10/02/2015

A desistência da memória

Tenho-me esquecido de tudo. Da rua onde vivias, dos pontos de referência que davam à rua onde vivias, o nome da estação de metro que apanhávamos, o nome do café onde esbardalhei o chocolate do croissant na compostura festiva da minha saia e onde te esbardalhaste a rir com a minha cara chocada. Esqueci-me de muitos dos assuntos das nossas conversas, de como fomos de umas às outras. Esqueci o teu número, o teu percurso académico, as minudências da nossa convivência.

Mas não esqueci o hotel ao fundo, visto da altura da varanda, e a rua sempre a rugir de trânsito, nem o peso da manta de lã, nem o cheiro do frango assado, nem o teu joelho dobrado servindo de apoio ao meu queixo, nem os teus olhos tristes, nem a última mensagem com a promessa que não cumpriste, nem aquele abraço que depois foi o último, nem o lugar gélido que escolheram para te encontrar pela última vez, nem o som dos meus passos no cimento triste da cidade fantasma onde te deixei.

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