26/05/2015

Do excessivo consumo de água benta e presunção

Diz-se repetidamente que o consumo da presunção e da água benta não tem limite e depende do gosto do freguês. Será verdade, como é verdade que, muito ocasionalmente, me espantem as coisas que escrevo, como se não fossem minhas, como se não as reconhecesse.

às vezes perco as chaves de casa

às vezes perco as chaves de casa
as ruas são então labirintos opacos e solitários
sigo o trilho das migalhas que me leva para o meu avesso
a minha casa é um pequeno barco que o vento sopra para longe
soltam-se cordéis dos meus dedos gastos pelo tempo da espera
afundam-se búzios de conversas abandonadas
o mar não chega à minha rua, um Minotauro recolhe garrafas
com recados antigos, ri-se por saber que são todos para mim
tenho chaves de todas as portas que fechei quando deixei a tua rua
uma fogueira ensandecida arde na areia da praia
a taurina figura dança danças desajeitadas e ri alto
-- nunca saberás as razões! -- olhos de sangue como facas
o inverno vem todo junto, de uma vez, uma enxurrada de água
que me arrasta para me desaguar num caminho ermo
sacudo os pés no tapete da entrada
às vezes acho chaves de casas
ainda não encontrei a minha


3 comentários:

  1. Pois eu não me espantei.... achei lindo!!
    Doce e terno.... um poema muito recheado de inocência e ternura...
    Gostei!!!

    ResponderEliminar
  2. Carla, isto é maravilhoso!!! (mas vindo de ti não me espanta, para dizer a verdade)
    Adorei. :-)

    ResponderEliminar
  3. É um poema excelente. Magnífico, mesmo.

    ResponderEliminar