10/02/2014

Shane Koyczan - another way to tell the time

Sair da lista habitual de leituras, ter um lugar secreto onde se pode ler e ver o que sai do costume, é uma necessidade que tenho. Gosto de visitar e comentar blogues que poucos conhecem e/ou comentam, gosto de descobrir pérolas de qualidade que estão tão longe do que toda a gente quer que me fazem abrir o computador e ler, ver, ouvir.

Numa dessas viagens virtuais a um espaço que visito só pelo prazer de ver fotografias fantásticas, tropecei em duas músicas que me fizeram pesquisar mais de uma hora, para saber de quem eram. Uma só consegui saber, interpelando directamente o gestor do espaço; a outra veio ter comigo, sem esforço.


Shane Koyczan


A música – melhor será dizer o poema – é de Shane Koyczan, um canadiano quase nos quarenta que escreve e diz a sua poesia, acompanhado por música da boa, como a dos The Hort Story Long, no álbum Remembrance Year (2012). Em 2013, participou nas Conferências TED, com «To this day».
Os seus poemas são uma mistura de sentimentos, do desalento à esperança, da tristeza à alegria, porque são poemas sobre pessoas e a transversalidade do sentir:
If you think for one second no one knows what you’ve been going through; be accepting of the fact that you are wrong, that the long drawn and heavy breaths of despair have at times been felt by everyone - that pain is part of the human condition and that alone makes you a legion., Instructions for a bad day.
Muitas vezes afrontam as certezas e confrontam-nos com a morte e as nossas limitações:
He never greets me with silence, only smiles and a patience I've never seen in someone who knows they're dying. And I'm trying so hard not to remind him I'll be out of here in a couple days, smoking cigarettes and taking my life for granted. And he'll still be planted in this bed like a flower that refuses to grow. I've been with him for 5 days and all I really know is that Louis loves to pull feathers out of his pillow, and watch them float to the ground. Almost as if he's the philosopher inside of the scientist ready to say, "It's gravity that's been getting us down., The crickets have arthritis.


Move Pen Move e My Darling Sara


Inevitavelmente quem usa as várias formas de arte para se expressar e se entender acaba por, mais criação menos criação, entrar pelo lado mais íntimo e sofrido da sua intimidade. Este percurso poderá resultar em trabalhos admiráveis para o público, feridas sempre abertas para quem cria.

Nas apresentações que faz, Shane Koyczan evita voltar a dois poemas que são dos mais procurados e conhecidos: Move Pen Move e My Darling Sara. O primeiro porque é a sobre a morte da mãe, o segundo sobre a morte da namorada, duas perdas em questão de dias.

They can’t stop the bleeding and the failing use of Sara’s heart isn’t actually the failing use of Sara’s heart... it’s just another way to tell the time.
My darling Sara, I was holding your hand when you died and even though the failing use of my right hand prevented me from feeling you leave... I tried., My Darling Sara

Revejo-me nesta incapacidade de encarar o que se escreveu como um produto artístico. É quase uma maldição que os textos que foram escritos com sangue, veias, entranhas, lágrimas, pedaços de pele, sejam os mais desejados e aqueles a que já não se consegue voltar, porque são uma violência constante, um reviver dos acontecimentos de uma forma mais profunda, porque já fazem parte de todo um processo de tomada de consciência em relação à perda.

Mas eles tiveram de ser escritos, foram parte de um luto e tiveram de ser marcados no papel, a bem da manutenção de uma sanidade mental que às vezes parecia demasiado fugidia.

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