07/06/2015

O lugar do morto

Por vários motivos, que não vêm ao caso, há muito tempo que não experimentava a solidão de um carro sem excesso de passageiros, a rodar no asfalto por mais do que dez minutos. Contei pelos dedos oito horas de circulação rodoviária, ao volante de um leão silencioso, oito horas a braços com os meus pensamentos traidores, oito horas de silêncio. O movimento maquinal dos pés e das mãos, o sol a queimar a pele das bochechas, o céu fechado de chuva iminente. Ao meu lado, sorrindo com um sorriso trocista e de nariz arrebitado, sempre ela, a assobiar baixinho enquanto espalhava protector nos braços, olhando-me de soslaio, não disfarçando o prazer de me ver afundar no azul dos bancos, a solidão -- essa torpe criatura.

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