29/09/2014

Não há coincidências?

Ello, a rede social anti-Facebook sem anúncios

Independente, livre de anúncios e acessível apenas por convite. É assim que se apresenta o Ello, uma rede social que começou por ser privada mas que, com o crescente número de pedidos de acesso, acabou por tornar-se pública — mas com entrada controlada. Criada por sete artistas e programadores, é já conhecida como a rede social anti-Facebook.



Em todo o caso, estou tentada a experimentar.





(o logótipo parece-me o lado negro da EDP, mas não digam a ninguém)

Guerra fria cibernética

Já não bastava ter os Americanos a vigiarem-me o blogue à palavra, agora são os Russos que não me largam o url. Lamento informar mas aqui não há agentes secretos, nem espiões, nem gajas boas em biquíni, só uma rapariga simples.

27/09/2014

Agradeço ao Anónimo

esta música que me deu. Foi-me deixada num comentário a uma entrada de blogue. Do autor Anónimo desconheço a identidade, ou então desconfio, ou então sei mesmo. De qualquer das formas, se o Anónimo assim desejar, o Formulário de Contacto está disponível e garante total confidencialidade.

Da minha caixa de comentários, para o vosso mundo virtual:

Magic - Coldplay

26/09/2014

Natureza humana

A gente sabe que aconteceu. Acontece sempre da mesma forma: quando as palavras escasseiam.
Depois a gente espera.
Depois nada mais acontece.

25/09/2014

Agarrem que é ladrão!

Estou muito triste. A mim ninguém rouba nada, nem leva «emprestadado» o que escrevo, só uma vez me roubaram o rádio do carro, mas não conta.




(o josé luís costuma levar-me poemas, mas também não conta. é que isso nem é roubo, é mais desvario da parte dele ;)

24/09/2014

Natureza humana

O terreno propício à elevação do espírito pode ser um baldio. É dos nutrientes, dizem, apuram com a falta de cultivo.

23/09/2014

E inventaram o amor com carácter de urgência

Bettina Lewin

A invenção do amor
Daniel Filipe

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos
           autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de
           rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
           esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio   A descoberta   A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor sùbitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou   A TV anuncia
iminente a captura   A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada
           para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos   Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o   Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
          inexplicàvelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
          razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo   Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros.  É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença

E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de
          discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam ao temor
         do castigo

Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da
         correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher
         amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável
             descobri-los

[...]

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

[...]

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando as esquinas


poema completo
declamação do poema pelo poeta

22/09/2014

As telecomunicações entre os dois lados do rio foram suspensas até nova ordem

Diz-me a razão que os que passam o Aqueronte não acedem a contas de email ou a endereços de blogues dos que ficaram do lado de cá. Diz-me essa mesma razão que serão outros, necessariamente vivos, que o fazem. A razão diz-me, mas de todas as vezes há um fio de uma esperança louca que teima em prender-me ao absurdo. Cérbero roeu os cabos de fibra óptica -- esta é a inalterável certeza.

21/09/2014

Os Domingos à tarde


Josef Breitenbach, nu, 1950s
Josef Breitenbach, nu, 1950s

Os Domingos à tarde são dias proibidos à contemplação sentimental. Tudo isto a bem da paz de espírito, muitas vezes podre, ainda assim paz. É aos Domingos à tarde que tudo faz mais falta e as distâncias são maiores e os abismos mais fundos e a alma mingua até que o que vale a pena seja quase nada. Aos Domingos devia proibir-se a tarde. Aos Domingos só se devia permitir um salto largo entre o fim da manhã e a noite avançada. A bem da paz de espírito, por muito podre que esteja.

19/09/2014

Retalhos da vida doméstica

podia ser este, o meu orçamento é que não está pelos ajustes

(ao telefone)

-- Olha, estive a pensar na vida.
-- Ai, sim?
-- Sim. Na vida, isto é, na minha vida. E na tua também.
-- Humm... e a que conclusão chegaste?
-- Quero que sejas minha madrinha.

(silêncio)

-- Já tinha pensado no assunto, depois não disse nada, mas gostava.
-- Caramba, puto, só tu para me pregares sustos destes!
-- 'Tão? Aceitas?
-- Claro, parvo!
-- Eh, eh! Assim já levo madrinha, para além de dois padrinhos.
-- Ai a minha vida! Já não bastava ter de arranjar um vestido de irmã, agora tenho de arranjar um de madrinha...


18/09/2014

A chuva insiste em musicar o dia

autor desconhecido

A chuva insiste em musicar o dia. Um correr constante contra as pedras e as vidraças, a melodia do Outono que se anuncia em gotas a que já se perdeu a conta. Os quartos de pêra descansam em frascos e o cheiro a doce aninhou-se nos cantos da casa e nos cabelos das mulheres que seguraram colheres de pau e os rodaram sem esforço em panelas antigas. O sossego apoderou-se da casa, dos gatos, da pequena estufa onde alfaces suspiram pela chuva e pequenos tomates vermelham por entre a folhagem. São como um gotejar constante as lembranças que trazem arrepios à pele de uma mulher entretida a dispor frascos de compota como quem arruma o coração.

Curso Rápido de Gramática

Tomemos com exemplo filho da puta, nos seguintes contextos:


1) "Conheci um político filho da puta."- complemento do nome;

2) "O político é um filho da puta." - predicativo do sujeito;

3) "Esse filho da puta é um político." - sujeito.

4) "Agora nega o roubo, filho da puta!" - vocativo.

5) "O ex-ministro, (escolha o nome que lhe interessar), aquele filho da puta, desviou o dinheiro dos submarinos." - é aposto.

Agora vem o mais importante:
6) "Saiu da presidência em janeiro e ainda se considera presidente." - o filho da puta é sujeito subentendido.


Ou então consultem o Dicionário Terminológico em linha.

15/09/2014

Ah, se eu pudesse!


O mundo vive bem sem ser informado ao pormenor das minhas actividades diárias. O mundo real e o virtual, está bem de ver, que entre ambos não dista assim tanta diferença como a que nos querem convencer. À medida que luto com o shift, a tecla A e o acento grave, chego à nobre conclusão de que qualquer dos mundos até agradece que guarde recato sobre o que faço da minha vidinha. 


E eis-nos chegados ao recato, esse substantivo singular, que o dicionário não me diz de onde vem mas é bastante explícito no seu significado: 1. Resguardo; segredo. 2. Prudência. 3. Lugar escondido. 4. Honestidade, pejo, modéstia.

Aconselha-me, por isso, a prudência que guarde segredo das minudências dos meus dias. Para ser honesta, melhor é que as mantenha resguardadas, digo, num lugar escondido, e nem é bem por modéstia, é mesmo por pejo de dar a conhecer tal volume de insignificâncias.

Só por isto não vos faço saber que vou experimentar fazer compota de pêra. Não fora o recato, caríssimos, e escarrapacharia tudo aqui, com reportagem fotográfica e tudo. Assim não podendo ser, guardo silêncio.

10/09/2014

as mentiras que te conto são mentiras em que não te minto

Correspondência - Ermo


Todas estas palavras más serão palavras de dor
Que quem se maltrata, se maltrata por amor
Perdoa-me esta vã, triste dialética
Mas o meu coração não me cabe nesta métrica

Chegasse a força humana para descrever o que eu sinto
Que as mentiras que te conto são mentiras em que não te minto
Que te importa o meu amor? Eu sou só mais um pretendente
Que canta a pretensão que toda a gente sente

Toda a gente sente, incorrespondente.

Todas estas palavras más só descrevem o que eu sinto
Te maltratam por amor as mentiras em que não te minto
Perdoa este vão triste pretendente
Que o meu coração só sabe o que sente

Só sabe o que sente, incorrespondente. 
Toda a gente sente, incorrespondente.

Descoberto ali na página da Antena 3.

Sobre a morte deve guardar-se silêncio

Há certas mortes das quais não falo, pela simples razão de já ter dito tudo o que sentia sobre elas. Na escala de medição da perda, há os que a sentem no limite e um pouco mais além. Esses são aqueles a quem certas morte pesarão como chumbo, mesmo quando a maioria já se tiver esquecido de quem morreu.

08/09/2014

Eu pleonasmito, tu pleonasmitas, todos pleonasmitamos

A “pleonasmite” é uma doença congénita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos. Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.

O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.


Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: “Subir para cima”“descer para baixo”“entrar para dentro” e “sair para fora”.

Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.

Vai dizer-me que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos “pequenos detalhes”? E que nunca partiu uma laranja em “metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?

Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais” para lhe dar este “aviso prévio”de que esta “doença má” atinge “todos sem excepção”.

O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em “cidades do mundo”. No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um “acabamento final” naquele projeto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara metade, diga lá que às vezes não tem vontade de “gritar alto”: “Cala a boca!”?

O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que “estreia pela primeira vez” em Portugal.

E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus.

Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a pleonasmite em direto no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque. Um “governante” dirá que gere bem o “erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um “consenso geral” para sairmos juntos desta crise.

E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma “multidão de pessoas”?

Ao contrário de outras doenças, a pleonasmite não causa “dores desconfortáveis” nem “hemorragias de sangue”. E por isso podemos “viver a vida” com um “sorriso nos lábios”. Porque um Angolano a pleonasmar, está nas suas sete quintas. Ou, em termos mais técnicos, no seu “habitat natural”.

Mas, como lhe disse no início, o descontrolo da pleonasmite pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades. Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada. E “já agora” siga o meu conselho: não “adie para depois” e comece ainda hoje a “encarar de frente” a pleonasmite!

Ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso estar só “maluco da cabeça”.


Autor desconhecido em.

05/09/2014

A minha vida dava uma banda sonora #23

A diferença maior entre um amor e uma paixão é a permanência e o detalhe. Um amor faz-nos companhia por mais tempo, mesmo morto, e deixa-nos mais memórias pormenorizadas de cheiros, sabores, gestos, palavras, o que for. Não é uma qualquer paixão que os substitui, alguns podem nem chegar a sê-lo.

Comfortable – John Mayer

I can't remember what went wrong last september
Though I'm sure you'd remind me if you had to

01/09/2014

Arruinaste o meu prazer pela leitura.



Arruinaste o meu prazer pela leitura.

Depois de ti não houve mais livros. Não houve mais configurações das personagens masculinas, não houve mais inflexões de voz adivinhadas ou gestos imaginados. Todos -- qualquer que seja o seu nome, a compleição, a cidade onde vive, a língua que fale -- são tu. És tu que persegues os maus, salvas as donzelas, cavalgas na terra dos índios, passeias de bengala pelas capitais, és capitão de exércitos, mestre de barcos, astronauta destemido. Pertencem-te todos os dilemas, todas as depressões, as ousadias e as cobardias. São sempre os teus olhos, as tuas mãos, o teu encolher de ombros, o teu rir.

A cada página virada, a cada avanço na narração, somos nós que viramos dias, saltamos para a frente, por cima dos excedentes literários e das descrições enfadonhas. São nossos todos os diálogos, somos nós que nos enganamos, nos complicamos, nos descompreendemos; como são nossas as piadas, as despedidas, as discussões, as chegadas. És tu a arrastares-me para a ficção e eu a ir sem resistência.

Arruinaste o meu prazer pela leitura. Depois de ti não houve mais livros.