27/06/2014

Como se ainda pudesses escrever poemas

I

Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.

O mesmo jeito do corpo,
o mesmo jeito do cabelo,
talvez um pouco mais baixo -- talvez
eu um pouco mais agigantada na distância.

Foi preciso navegar um mar de gente
para desembarcar em ti, um mar que me
arrastava da costa quando o meu pé quase
tocava a terra que eras tu.

Então tu viste-me e sorriste com
o mesmo jeito no sorriso.
E falaste com
o mesmo jeito na voz.

Não houve mais mar que me empurrasse
para longe do descanso do teu abraço.


II

Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.

Contaste-me um pequeno segredo que tinha
ficado por dizer, e eu chorei
com os meus braços agigantados na ausência
enrolados em ti, como algas do fundo do mar,
como que a puxarem-te para as profundezas
dos meus abismos.

E tu sorrias e falavas baixinho,
como quem acalma uma criança a quem aconteceu
um sonho mau.


III

Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.

Ainda não acordei.

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