27/11/2014

Dar (mesmo sem receber)

De guarda ao telefone fixo

Estou desde de manhã de guarda ao telefone fixo. Desde que recebi um email que me alterava uma reserva para horas que não me convêm nada. Preciso, para descanso da minha alma, de saber se posso trocar o Porto por Lisboa. Do lado de quem me trocou as voltas só o atendedor de chamadas e a voz de senhora ausente se interessa por mim, repetindo por largos minutos que não há quem me queira falar em voz presente e que me decida: continuo esperando ou aguardo que me liguem. 

Estou, por isso, desde manhã cedo de guarda ao telefone fixo, à espera que uma voz que seja me confirme que, sim, troque o Porto pela capital, teremos muito gosto em lhe alterar o local de embarque.

Há pouco tocou o telefone - Identidade Oculta. Por norma não atendo identidades que não se mostram, contudo, quem espera sujeita-se:

-- Estou, sim? - perguntei esperançada.

Do lado de lá apenas um grito para alguém que não era eu:

-- Pagas-me um café?

Repeti a pergunta, sem esperança e sem o sim, só com o ponto de interrogação.

Desligaram. Do lado de lá do telefone bateram-me com a tecla vermelha no ouvido sem ao menos lamentar o engano. Melhor assim, não tinha vontade nenhuma de pagar o que quer que fosse a tal pessoa.

Olho para o relógio e suspiro. Só preciso de uma confirmação que não chega.

25/11/2014

Seguem-se os optantes compulsivos

Depois do «a propósito de» por dá cá aquela palha e dos colocadores compulsivos, os optantes militantes. Opta-se por um cachecol nos dias frios, opta-se por barrar a forma com manteiga, opta-se por tomar os comprimidos às horas certas. Opte, opte, opte... mas será que já ninguém escolhe, prefere, se decide por? Que nervos.

23/11/2014

Lar desencontrado




A casa encheu-se de visitantes inesperados. A família desencontrou-se no caminho do regresso ao lar.

20/11/2014

Fala-te ao ouvido e nasces tu

Maison Michel hats Fall/Winter 2011
Maison Michel hats Fall/Winter 2011


É só o amor desfeito,
Rosa sangue ao peito,
Lágrima que deito,
Sem voltar atrás.

18/11/2014

Falta a vírgula, Alvim!

A menos que É a vida Alvim seja uma nova espécie de vida. Se não for, o Alvim será um mero vocativo, logo, carecedor de vírgula antes da vida.




17/11/2014

Do presente antigo

Podes morrer, é certo, daqui a poucos dias;
ou ter morrido até neste preciso instante.
Apenas pela rádio, apenas por acaso hei-de saber
da tua morte.

Outras que tu amaste, só porque foi outrora,
já ganhando por isso um estatuto de dignas,
terão sido avisadas, entre lugares-comuns,
não só a tempo e horas, mas até por alguém
da tua família.

A mim me caberá a parte mais secreta, mais ingrata
de luto:
a de passar, anónima, à beira do teu esquife,
para mim lamentando que não seja uma gôndola;
a de ser simplesmente, e entre muitas outras,
a figura provável de alguma antiga aluna.

E só nesse momento sentirei a revolta
de ter sido tão tépida ou, pior, tão sensata
diante da loucura dos mais arrebatados
de teus projectos,
e não ter ensaiado, como dizes, a Fuga,
e não ter transplantado, com maior duração,
os dias de Veneza para outro hemisfério.

É certo: poderias ate ter morrido durante
o caminho, a viagem.
Ao menos, se assim fosse, eu estaria ao teu lado.



David Mourão-Ferreira (2007). Um Amor Feliz. Editorial Presença. pp. 278-279

14/11/2014

Correio sentimental

Há três anos, ouve o que te digo: sê forte e deixa o atrás para trás (das costas).

12/11/2014

Marco Polo, sê gentil

e leva-me para uma cidade invisível.

Zobaida, cidades invisíveis
Aquarela em papel 21x29.7 cm

11/11/2014

And it hurts beyond hurt

Kandi - One EskimO

Kandi
One EskimO

You've been my queen for longer than you know
My love for you has been
Every step I take, every day I live, everything I see

And if I get things wrong
Don't want you to think that I'm running away
But I heard from Jo about this guy and I want to know

What did he say?
He called me baby, baby, all night long
What did he do?
He called me baby, baby, all night long

Why? Why? Why did you need him? Where was I?
Just how close to you is he?
Every smile you gave, every touch you made, every word you said

And it hurts beyond hurt
It was a love that blinds and a love that stings
When I heard from Jo about this guy and I want to know

What did he say?
He called me baby, baby, all night long
What did he do?
He called me baby, baby, all night long

What did he say?
He called me baby, baby, all night long

Does my love ever touch you?
Does my love ever reach you?
It's never enough, ah, is it never enough?

He called me baby, baby, all night long
What did he do?
He called me baby, baby, all night long

What did he say?
He called me baby, baby, all night long
What did he do?
He called me baby, baby, all night long

I know he called you, baby, baby, all night long
I know he called you, baby, baby, all night long




A história de Kandi.

10/11/2014

Conclusão do dia

As conclusões a que se chega com o caminhar da idade podem encerrar em si dois estados de alma opostos. A de hoje dá primazia ao lado mais negro: sou pouco exigente com as pessoas. Quer isto dizer que sou incapaz de lhes pedir mais do que possam dar e elas, em vez de se quererem esforçar um bocadinho para me surpreender, encolhem os ombros e dão bem abaixo do que o que poderiam. 

Como criar filhos insuportáveis

Basta fazer como o senhor da marca dos telemóveis.



(fossem elas minhas filhas ou sobrinhas e tudo a que teriam direito individualmente seria um valente par de estalos! detesto fedelhos mimados e malcriados)

07/11/2014

Rima foleira em jeito de declaração de amor

Porque eu tenho um amigo
que de pequenino não tem nada
nem altura nem coração
nem a loucura alucinada.

Um amigo que hei-de encher
de chocolates e beijinhos
da chegada à despedida
serão muitos os abrações.




eu avisei que era foleira

Ligeiramente verde, mas não muito

deadendqueen:

by an-gray (deadendsoul)
An.Gray

Leio blogues. Leio muitos blogues. Ao fim de cinco anos, perdi o constrangimento de não seguir quem me seguia, por razões de cortesia, e passei a seleccionar realmente os blogues que me dão prazer ler, ver, ouvir, contemplar. Gosto, por isso, de blogues que me façam pensar, me divirtam com inteligência, que acrescentem ao meu dia alguma coisa de bom. Os que circulam à volta de actualizações constantes da vidinha como se fossem murais do facebook ou do twitter fazem-me comichão na palma das mãos - não discuto o valor, arrogo-me o direito de não os ler.

Tenho, no entanto, de ser honesta e admitir uma certa nota de inveja nas minhas leituras. Não uma inveja que chegue a ser verde forte, fica-se ali no meio tom entre o amarelado e o esverdeado, que eu também não sou dada a estados biliosos. E que invejo eu? A capacidade que alguns dos autores dos blogues que sigo têm em escrever textos longos, com reflexões sobre acontecimentos do seu dia, bem estruturados, com inteligência e graça, mais do que um por semana.

Não é que eu não reflicta ou que não escreva na minha cabeça tratados sobre as misérias do meu dia, faço-o. Aliás, uma das razões por que sou tão distraída reside nisto, na facilidade com que me ausento para a varanda da minha mente, onde gosto de pensar.

Qual é então o meu problema? A textualização, caríssimos, a textualização. Quando me sento para escrever as minhas conclusões, não sai nada, nem uma frase de jeito, nem uma graça, nem um raciocínio como manda a lei: com tese e antítese. Nada. Já pensei várias vezes que alguém devia inventar uma impressora que imprimisse directamente das ideias. Ah, caríssimos, se assim fosse, isto é que seria despejar pérolas de escrita elevada, para alimento literário dos famintos de boa escrita! Mas não, só parágrafos e poemetos. Tudo muito árido, como convém à manutenção da modéstia.

Mas admiro-vos. Palavra de honra que vos admiro.

06/11/2014

As melhores pessoas são as que vêm do fim do mundo, as que vêm de repente

Vieste do fim do mundo - Gisela João


Vieste do fim do mundo
num barco vagabundo
Vieste como quem
tinha que vir para contar
histórias e verdades
vontades e carinhos
promessas e mentiras de quem
de porto em porto amar se faz.

Vieste de repente
de olhar tão meigo e quente
bebeste a celebrar
a volta tua
tomaste'me em teus braços
em marinheiros laços
tocaste no meu corpo uma canção
que em vil magia me fez tua.

Subiste para o quarto
de andar tão mole e farto
de beijos e de rum
a noite ardeu
cobri-me em tatuagens
dissolvi-me em viagens
com pólvora e perdões tomaste
o meu navio que agora é teu.

Para alegrar o dia tristonho

Zulusa - Patrícia Bastos

04/11/2014

As putas II



às putas não foi dado o livre-arbítrio
nem a permissão para ter dores de cabeça

às putas exige-se disponibilidade constante
um sorriso nos lábios, luxúria permanente

porque as putas, meus senhores, as putas
comem e calam, às vezes levam, nem sempre
lhes pagam, porque às putas, caros senhores,
não foi dado o direito de pensar nem de sentir,
porque as putas, veneráveis senhores, são menos
que nada, servem para usar e deitar fora


parecendo que não, tem muito a ver com isto que decorre disto

02/11/2014

As putas

liquorandhighheels:

A big fishnet fan.


as putas não vão a jantares,
não se passeiam no braço dado
não posam para as fotografias
não se lhes sabe o nome

as putas procuram-se na calada do tempo
pelos intervalos das sombras
isto é, quando ninguém está a ver
digo, enquanto ninguém finge que não vê

as putas são o consolo da alma aflita
o alívio do corpo ardente
de pernas abertas e regaço disposto
para os momentos confessionais

da casa das putas sai-se pela calada
e volta-se ao aparato dos jantares
de família e dos bailes da aldeia
até ao dia em que o corpo urgir

porque as putas, meus senhores,
são só putas, não vão a jantares
não se passeiam no braço dado
não posam para as fotografias

as putas não têm nome