08/02/2015

Aquiles, meu Aquiles, devias ter escolhido a vida longa

Remexias no móvel dos CD à procura da tua música, aquela com uma letra que me deixou entre o abismada e o perplexa e sobre a qual esperavas que tecesse considerações. Ficaram muito além do que se requer de uma pessoa culta (pobrezinha de mim), embora tivesse esperado que o livro de poesia entre mãos me pudesse justificar a dificuldade em opinar.
Num acto impensado, até porque ainda não tinha aprendido que contigo não havia conversa circunstancial e tu tinhas uma panóplia de porquês capaz de fazer corar uma qualquer criança na idade da descoberta, deixei flutuar boca fora:

-- Gosto deste!
-- De qual?
-- Deste, dos macacos.
Pausa.
-- Lê.
-- Não leio nada.
-- Tens de ler, porque não me lembro qual é.
-- Ora, este dos macacos e da selva ser redonda. Como não sabes?
-- Lê!
Um pequeno momento de temor.
-- Então, mas...
-- Estou à espera.
Respirei fundo...

A selva é redonda

Os macacos comem bananas porque
era a fruta que tinham mais à mão.
Se tivessem mais à mão morangos, os
macacos comeriam na mesma bananas,
porque os morangos são muito difíceis de
descascar. As bananas são comidas por
macacos porque são os animais com mais
mãos que têm ali à mão. As bananas não
têm mãos mas têm casca, que é uma espécie
de mão à volta da banana. As bananas prefe-
riam ter mãos mas saiu-lhes antes casca.
Ser casca não deve ser fácil, passar a vida
a ser deitado fora. Os árbitros de futebol
têm duas mãos, uma para cada cartão.
Os macacos também arbitram as bananas,
comendo-as. Os macacos não mostram
os cartões às esposas. Preferem seduzi-las
usando a inteligência. Não sei como vim
parar à selva. Talvez tenha corrido demais
atrás da bola.


-- Hum... Lês bem.
Embaraço.
-- E porque é que gostas?
-- Porque me diverte.
-- Hum... pode ser.

Aprendi naquele momento a medir bem as minhas palavras. Aprendi de tal forma a lição que não fui capaz de entender coisa nenhuma e fiquei com um regaço de palavras que, por não as ter dito, vou escrevendo por aqui -- pequenos barcos a deriva entre mundos impossíveis.

2 comentários:

  1. Mundos impossíveis, assim como morangos que não se conseguem descascar. :)

    [Por aqui ( com esta nova decoração) já parece primavera...]

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  2. O Aquiles da minha televisão é todo jeitoso e o barco dele perdeu se na praia de Tróia :)
    Gosto das tuas palavras sabes ?:)
    Beijoca miúda gira!:)

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