17/11/2015

Morrer de tédio

Os computadores têm os ecrãs abertos como janelas que dão para paredes de cimento. Remexem-se as cortinas, sacode-se o pó, à procura de pequenos póneis escondidos no meio da lama do tédio. A voz embala -- ouve-se sem se ouvir. Medimos o cansaço de forma muito eficiente. Escrevemos planos de processos com a eficácia de pequenas máquinas oleadas rumo ao sucesso. Tudo se passa ao longe. Longe. Longe. Tudo está longe. Os afectos, a vontade, a vida, e o fim dos dias. A seriedade é um manto pesado que esconde as nódoas negras da indiferença. Números contabilizados em nada. Baixam-se os índices do que se mostra - somos perfeitos em todas as coisas. Aumenta-se proporcionalmente o desespero. A voz fala ao longe. Embala. Tudo longe. E nós medidos, nós oleados, nós eficientes, nós eficazes, nós bem certificados na arte de mal gerir, nós aos pedaços em maços de folhas destinadas ao nosso destino. Longe.
 
o-amor-e-a-vida-a-sonhar:

© Angelika Ejtel
© Angelika Ejtel

Sem comentários:

Enviar um comentário