04/07/2015

Olhos de lince

O meu passado está sentado à minha frente e olha-me com olhos de lince. Sabe, por aturada experiência, que a verdade se esconde mais no fundo dos meus olhos do que na superfície dos meus lábios. Digo-lhe que está tudo bem, porque está mesmo bem, se não tudo, quase lá, numa esquina do tempo que se aproxima a passos largos do concreto. Acredita. O meu passado que me olha com olhos de lince sentado à minha frente convence-se da minha verdade.

O que o meu passado de olhos felinos não sabe é que o meu fugir pela janela e o meu esgueirar nas sombras é a consequência da desabituação. Desaprendi as convenções da socialização, a língua descobriu-se torpe nas conversas, o raciocínio trôpego, os gestos vagos. 

Também não sabe da minha dificuldade em dar corpo aos nomes que acumulo em listas de contactos que deixaram de contactar com mãos e risos e abraços apertados à chegada e à partida. Desconhece igualmente que me estou a esquecer da melodia das vozes, por isso, digo em voz alta os nomes das minhas pessoas, para as sentir mais próximas.

Ignora o tempo que passo a a olhar as fotografias guardadas nos arquivos do meu computador, para cinzelar na memória os traços dos rostos que se esbatem na humidade espessa do tempo.

As minhas pessoas começam a não me pertencer e eu começo a não saber estar com elas. Por isso, fujo, principalmente quando se sentam à minha frente e me vasculham a alma à procura do que não sei esconder.



4 comentários:

  1. o perder-se..
    sem perceber ou ser notada.
    Lindo escrito.
    beijo.

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  2. Às vezes é preciso afastarmo-nos um pouco para vermos melhor. E isso não tem que ser necessariamente triste, dramático e permanente.
    Também as nossas pessoas podem não ser sempre as mesmas toda a vida. Umas podem sair, outras podem entrar, enquanto algumas permanecem.

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  3. Passando pela net encontrei o seu blog, estive a folhear achei-o muito bom, feito com muito bom gosto.
    Tenho um blog que gostava que conhecesse. O Peregrino E Servo.
    PS. Se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais faça-o de forma a que eu possa encontrar o seu blog para o seguir também.
    Que haja paz e saúde no seu lar.
    Com votos de saúde e de grandes vitórias.
    Sou António Batalha.

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  4. hoje dei-me comigo a pensar do tempo ao tempo que não dou uma boa gargalhada.
    dei comigo a tentar encontrar o outro que fui eu. do tempo ao tempo em que não sou eu.
    procurei-me e não me achei. estranhamente adquiri a certeza de eu já não ser eu ao tempo.
    não sei onde está esse outro que fui eu. não me apercebi da mudança. hoje procurei e não encontrei.
    ponto. 15 de Julho de 2015 pelas 17:00

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