05/01/2014

A inefável mágoa da contagem crescente

Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe
E a distância é tão grande.

Gisela João - Meu amigo está longe


Voltámos aqui. Mais um ano, mais trezentos e sessenta e cinco dias de absurda estupefacção. Este ano, não consigo escrever nada, voltei ao estádio primeiro de quem se usa do que os outros escreveram, para poder dizer com sinceridade aquilo que sente. Não sei já como juntar as palavras soltas do dicionário num texto coeso, no mínimo, coerente, se tudo correr pelo melhor, juntando tudo, não querendo dizer nada; por isso, apropriei-me do que não era meu - como antes, antes de tudo, antes do nada. Talvez gostes da Gisela, não sei se estará ao nível de um fadista Meireles, mas é do norte e tem aquele ar selvagem de quem ainda não foi domado pelas regras da etiqueta - isto há-de valer de alguma coisa.

Há porém uma série de confissões que preciso de te fazer, que me pesam no lado do silêncio que guardo sobre ti, que preciso de arrumar, para me arrumar - ou desarrumar de vez, não sei, as certezas habitam areias movediças :

1) Tenho-me obrigado a esquecer, a bem da minha paz de espírito. Depois sinto-me culpada e lembro-me: lembro tudo, de chofre, de tirar o fôlego, a doer mesmo. Só quando sinto que o meu coração ainda bate com força, fico em paz - ainda não te esqueci.

2) Até agora não consegui falar de ti sem chorar, por isso, não falo de ti. Às vezes menciono-te vagamente como «o que aconteceu», que é uma forma cobarde de me proteger de mais explicações e de salvar algumas lágrimas. Creio firmemente que nunca o conseguirei fazer, que haverá sempre muita emoção no mencionar do teu nome e na evocação de quem foste.

3) Estou a ficar doida. Só assim explico que continue a escrever-te espécies de cartas num espaço público, onde qualquer pessoa pode ler, contrariando tudo o que sou: a minha reserva permanente sobre a minha vida e a dos outros e as minhas convicções, porque contra tudo aquilo em que acredito espero, de alguma forma, que me consigas ler e saibas, por fim, tudo o que não fui a tempo de dizer.

4) Já consegui arrumar os teus livros. 

5) Devias ter pensado mais em nós, quando decidiste morrer para sempre.

2 comentários:

  1. Mas escreveres aqui não é expores-te... Ninguém te conhece o rosto!
    Beijinhos

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