17/11/2014

Do presente antigo

Podes morrer, é certo, daqui a poucos dias;
ou ter morrido até neste preciso instante.
Apenas pela rádio, apenas por acaso hei-de saber
da tua morte.

Outras que tu amaste, só porque foi outrora,
já ganhando por isso um estatuto de dignas,
terão sido avisadas, entre lugares-comuns,
não só a tempo e horas, mas até por alguém
da tua família.

A mim me caberá a parte mais secreta, mais ingrata
de luto:
a de passar, anónima, à beira do teu esquife,
para mim lamentando que não seja uma gôndola;
a de ser simplesmente, e entre muitas outras,
a figura provável de alguma antiga aluna.

E só nesse momento sentirei a revolta
de ter sido tão tépida ou, pior, tão sensata
diante da loucura dos mais arrebatados
de teus projectos,
e não ter ensaiado, como dizes, a Fuga,
e não ter transplantado, com maior duração,
os dias de Veneza para outro hemisfério.

É certo: poderias ate ter morrido durante
o caminho, a viagem.
Ao menos, se assim fosse, eu estaria ao teu lado.



David Mourão-Ferreira (2007). Um Amor Feliz. Editorial Presença. pp. 278-279

1 comentário:

  1. Já não lia nada dele desde os tempos de faculdade. Gosto tanto. Obrigada.

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