28/01/2015

Cartas ao meu eu futuro - 4

Tenho cada vez mais dificuldade em saber o que serei. Insisto e persisto em desenhar em folhas de papel alvo o encadeamento da minha história, obrigando-me permanentemente a usar cores garridas, muito femininas e delicadas, que contrastem com a trindade que me acompanha: branco-preto-cinzento. Não é fácil. Nem sei se o argumento da intemporalidade do meu trio ajuda a explicar o que quer que seja, pode ser só o conforto de não ter de pensar muito ou uma falta de jeito natural para combinar cores e padrões mais garridos.

Divago. Acontece-me muito, se viajo, se arrumo, acontece-me mais. Raramente quando escrevo, aí há uma rigidez de argumentação que me prende os dedos e por mais que queira escrever frases sem pensar não sou capaz. Se dou por uma ausência de vírgula, uma concordância a martelo, é num ápice que volto atrás e componho tudo - só depois prossigo. Entretanto, a minha divagação esmoreceu.

Não sei se daqui a muitos anos continuarás tão divagadora como agora, ou se terás já desistido de escrever - se ao menos soubesses usar aqueles programas em que falas, falas e o computador escreve, escreve. Quem me dera saber desenhar, ou pintar, ou tocar um instrumento. Não sei e por isso trago sempre dentro de mim um grito que se forma no estômago e me pressiona o coração, uma ânsia de me libertar disto que me formiga nos dedos e que acho se chama... Não sei como se chama, apesar disso, gostava de me confortar com a ideia de que um dia aprendi formas de arte mais intuitivas, mais plásticas ou sonoras.

Daqui a muitos anos, quando leres isto, desejo com todas as forças que tenhas aprendido a solidão. E que tenhas aceitado com naturalidade que, contra tudo o que sempre foste sentiste precisaste, a comunidade é um nome que te foi abstracto. Aprende, pois, a aceitação do refugo de que és feita, material de pechisbeque que não dignifica os que te acompanham. Só depois poderás construir-te em fundações de pedra, a mesma pedra das montanhas solitárias no nordeste transmontano.

1 comentário:

  1. sei que daqui a muitos anos vais ser a pessoa que escreveu isto. e isso é tanto.

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