12/05/2015

No fim de tudo

Quando uma mulher se veste, não se veste só para si, ou para os outros, nem para o homem a quem espera, mais ou menos secretamente, provocar. Todos os dias de manhã, enquanto combina peças, cores, formas, materiais, uma mulher veste-se para a ocasião. Ela sabe que uma escolha bem feita pode fazer toda a diferença entre um dia bom e um dia desastroso. Não acreditam?

Ontem, enquanto me vestia, tive de considerar várias variáveis: uma viagem de comboio, um percurso a pé, deambulações num centro comercial e um jantar com várias pessoas, noutra cidade. Era preciso que a escolha fosse confortável, não muito quente, elegante e prática ao mesmo tempo. Eu, como sou simples, decidi-me pelo vestido preto consideravelmente curto e saltos altos. Achei, numa linha de pensamento pouco explícita que a bainha subida ia bem com o calor que transpirava na rua, o preto ser sempre elegante e os saltos de salto porque preciso de renovar as escolhas mais frescas e eram os que estavam mais à mão.

Para não parecer que ia para um funeral, um casaco salmão, a chegar aos joelhos, muito leve, muito fluido. Maquilhagem nenhuma, só um ligeiro bronzeado que já se nota e rímel, camadas e camadas de rímel -- gosto de pestanas dramáticas, bem teatrais, que gritam «maquilhagem» por todos os cílios. E, se com um vestidinho preto eu nunca me comprometo, com dois muito menos.

O dia foi pródigo em ocasiões que seria uma chatice enumerar. Mas a última, caríssimos, essa foi de me levar à histeria, não fosse a minha escolha avisada de indumentária.

Depois de sobreviver a uma espera de mais de meia hora por um comboio, num apeadeiro perdido nos campos do Baixo Mondego, a ouvir bocas de uns trabalhadores da EDP e a encarnar as bochechas; depois de ter conseguido manter os saltos presos aos sapatos durante a caminhada de vinte minutos pelos passeios mal calcetados da Figueira -- odeio a calçada portuguesa! --; depois de ter finalmente desbloqueado um dos telemóveis reminiscentes e de ter conduzido para Coimbra, com um trânsito infernal, uma operação STOP, muito calor e uns sapatos a darem-me cabo dos pés; depois de tudo isto, quando já me dirigia serenamente para o jantar e a escassos metros de estacionar; depois disto, caríssimos, a desfazer a última curva depois dos semáforos, quando foi preciso meter a primeira, o pedal da embraiagem fica em baixo, o carro começa aos solavancos e eu só tive tempo de o enfiar para o único estacionamento livre de uma rua apinhada de carros e em obras, antes de ele estacar de vez.

-- O teu pai vai matar-nos!

Disse a minha mãe, para ajudar à festa. E o carro quase, quase, bem estacionado, mas assim ainda com a traseira de fora, e tudo a apitar, porque eu, que sou simples e tinha um vestido que mal me tapava as pernas, não tinha dois dedos de testa para estacionar mais à frente!

Respirei três vezes, pedi ajuda a pessoas amigas que já estavam no jantar e liguei para a assistência em viagem.

Meia hora depois apareceu o taxista que nos haveria de trazer de volta para casa -- como ele conduzia mal!, e o reboque.

Foi então que a  minha escolha se revelou acertadíssima. Do reboque saiu um rapaz todo composto, cabelo espetado, muito moreno, aperto de mão forte, que carregou sozinho a minha Peugeot 306, deu um ligeiro ar de riso, certamente a pensar «mulheres!», e ainda me deixou o número do telemóvel -- foi só porque precisava de saber onde estava, ainda assim...

No fim disto tudo, pensei para comigo, pelo menos tinha um vestido curto e saltos altos.

14 comentários:

  1. Queimaste a embraiagem certo? Isso acontece ao melhor condutor do mundo, não é azelhice. Mas adorava ter-te visto de "vestido curto e saltos altos"...és cá um pitéu...
    :)))

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  2. Não sei, o carro está para a oficina. :D
    Pelo que me disseram, pode não ter sido mesmo a embraiagem a dar o berro, mas qualquer coisa por ali perto, pelo que o arranjo pode ser simples e barato. O meu pai ainda não me ligou a lamentar-se, pode ser que corra a coisa pelo melhor.

    Ouça lá, Piteu não é marca de atum? Está-me a chamar atum? ;)

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  3. Moreno, de cabelo espetado e aperto de mão forte?? Devias ter levado um vestido igual mas... em vermelho! :P

    Beijos, carla. :)

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  4. Curiosamente, Maria, o único vestido vermelho que tenho é o mais decente de todos. Coisas! :D

    O rapaz tinha dois senões: deviam ser mais novo que eu, e eu gosto de homens com mais maturidade, e fumava.

    Se fosse um filme, a coisa ainda se ajeitava; sendo vida real, nem por isso. (;

    Beijo, Maria!

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  5. desculpe, mas todo esse design prévio da indumentária não é de uma rapariga simples… pfff… ;)

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  6. Não te preocupes com isso, a embraiagem é barata!
    Claro que não estou a chamar-te atum, mas se escrevesse boazona, parecia mal!
    :)))

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  7. josé luís, lá porque a rapariga é simples, não quer dizer que seja desleixada. :D

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  8. :O
    Isso tudo com base no que lês? Tu não te fies, ainda acabas enganado.


    E isto agora pareceu-me tão mal, credo.

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  9. Sou "um pouco" mais velho que esse rapaz, não fumo, também tenho um certo ar de gozo... não acreditas? Esta passou-se há "alguns" anos (muitos). A minha cara-metade liga-me para dizer que tinha um furo no carro....
    - Não tens paizinho?
    Estive bem?
    :)

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  10. Pois, pois...não acreditem, no que ela diz, a Carla é boazona todos os dias!

    :)))

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  11. O styling parece-me perfeito, correu-te muito bem, incluindo as bocas dos tipos da EDP... Só não percebi essa de odiares a calçada portuguesa. A sério?

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  12. odeias a calçada portuguesa??!!!
    .
    .
    (bem, algum defeito tinhas de ter…)

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  13. Meus queridos Isabel e josé luís, não é que eu odeie a calçada por si só. Definitivamente não odeio as praças bem calcetadas, os grandes passeios bem bonitos.

    O que eu odeio é aquela espécie de calçada, cheia de altos e baixos, buracos, pedras soltas, que insistem em pôr nos passeios e que tornam a caminhada um autêntico exercício de equilibrismo, um desporto radical, em que o objectivo maior é chegar ao fim sem torcer um pé.

    Essa, meus queridos, odeio de morte!

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