30/11/2015

Declaração de intenção

Tenho a página em branco à minha frente. Penso no que hei-de escrever. Ensaio algumas palavras que escrevo e apago. Considero inspirar-me com alguma música ou imagem. Lembro-me da descontracção do meu passado no seu jeito felino «a palavra que mais identifico com a Rapariga é cansaço». Paro imediatamente os dedos sobre o teclado. Hoje, não escreverei sobre isso!
 
realityayslum:

Hedrich Blessing 
Silhouetted Typist, 1930s
Hedrich Blessing
Silhouetted Typist, 1930s

12 comentários:

  1. O cansaço é aparente ou talvez ilusório. Para lá das olheiras – não tão acentuadas quanto a dona o faz querer – há um olhar cintilante, qual centelha que desvenda toda uma força que ali está, prestes a rasgar em mil pedaços essa capa de inanição. É sobre essa força que alguns de nós gostaríamos que escrevesses.

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    1. Dizes tu, que não o sentes. Que isto do cansaço é como as dores - cada um sente o seu. :)

      Ai não são assim tão acentuadas? Tu faz qualquer coisa com esses olhos (além de os lavares nas meninas que gostam de correr pelos parques), porque se não viste as olheiras é porque estás a ficar ceguinho.

      Essa tua lisonja podia levar-te longe, não fosse eu ser como o mármore (e nem te arrisques na piadinha que eu cá bem sei, que já me ri sozinha à custa dela) dura e fria.

      Agora lembrei-me de uma expressão que já não ouço há anos: «olhe que não, olhe que não» - isso das centelhas tem muito que se diga e a minha está a apagar-se por falta de ar que lhe acerte em cheio e mais acrescento que já deveria o menino de saber que eu não sei escrever sobre coisas bonitas, forças e afins, eu é mesmo só prá desgraça. :D

      Mas, espera, ficou ali pendurado o «olhe que não». Isto lembra-me outras guerras... podíamos escrever um livro sobre mortos, daqueles que ainda andam (alguns)! Com o teu cinismo e o meu humor negro, era prémio Leya na certa!

      Pensa nisso, que 50 mil davam-me jeito. ;)



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    2. OK, Rapariga Simples, não vamos perder tempo - nem dispensar carateres - a calcular a profundidade das olheiras, nem a medir a luminosidade do olhar.
      Foquemo-nos, então na lisonja, imagem de marca do autor... a tua estoicidade marmórea é respeitável e combina lindamente com este meu conceito distorcido de diplomacia, que me leva a respeitar religiosamente acordos tácitos, mesmo que isso implique um fechar de olhos a missões humanitárias urgentes, como as limpezas de lodos em ancoradouros, que custam tantas vidas por ano...
      Finalmente, o livro a 4 mãos... desafio aceite ;) Talvez sobre uma heroína esgotada e sem forças, de tanto fugir de mortos (vivos)?

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    3. Mais uma vez a minha argumentação poderosa te faz um nó cego! :D

      Há lodo no cais, meu caro, bastante até! Arrisco que comece a transformar-se num pântano onde tudo se perde, nada se acha. Seriam necessárias consideráveis horas para o devolver à vida brilhante e navegável. Mas os acordos tácitos são bons e o respeito que deles decorre também - ainda que não possamos falar de uma diplomacia pura, ao jeito do Calvet de Magalhães.

      Esse tema para o cerne de um livro é capaz de estar esgotado, é que o título que me ocorre é The Walking Dead - e esse já tem dono?

      Não podia ser um com uma história simples, fácil e que acabasse bem? Assim, só para ser diferente, sei lá! :)

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    4. OK, do you want something simple?

      E que tal a história de uma rapariga à beira rio plantada que, reconhecendo a inoperacionalidade do seu cais, decide finalmente engolir o orgulho... a seco não, talvez acompanhado de uma caneca de café e barrado por um belo doce tradicional caseiro.
      E após a deglutição do mesmo, convida a entrar o velho amanhador de cais, que lhe andava a rondar a porta há meses. Finda a conversa de circunstância, acerta os termos do acordo e conduz o envelhecido artesão ao local que tanto a aflige, dando-lhe a dose necessária de liberdade para que possa deitar mãos à obra.
      Sempre sob apertada supervisão, não fosse aquela uma obra exigente, destinada aqueles poucos que sabem combinar na porções certa a força e a gentileza que tão delicada estrutura o exige.
      Como o disseste e bem, é um trabalho moroso, que ocupará uma ou duas estações. Mas a dedicação, o saber e a entrega do velho amanhador deixá-lo-ão pronto mesmo a tempo da chegada do verão, altura em que novas embarcações passam ao largo, espreitando uma oportunidade de aportar em tão aprazível cais.
      E aí sim estará completo o ciclo. O artesão rumará de volta à sua oficina, enquanto a rapariga correrá a aprumar-se para dar as boas-vindas aos navegantes que se avistam na linha do horizonte.

      Que dizes?

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    5. Digo que tu tens mesmo jeito para a ficção!
      Esse plano daria um belo... livro. E seria arte pela arte, nada de Wilde a meter o bedelho onde não é chamado.

      Também podia ser a história de uma rapariga que cuida do seu cais lodacento sozinha, que isto hoje as mulheres têm de saber fazer tudo, e que passa a vida a ver navios ao largo, a beber canecas de chá e/café, rodeada de gatos - para fazer cumprir o bom e velho lugar comum.

      Até porque a rapariga da tua história começa a ficar fartinha de amanhações cíclicas e com o termo bem definido no contrato. Agora ou é sem prazo ou são gatos. Nada de meios termos.

      Parece-te bem?

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    6. Não tem a força narrativa da minha proposta, mas sim... dá a garantia de um final feliz e é, ao fim de contas, isso que nos interessa. Optemos então pela tua solução ;)

      ....

      Miau, miau...

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    7. Dá a garantia de um final. Não diria feliz, diria menos mau.


      ----

      tu sabes muito...

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    8. Ron ron...

      (só estava a tentar dar um ritmo Nicholas Sparksiano à história... se queremos best-seller temos de sacrificar coisas como finais felizes e amores perfeitos)

      ;)

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    9. E eu que gosto tanto de Nicholas Sparks... gosto assim tanto ou mais que do outro que não pode ser pronunciado mas que resulta de um árduo trabalho de autopromoção.

      Pois a minha ideia passa exactamente por aí: não há finais felizes, nem amores perfeitos.

      A partir daqui construía-se uma narrativa densa, desconsolada e, claro, a acabar mal - bem ao gosto contemporâneo. Com um bocadito de sorte ainda se vendiam os direitos para um filme indie e ganhávamos uma banda sonora de arrancar lágrimas aos mortos (tipo as minhas playlist do Spotify, mas não digas a ninguém).

      Enfim, um mundo de oportunidades que excluiu miúdas muito magrinhas e rapazinhos cheios de músculos, presentes pindéricos em datas comerciais e a chatice de passar o resto da vida a lavar peúgas.

      Claro que acabaríamos a escrita encharcados em antidepressivos. Um pequeno preço a pagar pela criação do grande romance português do século XXI.

      :)

      (diz lá que eu não continuo uma idiota chapada!)

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  2. Parte isso tudo com in tensão. Metafóricamente que o meu seguro não cobre poesia.

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    1. Diz a santa Wiki...

      «Em física, tensão é a grandeza de força de tração exercida a uma corda, a um cabo ou a um sólido similar por um objeto. É a resultante das forças de atração e de repulsão eletrostática entre as partículas de um sólido quando submetido a uma deformação, em que a tendência de voltar ao seu estado inicial é observada. A tensão é o oposto de compressão.[1]

      A tensão é medida em newtons segundo o sistema internacional de unidades, sempre mensurada paralelamente à corda em que se aplica. Há duas possibilidades básicas de sistemas formados por corda e objeto: ou aceleração é zero e o sistema está em equilíbrio, ou existe aceleração e, portanto, há uma força resultante. Note que em ambos os casos a massa da corda será assumida como desprezível.»

      Maneiras que manis poético que isto não há.

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