29/01/2014

Olhos de água

São rios os lábios, correndo suaves pelas margens
do meu corpo.

São ondas as voltas da língua, navegando livre pelo mar
do meu deleite.

São escribas os olhos, escrevendo céleres por dentro
tudo o que sentem.

São mãos espalmadas, apertadas,
cheias, gritando contra o chão as palavras que
se confundem nas margens afastadas
dos lábios meus feitos ilhas
sequiosas dos lábios teus feitos água.

24/01/2014

Novos mundos



Naveguemos
nos mares remexidos
caminhemos
pelas terras desvirginadas
procuremos
estrelas nos céus sem mistérios e
desenhemos
novas cartografias sem rumo certo
novos herbários inventados
astrolábios imprecisos que indiquem o
desnorte
linhas curvas à volta das nossas
mãos.


Este texto seguirá para o Cais, num dia oportuno.

23/01/2014

Universo feminino

A incompreensão da utilidade de peças decorativas em estanho, casquinha e prata.

O desânimo ao perceber que uma das portas do armário tem de ser tirada, para se porem as prateleiras de vidro.

Assim vai o meu universo.

Correspondência íntima XVIII

Há-de ir tudo ao sítio - esse lugar mágico que não sei bem onde fica, mas é para lá que tudo tem de ir -, mais não seja à força ou por inércia, que é a força ao contrário.

22/01/2014

Mamas silicónicas

Estou farta de ver fotografias de mulheres com enormes mamas silicónicas. São quase sempre excessivas, plásticas e nada agradáveis à vista. Ó senhores fotógrafos artísticos, e fotografar mulheres normais, daquelas que têm mamas bonitas, não?

20/01/2014

A inconsciência sobre a passagem do tempo é uma bênção

A inconsciência sobre a passagem do tempo é uma bênção, uma espécie de trégua da memória, uma ignorância sobre o pretérito, que favorece um presente mais luminoso, mais leve. Bastou, porém, que na banalidade de uma conversa se perguntasse que dia era hoje... Foi com a força de uma torrente que todos os pormenores deste dia se apresentaram nítidos, terrivelmente concretos, absurdamente presentes, para me lembrar que as tréguas não duram para sempre e a memória é um adversário cruel.


No meio da cidade onde fervilhava vida, os portões de ferro abriam-se para um largo caminho de calçada, ladeado à direita por bancos, árvores e casas abandonadas – habitadas por memórias de gente –, à esquerda por frias capelas, detestáveis capelas que arrefeciam os ossos de todos os que lá entravam. Em frente a uma, difusas manchas negras agrupavam-se, suportando nas pernas o peso dos ombros, alguns aceitavam a oferta dos bancos de cimento e abandonavam-se à espera. 

19/01/2014

Natureza humana

É possível deter o momento, fazê-lo entrar na nossa concha, falar-lhe ao ouvido e contorcê-lo, golpeá-lo no sítio que mais dói só para depois o deixar ir outra vez e ficar só silêncio e ausência e mais nadinha.

Só podia ser de quem é

18/01/2014

As estradas portuguesas são o espelho da nação, estão cheias de depressões.

16/01/2014

How do you spell love?





Da mesma forma que Piglet pergunta a Pooh como se soletra o amor, poderia perguntar como se define o amor. A resposta de Pooh seria, assim o creio, exactamente igual. 

Aceitar que o amor é mais do domínio do sentir do que do pensar poupar-nos-ia muitos caracteres de má literatura e muitas ondas sonoras de músicas falhadas, tudo muito redundante, tudo muito superficial, tudo muito lugar-comum. 

Se te amo, é porque te amo, porque te sinto por dentro, porque é assim mesmo, ainda que o saiba explicar com eloquência

15/01/2014

Correspondência íntima XVII

O lado bom da minha compulsão pela arrumação é que nem a cabeça escapa, logo, ou se arruma ou sai fora! Ora, como eu gosto demasiado de chapéus, a ideia de viver sem cabeça não é coisa que me interesse muito.

14/01/2014

Como diz Dona Milú


E o mistério está em não perceber por que razão a cyclopedia.net encaminhou uma alminha para o meu blogue, a partir da pesquisa autopenetração.
Se alguém entender, explique-me que eu agradeço a explicação, com toda a sinceridade deste mundo.

Tenho um mundo só para ti

Vi os Prana pela primeira vez na Queima 10, em Coimbra, trouxe comigo o cd e um conjunto de boas músicas no ouvido. Já os espalhei pelo blogue, porque, é um facto, gosto desta gente e gostava de os ver mais divulgados por aí.


Melansólico - Prana

13/01/2014

Correspondência íntima XVI

De repente surgiram não sei quantos fogos à minha volta que tive de ir apagar - fui nomeada bombeira de serviço à revelia, uma espécie de senhora dos aflitos versão não-católica. Não sei bem como, talvez por excesso de exposição à desgraça, incendiei-me eu e deixei arder - é insuportável o esforço de me atirar acima um copo de água.

12/01/2014

Os domingos de chuva

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Os domingos de chuva sabem à nostalgia de um bem nunca alcançado. 


11/01/2014

Procura-se

um fim-de-semana assim.


10/01/2014

No facebook como na vida



Não interessa aumentar o número de «amigos» no facebook. Depois da euforia inicial, só se interage com os da casa, os de sempre, e os outros esbatem-se pelos feeds, presentes mas sem que se percebam.

09/01/2014

Entre os teus lábios é que a loucura acode

Ben Lamberty 



Entre os teus lábios

Eugénio de Andrade

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

08/01/2014

Cortem-lhes a cabeça!!

Michael Kutsche




– Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas.

em «O homem sem cabeça», José Gomes Ferreira, As Aventuras de João Sem Medo.

07/01/2014

Ainda sobre a chuva

Here Comes The Rain Again - na voz de Macy Gray

Here comes the rain again
Raining in my head like a tragedy
Tearing me apart like a new emotion
Oooooh
I want to breathe in the open wind
I want to kiss like lovers do
I want to dive into your ocean
Is it raining with you

06/01/2014

Um barco abandonado

Os dias de chuva entristecem-me. A ausência do sol escurece-me na proporção do crepúsculo, a humidade do tempo desconsola-me. É difícil usar do engenho em dias assim, porque o constante cair da água, em cortinas de gotas ou fortes bátegas, desfaz os cenários frouxos do meu teatro mínimo. É um desconsolo à vista as manchas esborratadas do que pintei no papel de cenário, a realidade a galope conquistando as minhas vagas esperanças.

O mar da Figueira rugiu o dia todo, atirou-se onda após onda contra os limites de pedra que alguém plantou ao longo da marginal. O mar da Figueira parecia querer deixar de ser mar, para ser gente, qual Ariel em fúria, caminhar na areia, dormir nos hotéis, descansar nas esplanadas. Os seus dedos violentos arrancaram pedaços de muro, na agonia de não poderem deixar de ser o que são - dedos de mar, braços de água, corpo de espuma, cabelos de algas, boca insaciável de peixe e de homens.

No meu monólogo triste, sou mar em fúria, sereia desfeita em espuma, um barco abandonado.





Barco Abandonado - Dulce Pontes e Ennio Morricone


Barco abandonado
Na voz do tempo, na margem do rio
Nesta lonjura
Na voz dos temporais
Anoitece um canto sombrio
Nas pedras deste cais

Há um adeus no meu olhar
Este meu barco prisioneiro
Há-de ser viageiro
No meio do mar

Barco abandonado
Na noite escura, na ronda do vento
Neste silêncio
Na voz dos temporais
Um lamento que a dor esqueceu
Nas sombras deste cais

Há um adeus dito a sorrir
Do céu, meu amor,
Ao céu que é meu e teu,
Um dia hei-de subir
Se te encontrar

05/01/2014

A inefável mágoa da contagem crescente

Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe
E a distância é tão grande.

Gisela João - Meu amigo está longe


Voltámos aqui. Mais um ano, mais trezentos e sessenta e cinco dias de absurda estupefacção. Este ano, não consigo escrever nada, voltei ao estádio primeiro de quem se usa do que os outros escreveram, para poder dizer com sinceridade aquilo que sente. Não sei já como juntar as palavras soltas do dicionário num texto coeso, no mínimo, coerente, se tudo correr pelo melhor, juntando tudo, não querendo dizer nada; por isso, apropriei-me do que não era meu - como antes, antes de tudo, antes do nada. Talvez gostes da Gisela, não sei se estará ao nível de um fadista Meireles, mas é do norte e tem aquele ar selvagem de quem ainda não foi domado pelas regras da etiqueta - isto há-de valer de alguma coisa.

Há porém uma série de confissões que preciso de te fazer, que me pesam no lado do silêncio que guardo sobre ti, que preciso de arrumar, para me arrumar - ou desarrumar de vez, não sei, as certezas habitam areias movediças :

1) Tenho-me obrigado a esquecer, a bem da minha paz de espírito. Depois sinto-me culpada e lembro-me: lembro tudo, de chofre, de tirar o fôlego, a doer mesmo. Só quando sinto que o meu coração ainda bate com força, fico em paz - ainda não te esqueci.

2) Até agora não consegui falar de ti sem chorar, por isso, não falo de ti. Às vezes menciono-te vagamente como «o que aconteceu», que é uma forma cobarde de me proteger de mais explicações e de salvar algumas lágrimas. Creio firmemente que nunca o conseguirei fazer, que haverá sempre muita emoção no mencionar do teu nome e na evocação de quem foste.

3) Estou a ficar doida. Só assim explico que continue a escrever-te espécies de cartas num espaço público, onde qualquer pessoa pode ler, contrariando tudo o que sou: a minha reserva permanente sobre a minha vida e a dos outros e as minhas convicções, porque contra tudo aquilo em que acredito espero, de alguma forma, que me consigas ler e saibas, por fim, tudo o que não fui a tempo de dizer.

4) Já consegui arrumar os teus livros. 

5) Devias ter pensado mais em nós, quando decidiste morrer para sempre.

02/01/2014

Desejos para o ano vindouro

Os meus desejos são secretos.
Não que não tos possa dizer, não que o sejam
só agora que o ano velho se despede cansado e
o novo ano fervilha de imprudência infantil.

São secretos os meus desejos.
Não que não os saibas já, não que não os
suspeites no baloiçar dos meus passos,
no riso dos meus olhos, no vacilar dos meus versos.

Secretos os meus desejos são.
Escrevo-os em pedaços de papel, rasgados
de cadernos alheios e dobro-os em mil dobras,
pequeninas como os meus desejos nunca serão.

Guardo-os nos bolsos, com as chaves de casa
e o mapa da cidade. Lavro-os nas paredes
do sótão onde me escondo da existência pálida
e teço teias à volta do coração.

Desejos meus secretos são.


Publicado originalmente em Cais das Letras

A intensidade da chuva

A intensidade da chuva raia já o absurdo. Não haverá sol suficiente no novo ano, para secar todas as colchas e os lençóis de linho arrumados nos baús. As fotografias, como as recordações, ficaram irremediavelmente manchadas. As cores escorreram de tudo onde a água cai - a vida é uma tela em branco, onde até os traços do carvão começam a perecer.