28/12/2014

Eu selfico desde os tempos da velha senhora

Se os meus pais fizessem um álbum conjunto com as fotografias dos quatro filhos, o último lugar em número e variedade de momentos Kodak seria meu. São azares de quem não é o primeiro a nascer, logo, vítima da fúria fofinha que assola os recém-pais em registar todas as gracinhas do rebentinho que pode bem ser o único, nem o último, aquele que já nasce mais tarde e recorda aos pais a fúria dos primeiros tempos.

Foi quase isto que aconteceu lá por casa. Enquanto o meu irmão mais velho tem inúmeras fotos, eu tenho umas quantas. Como os irmão mais novos nasceram bem mais tarde, já eu tinha descoberto a velha Kodak do meu pai - daquelas que era preciso puxar o rolo e pôr o flash no topo -, têm registados quase todos os passos que deram, até aqueles que não queriam recordar. 

Também não era hábito fotografar a rotina escolar ou familiar, só um ou outro passeio em que as fotos saíam quase sempre tremidas por manifesta falta de jeito quer para fotografar quer para entender a complexidade da máquina, por isso, as fotografias à volta da minha jovial adolescência foram rareando até quase se limitarem à visita anual do fotógrafo à escola ou à actualização do B.I. e do arquivo escolar.

Como a Faculdade também não foi terreno fértil para poses e olhares matadores - os bicos de pato ainda não eram moda, oh! Glória -, foi nas máquinas digitais que depositei as minhas esperanças. Mas, para aparecer em cenários idílicos, era preciso que houvesse fotógrafos dispostos a esperar e a escolher o momento certo para gritar um «diz 'queijo'!», e não fotógrafos apressados e enfadados que mal me deixavam chegar ao tal cenário já estavam a devolver a máquina com um «já está».

A solução foi aprender a fotografar-me. Para mim foram sempre auto-retratos, ou a única forma de comprovar que estive mesmo lá naqueles sítios, para o mundo histérico de hoje é uma selfie, uma moda, como se da descoberta da pólvora se tratasse. E selfica-se tudo à exaustão porque é giro, quando os auto-retratos são mais velhos que o Matusalém.

video


2 comentários:

  1. olha, fizeste-me rir. :))
    e nunca tinha dado por isso, que há selpartir e selficar.

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  2. Não pratico muito a selfie, mas adorei o vídeo, embora não desejasse experimentar a técnica. :)

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