16/07/2015

São oito horas

São oito horas e o comboio parte. Há um apito que marca o início da marcha, um apito que não é o assobio da mão levantada a acenar com uma bandeira, como se nos dissesse adeus, como se nos desejasse uma boa viagem. Nas estações e apeadeiros das nossas linhas, já nada é como dantes. Os apitos, os avisos, as cores, os bancos, as portas, tudo parecido, asséptico, muito longe da memória. A voz roufenha que anunciava a chegada do comboio foi substituída por uma voz computorizada que demorou muito tempo a saber o nome das terras que anunciava. Descontinuaram o Inter-Regional, desde esse dia o meu prazer por viajar descontinuou.

São oito e meia e o comboio chega. Longe do centro, Coimbra ainda é uma cidade respirável. A chegada é sempre mais rápida do que a partida. Há-de levar-me uma hora a voltar para casa. Um comboio climatizado há-de arrastar-me pelas linhas de ferro, mostrando sequências de estações vazias, de portas fechadas, pintadas de azul e branco e protecções de alumínio. Fecho os olhos e lembro-me dos comboios da minha infância, quando os meninos queriam ser maquinistas e as meninas passear muito.

Chego. A minha estação de parte incerta.

3 comentários:

  1. Chegar a Coimbra de comboio foi uma coisa de que sempre gostei. Mas já lá vão 20 anos.

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  2. O encanto de menina também já não existe. Crescer dói!

    Beijos, Carla. :)

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  3. Como é engraçado apanhar logo de seguida duas mulheres a escreverem sobre comboios nos respectivos blogues;)
    Há cerca de três meses fui a Coimbra de comboio e gostei. Aliás, sempre que posso, uso esse meio de transporte e da minha casa vejo os pouca-terra.
    Claro que os comboios não poderiam ser iguais... Nesse caso, reclamava-se por falta de condições.
    Daqui a umas décadas, haverá quem faça um exercício semelhante ao teu, com um travo de saudosismo. É a lei da memória.

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