09/12/2014

É difícil amar quem anda sempre em viagem

É difícil amar quem anda sempre em viagem. As cartas perdem-se muitas vezes pelos caminhos, naufragam no mar dos endereços temporários, desaguam nos sacos da correspondência inútil que os Correios guardam pelo hábito de não destruir missivas.  É difícil amar os que vivem entre muitos destinos e têm de obedecer a muitas vozes, os que mal chegaram e estão sempre para partir, que têm mil afazeres pendentes, mais mil decisões para prever. Balançam-nos no tempo como trapezistas, lestos em equilibrar muitas vidas. São pequenos furacões que passam, tão consumidos de ar quente e de ar frio, que se esquecem de quem esperou meses que voltassem e os vê partir, com olhos mudos. É um aperto de ombros na chegada, um aperto dos ossos todos na partida e o silêncio embargado das palavras estranguladas a cuspir lágrimas pelos olhos. É difícil amar um marinheiro. E um aviador. E um condutor de camiões de longo curso. E um comissário de bordo de voos transcontinentais. É difícil amar quem anda sempre em viagem.

Holanda
Photo by Carla Pinto Coelho
fotografia minha, pois claro

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