01/09/2014

Arruinaste o meu prazer pela leitura.



Arruinaste o meu prazer pela leitura.

Depois de ti não houve mais livros. Não houve mais configurações das personagens masculinas, não houve mais inflexões de voz adivinhadas ou gestos imaginados. Todos -- qualquer que seja o seu nome, a compleição, a cidade onde vive, a língua que fale -- são tu. És tu que persegues os maus, salvas as donzelas, cavalgas na terra dos índios, passeias de bengala pelas capitais, és capitão de exércitos, mestre de barcos, astronauta destemido. Pertencem-te todos os dilemas, todas as depressões, as ousadias e as cobardias. São sempre os teus olhos, as tuas mãos, o teu encolher de ombros, o teu rir.

A cada página virada, a cada avanço na narração, somos nós que viramos dias, saltamos para a frente, por cima dos excedentes literários e das descrições enfadonhas. São nossos todos os diálogos, somos nós que nos enganamos, nos complicamos, nos descompreendemos; como são nossas as piadas, as despedidas, as discussões, as chegadas. És tu a arrastares-me para a ficção e eu a ir sem resistência.

Arruinaste o meu prazer pela leitura. Depois de ti não houve mais livros.

6 comentários:

  1. Somos nós que escrevemos o nosso livro :)

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  2. Espectacular, este post...só faltou dizer o nome do "livro" que arruinou o teu prazer pela leitura...
    Beijinho
    :)))

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  3. Obrigada, Ricardo, muito obrigada! :)

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  4. Bem, caro Jorge, posso dizer que é um livro grande - sim, daqueles com muitas páginas, denso, cómico de pendor metafísico, às vezes obscuro, quase sempre viciante. Enfim, um daqueles livros à moda antiga que não me canso de ler.

    Os livros levezinhos nunca fizeram o meu género.

    ;)

    beijoca

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  5. Bem, caro Jorge, posso dizer que é um livro grande - sim, daqueles com muitas páginas, denso, cómico de pendor metafísico, às vezes obscuro, quase sempre viciante. Enfim, um daqueles livros à moda antiga que não me canso de ler.

    Os livros levezinhos nunca fizeram o meu género.

    ;)

    beijoca

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