. Ou será a liberdade de expressão?

07/01/2015

Na hora do regresso

Falta sempre espaço na mala para o bem que acumulámos.
Felizes aqueles que têm uma memória elástica e um cartão da máquina fotográfica com muitos gigas.