29/07/2014

as palavras caem no vazio

CARTA (ESBOÇO)
Nuno Júdice

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar de norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.


in Poesia Reunida, Dom Quixote, Lisboa, 2000


pedido emprestado aos Belos e Malditos

28/07/2014

Três dias seguidos com vontade

de ouvir Melody Gardot? É... sei lá!

Our love is easy - Melody Gardot

24/07/2014

Agora não sei



Durante muito tempo, a uns olhos específicos, fui difícil de definir, impossível de resistir. Apesar do isolamento social em que vivia, haveria em mim uma nota de elegância, sofisticação e dinamismo.

Fui composta à saída por bergamota e mandarina; no coração tive jasmim, magnólia, rosa, nenúfar e madressilva. No fundo, não era mais do que âmbar, vetiver, patchulli e baunilha (@).

Agora não sei.

22/07/2014

They stare at me while I crave you

Crave you (feat Giselle) - Flight Facilities



Limpar o FB tem destas descobertas.

21/07/2014

Os cultores da cultura cansam-me

Cansam-me muitas coisas no meio cultural.
Cansa-me o cinismo de sempre se achar que se sabe melhor o que é arte, o que é cultura.
Cansa-me o desprezo pela escolha alheia e o paternalismo bacoco pela cultura do outro.
Cansam-me as trocas de galhardetes que em nada contribuem para a cultura, tão-só servem para inflamar e desinflamar egos.
Cansa-me a queixinha costumeira de que não se faz nada em Portugal e cansa-me ainda mais a queixinha de que o que se faz não é bom.
Cansa-me que se aplauda o estrangeiro como se de lá viesse A arte e se sinta a necessidade mesquinha de achincalhar tudo o que é nosso.
Cansa-me o desrespeito pelo trabalho intelectual de quem ao menos tenta fazer diferente.
Cansam-me estes treinadores de bancada da cultura nacional que só sabem abrir as goelas, porque quando chega a sua vez de saltar para o banco passam a bola.

É por isso que não gosto de falar dos livros que leio, dos filmes que vejo, da música que ouço.
Para mim fazem sentido e isso é tudo o que me basta.

14/07/2014

Porque estamos em tempo de vacanças

nunca é demais avisar:

Vem devagar, emigrante

Deixem o Pimba em Paz - Bruno Nogueira e Manuel Azevedo

11/07/2014

Vem brincar comigo


e partilhar o lanche
o fim da tarde
o vislumbre da lua
e bocadinhos de pele
quando a tua mão tocar a minha
e os meus lábios se colarem 
aos teus.

10/07/2014

The girl effect: The clock is ticking

Estou há um bom bocado a dedicar-me à nobre tarefa de apagar publicações antigas no Facebook. Para além de descobrir que realmente é preciso ter um filtro muito grande para não publicar barbaridades, descobri também este vídeo. Este, sim, merece que seja visto e partilhado.


Ainda espero o homem perfeito

Faz parte do imaginário colectivo a ideia de que as mulheres esperam pelo homem perfeito. Com o tempo, esse ente que nos verga a todos, a perfeição masculina foi conhecendo cambiantes: de príncipe loiro, alto, forte e espadaúdo, montado num corcel e com uma vigorosa espada à cinta, a homem bem-sucedido, alto, forte e espadaúdo, conduzindo uma manada considerável de cavalos e com uma vigorosa conta bancária às costas.

Creio que estou a exagerar.

Já eu, que como todos sabem sou simples, não espero nem um nem outro e apenas exijo uma pequena contra-partida.


09/07/2014

O silêncio

Não há qualquer resquício de espanto no silêncio. É uma outra forma de comunicar, sem palavras, é certo, sem gestos, sem o cansaço do ar a rarear nos pulmões, as cordas gastas -- tudo por um fio. Mesmo a vida. Mas com as mesmas dificuldades de entendimento.

Não há qualquer resquício de subtileza no silêncio. Grita mais aos ouvidos do que qualquer vendedora nos mercados da nossa praça.




O Silêncio

Era complicado. Primeiro deitou os restos de comida no caixote do lixo. Depois passou os pratos e os talheres por água corrente debaixo da torneira. Depois mergulhou-os numa bacia com sabão e água quente e, com um esfregão, limpou tudo muito bem. Depois tornou a aquecer água e deitou-a no lava-loiças com duas medidas de sonasol e de novo lavou pra­tos, colheres, garfos e facas. Em seguida passou a loiça e os talheres por água limpa e pô-los a escorrer na banca de pedra.
As suas mãos tinham ficado ásperas, esta­va cansada de estar de pé e doíam-lhe um pou­co as costas. Mas sentia dentro de si uma gran­de limpeza como se em vez de, estar a lavar a loiça estivesse a lavar a sua alma. A luz sem abat-jour da cozinha fazia brilhar os azulejos brancos. Lá fora, na doce noite de Verão, um cipreste ondulava branda­mente.
O pão estava no cesto, a roupa na gaveta, os copos no armário. O vaivém, a agitação e o tumulto do dia repousavam.
Havia um grande sossego. Tudo estava ar­rumado e o dia estava pronto.
E Joana atravessou devagar a sua casa.
Ia abrindo e fechando as portas, abrindo e fechando as luzes. Os quartos desapareciam no escuro e surgiam do escuro na claridade.
Um doce silêncio pairava como uma sede estendida.
O silêncio desenhava as paredes, cobria as mesas, emoldurava os retratos. O silêncio escul­pia os volumes, recortava as linhas, aprofunda­va os espaços. Tudo era plástico e vibrante, denso da própria realidade. O silêncio como um estremecer profundo percorria a casa.
As coisas conhecidas — o muro, a porta, o espelho — mostravam uma por uma a sua bele­za e a sua serenidade. E nas janelas abertas a noite de Junho mostrava o seu rosto constelado e suspenso.
Joana deu lentamente a volta à sala. To­cou o vidro, a cal, a madeira. Há muito já que cada coisa tinha encontrado ali o seu lugar. E era como se esse lugar, como se a relação entre a mesa, o espelho, a porta, fossem a expressão de uma ordem que ultrapassava a casa.
As coisas pareciam atentas. E a mulher que lavara a loiça procurava o centro dessa atenção. Sempre o procurara, mas quem o po­de captar?
O silêncio agora era maior. Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e alisasse todas as suas pétalas.
E em roda deste silêncio os astros da noite exterior giravam lentamente e o seu movimen­to imperceptível tomava em si a ordem e o si­lêncio da casa.
Com as mãos tocando a parede branca Joa­na respirou docemente. Era ali o seu reino, ali na paz da contemplação nocturna. Da ordem e do silêncio do universo erguia-se uma infinita liberdade: Ela respirava essa liberdade que era a lei da sua vida, o alimento do seu ser.
A paz que a cercava era aberta e transparente. A forma das coisas era uma grafia, uma escrita. Uma escrita que ela não entendia mas reconhecia.
Atravessou a sala e debruçou-se na janela aberta em frente do puro instante azul da noi­te.
As estrelas brilhavam, íntimas e distantes. E pareceu-lhe que entre ela e a casa e as estrelas fora estabelecida desde sempre uma aliança. Era como se o peso da sua consciência fosse ne­cessário ao equilíbrio das constelações, como se uma intensa unidade atravessasse o universo in­teiro.
E ela habitava essa unidade, estava presen­te e viva na relação das coisas e a própria reali­dade atenta a abrigava em sua imensa e aguda presença.
No ar, na cal, no vidro, tocava a sua felici­dade e essa felicidade era no seu centro unida­de.
Debruçou-se na janela e apoiou os braços na pedra fresca do parapeito.
Uma leve brisa agitou os ramos dos cedros. No rio, rouca, apitou uma sereia. Na torre o si­no bateu duas badaladas. Foi então que se ouviu o grito.
Um longo grito agudo, desmedido. Um grito que atravessava as paredes, as portas, a sa­la, os ramos do cedro.
Joana virou-se na janela. Houve uma pau­sa. Um pequeno momento imóvel, suspenso, hesitante. Mas logo novos gritos se ergueram, trespassando a noite. Estavam a gritar na rua, do outro lado da casa. Era uma voz de mulher. Uma voz nua, desgarrada, solitária. Uma voz que de grito em grito se ia desformando, desfi­gurando até ficar transformada em uivo. Uivo rouco e cego. Depois a voz enfraqueceu, bai­xou, tomou um ritmo de soluço, um tom de la­mentação. Mas logo voltou a crescer, com fúria, raiva, desespero, violência.
Na paz da noite, de cima a baixo, os gritos abriram uma grande fenda, uma ferida, E as­sim como a água começa a invadir o interior en­xuto quando se abre um rombo no casco de um navio, assim agora, pela fenda que os gritos ti­nham aberto, o terror, a desordem, a divisão, o pânico penetravam no interior da casa, do mundo, da noite.
Joana afastou-se da janela que dava para o jardim, atravessou a sala, o corredor e o quarto e, no outro lado da casa, debruçou-se na janela que dava para a rua.
A mulher via-se mal, agarrada à parede, na meia-luz, do outro lado do passeio. Os seus gritos nus, próximos, desmedidos enchiam a penumbra. Na sua voz a terra e a vida tinham despido os seus véus, o seu pudor e mostravam o seu abismo, revelavam a sua desordem, a sua treva. De uma ponta à outra da rua os gritos corriam batendo contra as portas fechadas.
Era uma rua estreita, apertada entre edifí­cios sem cor, pesados e tristes. Ali a noite era cinzenta, o ar baço, parado e pegajoso.
Cães vadios farejavam o chão dos passeios e rebuscavam os caixotes do lixo tentando agar­rar sob as tampas os restos, as cascas, o pescoço da galinha degolada.
O edifício enorme da prisão enchia todo o lado esquerdo da rua com as altas paredes cor­tadas por pequenas janelas de grades. A essa parede estava encostada a mulher. As vezes er­guia a cara e então via-se o rosto torcido e desfi­gurado pelo grito. Ao seu lado desenhava-se o vulto de um homem. Era tarde. As portas e as janelas estavam fe­chadas sobre gente adormecida e na rua não pas­sava mais ninguém. Só de longe a longe se ouvia um chiar de carros na viragem das esquinas.
O homem procurava arrastar a mulher e, quando os gritos diminuíam um instante, im­plorava-lhe que se calasse, pedia:
— Vamos embora.
Mas ela não o ouvia. Gritava como se esti­vesse só no mundo, como se tivesse ultrapassa­do toda a companhia e toda a razão e tivesse encontrado a pura solidão. Gritava contra as paredes, contra as pedras, contra a sombra da noite. Erguia a sua voz como se a arrancasse do chão, como se o seu desespero e a sua dor bro­tassem do próprio chão que a suportava. Erguia a sua voz como se quisesse atingir com ela os confins do universo e, aí, tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém, a responder. Gritava contra o silêncio.
Às vezes calava-se um momento e inclina­va a cabeça para trás como quem espera ouvir uma resposta.
Então, de novo, o homem implorava:
— Cala-te, cala-te. Vamos embora daqui.
Mas ela recomeçava a gritar e batia com os punhos na parede da prisão como se quisesse forçar a pedra a responder. Gritava como se quisesse atingir um ausente, acordar um ador­mecido, abalar uma consciência impassível e, alheada, tocar o coração de um morto.
Através das paredes, das portas, das ruas, da cidade, gritava para o fundo do universo, para o fundo do espaço, para o fundo da ocul­tação da noite, para o fundo do silêncio.
De repente calou-se, curvou a cabeça, ta­pou o rosto com as mãos. Então o homem co­briu-lhe os cabelos com o xaile, afastou-a da parede, passou-lhe um braço em roda dos om­bros, e, devagar, juntos, desceram a rua e vira­ram a esquina.
Durante algum tempo flutuou no ar pesa­do da rua um eco de soluços e de passos que se afastavam e diminuíam. Depois voltou o silên­cio.
Um silêncio opaco e sinistro onde se ouvia o esgravatar dos cães.
Joana voltou para a sala. Tudo agora, des­de o fogo da estrela até ao brilho polido da me­sa, se tinha tornado desconhecido. Tudo se tinha tornado acidente absurdo, sem ligação, sem reino. As coisas não eram dela, nem eram ela, nem estavam com ela. Tudo se tornara alheio, tudo se tornara ruína irreconhecível.
E, tocando sem os sentir o vidro, a madei­ra, a cal, Joana atravessou como estrangeira a sua casa.


em Sophia de Mello Breyner, Histórias da Terra e do Mar

08/07/2014

07/07/2014

Se podes ouvir, sente

Ouvir - The Gift


Queria fazer-te entender
Que as palavras pesam como os sentimentos
E é tão difícil ouvir sem sentir
E é no silêncio
Que eu descubro os teus mistérios
Os olhos dizem o que vai no coração
E é tão difícil ouvir sem sentir

05/07/2014

Universo feminino

Se o cansaço da alma se medisse em profundidades, o meu desceria aos mais profundos abismos dos mares.

03/07/2014

A culpa fica-nos tão bem

E ontem até li um post que era rápido em atribuí-las...



«A culpa por sobrevivermos àqueles que amamos é justo que a carreguemos; sobreviver-lhes é uma desconsideração que lhes fazemos.»

citação daqui 

02/07/2014

Retalhos da vida doméstica

O dia caminha lentamente para o fim, os móveis estão mudados, os cortinados novos ocupam o lugar dos antigos. Há cantos que transpiram limpeza e arrumação. Deles não faz parte a minha alma.

Retalhos da vida doméstica

Há poesia inquestionável nos pequenos acontecimentos da vida doméstica, como estar a pôr um bolo de chocolate no forno e ouvir do lado de lá do corredor um grito:

-- Tia, já fiz cocó!!!