31/12/2014

Bom Ano!!

A todos os que aqui passam, desejo um 2015 com tudo do bom e do melhor. Para esbardalhar tudo, mas em bom!


28/12/2014

Eu selfico desde os tempos da velha senhora

Se os meus pais fizessem um álbum conjunto com as fotografias dos quatro filhos, o último lugar em número e variedade de momentos Kodak seria meu. São azares de quem não é o primeiro a nascer, logo, vítima da fúria fofinha que assola os recém-pais em registar todas as gracinhas do rebentinho que pode bem ser o único, nem o último, aquele que já nasce mais tarde e recorda aos pais a fúria dos primeiros tempos.

Foi quase isto que aconteceu lá por casa. Enquanto o meu irmão mais velho tem inúmeras fotos, eu tenho umas quantas. Como os irmão mais novos nasceram bem mais tarde, já eu tinha descoberto a velha Kodak do meu pai - daquelas que era preciso puxar o rolo e pôr o flash no topo -, têm registados quase todos os passos que deram, até aqueles que não queriam recordar. 

Também não era hábito fotografar a rotina escolar ou familiar, só um ou outro passeio em que as fotos saíam quase sempre tremidas por manifesta falta de jeito quer para fotografar quer para entender a complexidade da máquina, por isso, as fotografias à volta da minha jovial adolescência foram rareando até quase se limitarem à visita anual do fotógrafo à escola ou à actualização do B.I. e do arquivo escolar.

Como a Faculdade também não foi terreno fértil para poses e olhares matadores - os bicos de pato ainda não eram moda, oh! Glória -, foi nas máquinas digitais que depositei as minhas esperanças. Mas, para aparecer em cenários idílicos, era preciso que houvesse fotógrafos dispostos a esperar e a escolher o momento certo para gritar um «diz 'queijo'!», e não fotógrafos apressados e enfadados que mal me deixavam chegar ao tal cenário já estavam a devolver a máquina com um «já está».

A solução foi aprender a fotografar-me. Para mim foram sempre auto-retratos, ou a única forma de comprovar que estive mesmo lá naqueles sítios, para o mundo histérico de hoje é uma selfie, uma moda, como se da descoberta da pólvora se tratasse. E selfica-se tudo à exaustão porque é giro, quando os auto-retratos são mais velhos que o Matusalém.

video


23/12/2014

Para os meus caríssimos

leitores, seguidores, amigos misturados disto tudo. Para todos, que este Natal seja de amor e paz - e algumas prendinhas, claro.


esqueci-me em que cidade fotografei esta roda gigante

Dar, sim. E receber?

Há muitos anos (sem atrás, porque é redundante) que tenho o hábito de enviar postais de Natal. Comprei-os separados, em conjuntos nos Correios já com os selos estampados nos envelopes, achei alguns em casa, enfim, gostava de enviar uns miminhos assim aos amigos principalmente aqueles que já não via há anos. Não era sempre aos mesmos, devo ter falhado uns anos, mas gostava. Se não me falha a memória, os postais que recebi de volta chegaram sempre uns dias depois dos que enviei - quando chegaram.

Entretanto a Internet trouxe as redes sociais e os Correios perderam uma cliente, os postais passaram a virtuais, o mais possível personalizados com mensagens que fugissem às vulgares Boas Festas. Depois cansei de identificar gente nas imagens e comecei a tirar fotografias à árvore de Natal e ao Presépio e a enviar por correio electrónico. No início, era pelo Natal e pelo Ano Novo. O ano passado foi só pelo Natal, este ano ainda hesito. É que, como com os postais em papel, não me lembro de receber uma felicitação que seja antes da que envio, e as que envio resumem-se a «obrigado e para ti também».

Eu sei que anda tudo muito atarefado, muito a fazer contas de cabeça, muito tudo e mais alguma coisa, ainda assim, há alturas em que sabia bem ser lembrada - sem a ajuda do FB.


(já estou a escolher a fotografia deste ano, para pôr aqui no blogue. só tenho de escolher entre 300 que tirei...)

21/12/2014

A observância das coisas

colorspohoto:

yarıda kalan görüşme 
cümlenin sonu sert olmuştur

O esquecimento não precisa da morte para se expandir em força, basta-lhe uma ausência mais prolongada para corromper os melhores costumes.

19/12/2014

Alors on danse

Os dias vão de chuva. Mudar de um país para o outro é um segundo que quando se dá por ele já passou. Sucedem-se ruas, caminhos de asfalto e placas que mudam de língua como quem muda de vontade. Tudo o que é doce é bom, mas o vinho, esse, continua a ser português - um pouco de fado na distância. Os dias confundem-se, é sempre Domingo quando se está longe de casa. As comunicações arrumadas a um canto, a conversa é uma dona de casa cansada ao fim do dia. Ainda assim...


Alors on danse - Stromae


Alors on danse - Stromae


Alors on danse

Qui dit étude dit travail
Qui dit taf te dit les thunes
Qui dit argent dit dépenses
Qui dit crédit dit créance

Qui dit dette te dit huissier
Oui dit assis dans la merde
Qui dit Amour dit les gosses
Dit toujours et dit divorce

Qui dit proches te dis deuils
Car les problèmes ne viennent pas seul
Qui dit crise te dis monde dit famine dit tiers-monde
Qui dit fatigue dit réveille encore sourd de la veille
Alors on sort pour oublier tous les problèmes

Alors on danse?

Et la tu t'dis que c'est fini car pire que ça ce serait la mort
Qu'en tu crois enfin que tu t'en sors
Quand y en a plus et ben y en a encore!
Ecstasy dis problème les problèmes ou bien la musique
Ça t'prends les trips ça te prends la tête
Et puis tu prie pour que ça s'arrête

Mais c'est ton corps c'est pas le ciel
Alors tu t'bouche plus les oreilles
Et là tu cries encore plus fort et ca persiste...

Alors on chante
Lalalalalala, lalalalalala

17/12/2014

Tanto de meu estado me acho incerta



Tanto de meu estado me acho incerta. Assim mesmo, apropriado sem problemas de consciência nem direitos pagos a quem de direito - já vão tarde para lhe pagar o olho em falta e nos Jerónimos, pelo que diz, tem tudo o que precisa, que guarde eu os trocos e os use em proveito próprio. Guardo-os e guardo o verso que é quase uma segunda pele, a parca certeza de uma condição herdada pela força das circunstâncias. Tanto de meu estado me acho incerta, na vontade de ir e de ficar, entre o que quero e o que posso ter. São as sombras no fundo da caverna a descolorarem as ideias da perfeição, o fogo ateado por vislumbres semelhantes aos do poeta, porque a poesia toca a todos e de todos fala, assim a saibamos escutar. 


16/12/2014

Um pouco mais de frio e chuva

Está frio. É natural que esteja, assim como é natural que haja chuva. A mudança geográfica podia operar um certo maravilhamento pelo clima. Assim não é. Na verdade é chuva aqui como lá, frio aqui (relativamente) como lá, até as folhas mortas a suicidarem-se das árvores são tão iguais que as fotografias tanto podiam ser daqui como de lá ou de outro sítio qualquer com árvores e chuva e frio e folhas em voos vagarosos que aterram debaixo das botas grossas. 

A diferença são as pessoas. As minhas pessoas - pequenas e grandes. Porque o clima, o romantismo de uma floresta adormecida debaixo da chuva e do frio é tão de cá como de lá. Sou uma péssima turista.




(não há  fotografia porque me esqueci que este computador não lê cartões e não trouxe o cabo)

14/12/2014

It’s what I’m feeling too

Sights - Londo Grammar


Sights - London Grammar


What are you afraid of?
I know that you are
Keep it in your sights now
And don’t let it go far

What are you afraid of?
Making it better
Keep it by your side now
Whatever the weather

Keep it together
Keep it together

What did you do
Wonder where your heart came from
What have you done
My only friend keep on
Wander or leave
Turn into winter lights
Keeping your strength
When it gets dark at night

What are you made of?
Water and glass
Keep it in your sights now
It’s keeping you up

Keep it together
Keep it together

Keep on, keep on
Keep the straight line
I’m running, running
The straight line

What did you do, wonder where
Your heart came from
What have you done
My only friend keep on
Wander or leave,
Turn into winter lights
Keeping your strength
When it gets dark at night

What you’re feeling
It’s what I’m feeling too
What you’re made of
It’s what I’m made of too
What are you afraid of
I know that you are
What are you afraid of
I know that you are

11/12/2014

Cada vez que estou para partir

não quero ir. É já uma saudade de casa que me pesa na mala meio desfeita em cima da cama. Os gestos tornam-se lentos, a memória esquecida até da lista anti-esquecimentos escrita muitos dias antes. Não quero ir.



Cada vez que já parti, não quero voltar. Voltar para quê? Voltar para o quê? Não quero voltar.

A tempestade

Os jornais avisaram que a tempestade chegaria. Fecharam-se diques, protegeram-se casas e aguardou-se.

As tomadas foram desligadas durante a noite. Dentro de casa mal se sente o vento lá fora. Desde manhã cedo que parece que vai anoitecer - o Sol neste lugar parece sempre cansado, talvez seja da altitude, da proximidade do Árctico, pode ser que o Sol não goste dos pés frios, nem das mãos dormentes, nem do nariz húmido, e se comporte assim, como uma diva que faz o frete de aparecer aos admiradores, apenas e só pelo tempo necessário. Vive-se à meia-luz, numa vertigem de chuva que ameaça constantemente fazer galgar os muitos lagos em volta.

Na rádio, avisaram que se aproximava uma tempestade. Pela hora do almoço, o Sol tapou-se mais, o céu escureceu mais e as nuvens choraram o lusco-fusco que se precipitava contra a janela, grosso pingos gelados. Pelo ar voam folhas que vão desistindo de estar presas à árvore-mãe. No chão amontoam-se folhas caídas, gotas chovidas e passos marcados na terra.

A tempestade desistiu de chegar.

foto minha

09/12/2014

É difícil amar quem anda sempre em viagem

É difícil amar quem anda sempre em viagem. As cartas perdem-se muitas vezes pelos caminhos, naufragam no mar dos endereços temporários, desaguam nos sacos da correspondência inútil que os Correios guardam pelo hábito de não destruir missivas.  É difícil amar os que vivem entre muitos destinos e têm de obedecer a muitas vozes, os que mal chegaram e estão sempre para partir, que têm mil afazeres pendentes, mais mil decisões para prever. Balançam-nos no tempo como trapezistas, lestos em equilibrar muitas vidas. São pequenos furacões que passam, tão consumidos de ar quente e de ar frio, que se esquecem de quem esperou meses que voltassem e os vê partir, com olhos mudos. É um aperto de ombros na chegada, um aperto dos ossos todos na partida e o silêncio embargado das palavras estranguladas a cuspir lágrimas pelos olhos. É difícil amar um marinheiro. E um aviador. E um condutor de camiões de longo curso. E um comissário de bordo de voos transcontinentais. É difícil amar quem anda sempre em viagem.

Holanda
Photo by Carla Pinto Coelho
fotografia minha, pois claro

08/12/2014

Um tempo parado de frio

Naarden - Holanda 2013
tirada e tiritada por mim

05/12/2014

A Wonderbra fez anos

Vinte, neste velhinho Continente a cheirar a desencanto. 

Passou-me de relance pela mente publicar uma foto do meu piqueno que mora ali no fundo da gaveta, porém, como «piqueno» não é termo carinhoso, é adjectivo qualificativo em todo o seu esplendor, ainda gerava pr'aqui uma onda de indignação e invejas muitas do meu mais que perfeito busto, assim apertadinho em tão diminuta peça. 

Deixo-vos a Eva - não é bem a mesma coisa, fica até um bocadinho aquém, mas é o que se pode arranjar.

Ver imagem no Twitter

04/12/2014

Correspondência íntima XIX

Não sei quem se lembrou que escrever eleva o espírito, cada vez que o faço só remexo no lixo, naturalmente só me sai porcaria (sim, voltei a pegar naquela tristeza de texto).

03/12/2014

Caligrafias



Tenho aquilo a que se pode chamar uma letra feiíssima. Desde os tempos da Primária. Nunca as letras nos cadernos de duas linhas foram redondas e certas, tão-só uns símbolos sem lei nem ordem.

Sempre sofri com isto. Ao longo dos anos fui tentando mudar-lhe a forma e domar-lhes o feitio. Tive alturas de quase o conseguir, outras de falhar miseravelmente.

É com o carvão e o giz que escrevo mais bonito. Como me regalava em escrever no quadro de ardósia longas frases para dividir em orações e depois contemplar os meus alunos com o pensamento triunfante: «admirem, em adoração, a magnifica caligrafia da vossa professora». Entretanto, inventaram uns quadros brancos onde se escreve com uns marcadores de bicos cada vez mais finos, pelo que, cada vez que tinha de escrever as simples páginas dos textos a ler, era com o pensamento angustiado que contemplava os meus alunos: «fiquem ceguinhos e não vejam esta letra horrenda».

Felizmente, nunca o meu desejo se cumpriu, o que não evitou que o meu Ministro adorado me tenha posto a andar – como a milhares de outros, mas com o mal alheio posso eu bem.

Tenho então aquilo a que se pode chamar uma letra feiíssima. Nem sequer é feia-chique, como a dos médicos ou dos artistas que rabiscam autógrafos em todas as superfícies que lhes ponham à frente das mãos, inclusive mamas. E isto é um grande obstáculo à minha liberdade criativa. Como é que vou iniciar uma série epistolar com alguém, debatendo o sentido da vida, das artes, do IRS, e das frieiras no Inverno, se o putativo recebedor de uma carta minha, para lhe descortinar o conteúdo, teria de pagar umas notas grandes e gordas a um intérprete de hieróglifos?

E não só! Uma vez segui um guia de classificação/interpretação/qualquer-coisa-em-ão de personalidade baseada no tipo de letra e quase tive um fanico. Num único texto meu, a minha letra muda tantas vezes de forma, tamanho e inclinação, que a única conclusão válida a que cheguei é que sou doida. E a minha personalidade é uma espécie de montanha-russa a alta velocidade.


Andei, por isso, a tentar corrigir esta falha gravíssima, treinando a caligrafia que consigo manter por três linhas seguidas. É com júbilo que vos digo ser a dona de uma letra pequena e quase redonda. Ah, se ao menos eu tivesse escrito este texto pelo meu punho, digitalizado e partilhado convosco! 

02/12/2014

Natureza humana - ou como a cobardia masculina é insuportável

Não há nobreza alguma no abandono do amor. Deixei-te porque te amava demais é a mentira dos cobardes, repetida tantas vezes quantas as necessárias para se convencerem da sua verdade. Podem até iludir-nos, durante consideráveis anos na lisura da certeza de termos sido demasiado grandiosas para a vulgar mortalidade do ser que nos olha com olhos chorosos e envergonhados, mas há sempre um momento em que o véu se rasga e a verdade nasce. Deixei-te porque não te quis. O resto é conversa para a burra dormir.

Universo feminino

A felicidade manifesta-se em pequenas coisas, como ainda me servir uma saia que vesti aos quinze anos.

01/12/2014

Gramática sentimental

gacougnol:

Viviane Sassen From “Sol & Luna” 2nd edition  Libraryman 2013
Viviane Sassen - From “Sol & Luna”, 2nd edition , Libraryman 2013


Há dias em que me sinto normativa, outros, descritiva. 
Hoje, por exemplo, acordei agramatical.

27/11/2014

Dar (mesmo sem receber)

De guarda ao telefone fixo

Estou desde de manhã de guarda ao telefone fixo. Desde que recebi um email que me alterava uma reserva para horas que não me convêm nada. Preciso, para descanso da minha alma, de saber se posso trocar o Porto por Lisboa. Do lado de quem me trocou as voltas só o atendedor de chamadas e a voz de senhora ausente se interessa por mim, repetindo por largos minutos que não há quem me queira falar em voz presente e que me decida: continuo esperando ou aguardo que me liguem. 

Estou, por isso, desde manhã cedo de guarda ao telefone fixo, à espera que uma voz que seja me confirme que, sim, troque o Porto pela capital, teremos muito gosto em lhe alterar o local de embarque.

Há pouco tocou o telefone - Identidade Oculta. Por norma não atendo identidades que não se mostram, contudo, quem espera sujeita-se:

-- Estou, sim? - perguntei esperançada.

Do lado de lá apenas um grito para alguém que não era eu:

-- Pagas-me um café?

Repeti a pergunta, sem esperança e sem o sim, só com o ponto de interrogação.

Desligaram. Do lado de lá do telefone bateram-me com a tecla vermelha no ouvido sem ao menos lamentar o engano. Melhor assim, não tinha vontade nenhuma de pagar o que quer que fosse a tal pessoa.

Olho para o relógio e suspiro. Só preciso de uma confirmação que não chega.

25/11/2014

Seguem-se os optantes compulsivos

Depois do «a propósito de» por dá cá aquela palha e dos colocadores compulsivos, os optantes militantes. Opta-se por um cachecol nos dias frios, opta-se por barrar a forma com manteiga, opta-se por tomar os comprimidos às horas certas. Opte, opte, opte... mas será que já ninguém escolhe, prefere, se decide por? Que nervos.

23/11/2014

Lar desencontrado




A casa encheu-se de visitantes inesperados. A família desencontrou-se no caminho do regresso ao lar.

20/11/2014

Fala-te ao ouvido e nasces tu

Maison Michel hats Fall/Winter 2011
Maison Michel hats Fall/Winter 2011


É só o amor desfeito,
Rosa sangue ao peito,
Lágrima que deito,
Sem voltar atrás.

18/11/2014

Falta a vírgula, Alvim!

A menos que É a vida Alvim seja uma nova espécie de vida. Se não for, o Alvim será um mero vocativo, logo, carecedor de vírgula antes da vida.




17/11/2014

Do presente antigo

Podes morrer, é certo, daqui a poucos dias;
ou ter morrido até neste preciso instante.
Apenas pela rádio, apenas por acaso hei-de saber
da tua morte.

Outras que tu amaste, só porque foi outrora,
já ganhando por isso um estatuto de dignas,
terão sido avisadas, entre lugares-comuns,
não só a tempo e horas, mas até por alguém
da tua família.

A mim me caberá a parte mais secreta, mais ingrata
de luto:
a de passar, anónima, à beira do teu esquife,
para mim lamentando que não seja uma gôndola;
a de ser simplesmente, e entre muitas outras,
a figura provável de alguma antiga aluna.

E só nesse momento sentirei a revolta
de ter sido tão tépida ou, pior, tão sensata
diante da loucura dos mais arrebatados
de teus projectos,
e não ter ensaiado, como dizes, a Fuga,
e não ter transplantado, com maior duração,
os dias de Veneza para outro hemisfério.

É certo: poderias ate ter morrido durante
o caminho, a viagem.
Ao menos, se assim fosse, eu estaria ao teu lado.



David Mourão-Ferreira (2007). Um Amor Feliz. Editorial Presença. pp. 278-279

14/11/2014

Correio sentimental

Há três anos, ouve o que te digo: sê forte e deixa o atrás para trás (das costas).

12/11/2014

Marco Polo, sê gentil

e leva-me para uma cidade invisível.

Zobaida, cidades invisíveis
Aquarela em papel 21x29.7 cm

11/11/2014

And it hurts beyond hurt

Kandi - One EskimO

Kandi
One EskimO

You've been my queen for longer than you know
My love for you has been
Every step I take, every day I live, everything I see

And if I get things wrong
Don't want you to think that I'm running away
But I heard from Jo about this guy and I want to know

What did he say?
He called me baby, baby, all night long
What did he do?
He called me baby, baby, all night long

Why? Why? Why did you need him? Where was I?
Just how close to you is he?
Every smile you gave, every touch you made, every word you said

And it hurts beyond hurt
It was a love that blinds and a love that stings
When I heard from Jo about this guy and I want to know

What did he say?
He called me baby, baby, all night long
What did he do?
He called me baby, baby, all night long

What did he say?
He called me baby, baby, all night long

Does my love ever touch you?
Does my love ever reach you?
It's never enough, ah, is it never enough?

He called me baby, baby, all night long
What did he do?
He called me baby, baby, all night long

What did he say?
He called me baby, baby, all night long
What did he do?
He called me baby, baby, all night long

I know he called you, baby, baby, all night long
I know he called you, baby, baby, all night long




A história de Kandi.

10/11/2014

Conclusão do dia

As conclusões a que se chega com o caminhar da idade podem encerrar em si dois estados de alma opostos. A de hoje dá primazia ao lado mais negro: sou pouco exigente com as pessoas. Quer isto dizer que sou incapaz de lhes pedir mais do que possam dar e elas, em vez de se quererem esforçar um bocadinho para me surpreender, encolhem os ombros e dão bem abaixo do que o que poderiam. 

Como criar filhos insuportáveis

Basta fazer como o senhor da marca dos telemóveis.



(fossem elas minhas filhas ou sobrinhas e tudo a que teriam direito individualmente seria um valente par de estalos! detesto fedelhos mimados e malcriados)

07/11/2014

Rima foleira em jeito de declaração de amor

Porque eu tenho um amigo
que de pequenino não tem nada
nem altura nem coração
nem a loucura alucinada.

Um amigo que hei-de encher
de chocolates e beijinhos
da chegada à despedida
serão muitos os abrações.




eu avisei que era foleira

Ligeiramente verde, mas não muito

deadendqueen:

by an-gray (deadendsoul)
An.Gray

Leio blogues. Leio muitos blogues. Ao fim de cinco anos, perdi o constrangimento de não seguir quem me seguia, por razões de cortesia, e passei a seleccionar realmente os blogues que me dão prazer ler, ver, ouvir, contemplar. Gosto, por isso, de blogues que me façam pensar, me divirtam com inteligência, que acrescentem ao meu dia alguma coisa de bom. Os que circulam à volta de actualizações constantes da vidinha como se fossem murais do facebook ou do twitter fazem-me comichão na palma das mãos - não discuto o valor, arrogo-me o direito de não os ler.

Tenho, no entanto, de ser honesta e admitir uma certa nota de inveja nas minhas leituras. Não uma inveja que chegue a ser verde forte, fica-se ali no meio tom entre o amarelado e o esverdeado, que eu também não sou dada a estados biliosos. E que invejo eu? A capacidade que alguns dos autores dos blogues que sigo têm em escrever textos longos, com reflexões sobre acontecimentos do seu dia, bem estruturados, com inteligência e graça, mais do que um por semana.

Não é que eu não reflicta ou que não escreva na minha cabeça tratados sobre as misérias do meu dia, faço-o. Aliás, uma das razões por que sou tão distraída reside nisto, na facilidade com que me ausento para a varanda da minha mente, onde gosto de pensar.

Qual é então o meu problema? A textualização, caríssimos, a textualização. Quando me sento para escrever as minhas conclusões, não sai nada, nem uma frase de jeito, nem uma graça, nem um raciocínio como manda a lei: com tese e antítese. Nada. Já pensei várias vezes que alguém devia inventar uma impressora que imprimisse directamente das ideias. Ah, caríssimos, se assim fosse, isto é que seria despejar pérolas de escrita elevada, para alimento literário dos famintos de boa escrita! Mas não, só parágrafos e poemetos. Tudo muito árido, como convém à manutenção da modéstia.

Mas admiro-vos. Palavra de honra que vos admiro.

06/11/2014

As melhores pessoas são as que vêm do fim do mundo, as que vêm de repente

Vieste do fim do mundo - Gisela João


Vieste do fim do mundo
num barco vagabundo
Vieste como quem
tinha que vir para contar
histórias e verdades
vontades e carinhos
promessas e mentiras de quem
de porto em porto amar se faz.

Vieste de repente
de olhar tão meigo e quente
bebeste a celebrar
a volta tua
tomaste'me em teus braços
em marinheiros laços
tocaste no meu corpo uma canção
que em vil magia me fez tua.

Subiste para o quarto
de andar tão mole e farto
de beijos e de rum
a noite ardeu
cobri-me em tatuagens
dissolvi-me em viagens
com pólvora e perdões tomaste
o meu navio que agora é teu.

Para alegrar o dia tristonho

Zulusa - Patrícia Bastos

04/11/2014

As putas II



às putas não foi dado o livre-arbítrio
nem a permissão para ter dores de cabeça

às putas exige-se disponibilidade constante
um sorriso nos lábios, luxúria permanente

porque as putas, meus senhores, as putas
comem e calam, às vezes levam, nem sempre
lhes pagam, porque às putas, caros senhores,
não foi dado o direito de pensar nem de sentir,
porque as putas, veneráveis senhores, são menos
que nada, servem para usar e deitar fora


parecendo que não, tem muito a ver com isto que decorre disto

02/11/2014

As putas

liquorandhighheels:

A big fishnet fan.


as putas não vão a jantares,
não se passeiam no braço dado
não posam para as fotografias
não se lhes sabe o nome

as putas procuram-se na calada do tempo
pelos intervalos das sombras
isto é, quando ninguém está a ver
digo, enquanto ninguém finge que não vê

as putas são o consolo da alma aflita
o alívio do corpo ardente
de pernas abertas e regaço disposto
para os momentos confessionais

da casa das putas sai-se pela calada
e volta-se ao aparato dos jantares
de família e dos bailes da aldeia
até ao dia em que o corpo urgir

porque as putas, meus senhores,
são só putas, não vão a jantares
não se passeiam no braço dado
não posam para as fotografias

as putas não têm nome

31/10/2014

Coração Pulmão e Estômago

Interior de uma rapariga apaixonada -- ou como só tu dás sentido à fisiologia do meu corpo.

30/10/2014

A julgar pelo tempo...




Poema à Primavera

Miguel Torga


Depois do Inverno,
morte figurada,
A primavera,
uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.

28/10/2014

Prurido ocasional

Sem motivo aparente, lembrei-me de ti e contei pelos dedos os meses que passaram desde que nos abandonaste. São já tantos.




Este céu passará

Ruy Belo

Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração


foto: minha, céu da Figueira

27/10/2014

Nem eu compreendo as mulheres

black-white-madness:

Madness:

Liu Wen by Mario Testino for Vogue China December 2013
Liu Wen by Mario Testino for Vogue China December 2013

A não gosta de B. Dir-se-ia com muita razão, sabendo o agravo que B fez a A. Entretanto passaram anos, não muitos, os suficientes para que os ânimos serenassem. Ora, B viveu um acontecimento particular que se tornou público e A, que se esperaria mantivesse o desdém compreensível, traduzido em afastamento superior, manifestou-se com uma não-manifestação, mostrando a meio mundo que o seu desdém não está assim tão vivo quanto se faria supor. Entretanto, B não sabe de nada e C, D, E, F e o resto do alfabeto, preferiram ignorar A, tornando a sua não-manifestação manifestada ainda mais ridícula. Eu, que já me esqueci que letra sou, suspiro de alívio por não ter FB e poder ignorar alegremente questiúnculas que só servem para mostrar quão feio é o ser humano.

Juro que a culpa não é minha

25/10/2014

Aprendi a gostar de cemitérios

O amor verdadeiro

[...]

Não acredito. Volta para casa.

Não volto, vamos fazer isto de uma forma civilizada.

Civilizada? Tu vais ver.

Ao fim de seis dias, sem qualquer hipótese, comecei a ver. Voltei para casa.
A minha mulher, em desespero, atentou contra a sua existência sem a elegância das boas famílias. A sua tia disse-me, com um sorriso desfeito, saía eu do quarto de hotel

Faz o que tens a fazer.

Nunca mais a vi.

[...]


Patrícia Reis (2009). Antes de ser feliz. Dom Quixote. pp. 51-52

24/10/2014

Felizmente passou



Hoje tive uma súbita vontade de reactivar a minha conta do Facebook. Foi uma vontade, foi súbita, foi um impulso, uma espécie de desejo, como se o sentido da vida se esbatesse na falta de mais um perfil virtual. Apliquei, por isso, a minha regra dos dez minutos: só publicar o que quer que seja se a vontade permanecer ao fim de dez minutos. A conta continua desactivada.


23/10/2014

Dá-se o caso

de ter a cabeça vazia de ideias, a inspiração seca de espanto, as mãos cansadas de segurar.
Só os olhos não se cansam de se fechar.


ttuzzz:

Amy Judd •see more ART
Amy Judd

22/10/2014

21/10/2014

Obrigada, Senhor

pelo sol que nos deste, pelos 36 graus que alegraram o dia e murcharam as flores. Pelo champanhe que correu solto, o bolo que sempre era de coco e limão, e o vinho branco, aquele vinho branco, que não largou o meu copo. Obrigada pela serenidade que me deste, e eu gastei toda, enquanto me informavam sobre o adiantado da minha idade e a minha posição na hierarquia fraternal. Obrigada também por me teres dado paciência e não força ou o chão teria tido bem mais do que o vermelho das pétalas a enfeitá-lo. E obrigada, Senhor, por me teres dado ossos tão resistentes, principalmente os dos pés.

Ámen

o J e a C

15/10/2014

Tem piedade, Senhor



Tem piedade, Senhor,

dos meus ombros desnudos e dos meus joelhos descobertos, que estremecem na antecipação do frio. Tem piedade dos meus sapatos, Senhor, os meus sapatos tão baratinhos e tão elegantes. E do meu vestido, aquele que me custou mais do que alguma vez pensei e hei-de usar até para ir ao supermercado e cortar a relva do jardim. Tem também piedade dos sapatos de cetim prata que a minha mãe comprou nos restos dos saldos e vão tão bem com o vestido azul da tradição, envolvido em tule, porque a ocasião não pede grande casacos. Tem piedade, meu Deus, do meu cabelo, que pela primeira vez se vai compor em mãos profissionais, para não desfazer nas fotografias, e gosta tanto do tempo chuvoso para se rebelar. E tem piedade dos vestidos a varrer o chão, dos pés descobertos em sandálias, das mães que levam filhos pequenos, dos sapatos do rapaz e do véu da rapariga e dá-nos um Domingo radiante de Verão.

Ámen.

Natureza humana

We lost faith in the arms of love

14/10/2014

I wasn't listening

I forget where we were - Ben Howard

Oh, hey,
I wasn't listening
I was watching Syria blinded by the sunshine strip
You, you were in the kitchen
Oh, your mariner’s mouth the wounded with the wounder's whip

And that's how summer passed oh,
The great divide and range of green green grass
Oh, maybe it was peace at last, who knew

Hello love, my invincible friend
Hello love, the thistle and the burr
Hello love, for you I have so many words
But I, I forget where we were

Oh, hey,
I wasn't listening,
I was stung by all of us, the blind leading out the bored
And as per usual,
You were skipping and laughing eyes at the bedroom door

Don't take it so seriously, no
Only time is ours, the rest we'll just wait and see
Maybe you're right, babe, maybe

Oh, no, and that's how summer passed
Oh, your, great divide and range of green green grass
And, oh, maybe I hold on fast to you

Hello love, my invincible friend
Hello love, the thistle and the burr
Hello love, for you I have so many words
But I, I forget where we were

I, I forget where we were
I forget where we were
I forget where we were,

Oh, no, and that's how summer passed
Oh, your, great divide
And range of green green grass
Oh, maybe it was peace at last, who knew

13/10/2014

Caída aos pés

Invento razões para acalmar o meu coração. Justifico o injustificável, para abafar o bicho-monstro que me sussurra premonições ao ouvido. Adormeço, tapando-me com camadas de vontades que não chegaram a ser verdade. Acordo com a alma estilhaçada, caída aos pés.

09/10/2014

Já ninguém põe??

O desgraçado do verbo pôr foi banido da gramática nacional. Agora toda a gente coloca, ninguém quer pôr, porque alguém se lembro que «quem põe são as galinhas». E como ninguém quer estar fora de moda, há que colocar até o que se põe.

Não tarda, daremos beijos apaixonados ao colocar-do-sol e as crianças aprenderão onde é que as pitinhas colocam o ovo. Quando nos quisermos ir embora, basta colocar-nos a andar ou colocar-nos nas putas -- que é para onde apetece mandar os colocadores compulsivos.

08/10/2014

Dúvidas

Não sei se pese o tempo com a medida do açúcar ou da farinha.


06/10/2014

Pronta para caminhar até ao apeadeiro mais próximo

"Elie Saab Haute Couture"
Daniela De Jesus by Benjamin Kanarek for Elle Vietnam, October 2014

05/10/2014

P.S.: Manel Cruz, acho que te amo!

Acho que sofro de paixão platónica pelo Manel Cruz. Seja na versão Ornatos, Pluto, Foge Foge Bandido, Super Nada, em parcerias, este homem canta-me a vida num despudor tal, que até me dá vergonha. Não me lembro de uma música que não goste.

Obrigada, Charmoso, pela música com que nos recebes, esta ainda não conhecia.



BARRAKO 27 - OUVI DIZER C/ MANEL CRUZ & DJ GUZE






As minhas saudades tuas - Foge Foge Bandido

04/10/2014

Isto é só um convite



Convite
Pluto


Sim, não falo só por mim, eu quero-te a provar do que é teu
Agora, sim, eu falava do que eu sinto
É por força do desejo ser eu
Por força do que é meu, és tudo o que eu vejo

Ontem, tudo o que eu queria era subir ao teu corpo
Eu passei no teu medo e esqueci o teu ego
És tudo o que eu vejo
Ontem, tudo o que eu queria era subir ao teu ego
Eu passei no teu medo e esqueci o teu corpo
És tudo o que eu vejo

De repente o assunto é assunto
E tu mergulhas bem fundo, fugindo do amor
Cá estarei no fim dessa espera até ao tempo do que era
E não volta a ser

Sim, não falo só por mim eu quero-te a provar do que é teu
Agora sim eu falava do que eu sinto
É por força do desejo ser eu
Por força do que é teu és tudo o que eu vejo

Agora desisto
sempre que eu insisto
eu esqueço que existo
Isto é só um convite



Pluto (2004). "Convite" in Bom Dia.

02/10/2014

Descobrimo-nos nos lugares mais insuspeitos

Houvesse a versão morena e era basicamente isto.

How about we change the "hot girl" image from being a starved 12 year old to what women are actually shaped like. Thats just my opinion.

Mistérios

Sempre foi para mim um mistério de difícil resolução como algumas entradas do blogue, sem particular interesse, são campeãs de visitas, partilhas e comentários, e outras, que me levaram a alma ao serem escritas, desaparecem ignoradas entre as primeiras.

01/10/2014

As estrelas que paguem a conta

Finalmente vi A culpa é das estrelas. Asseguraram-me homens feitos e rapazes pouco impressionáveis que era de chorar do princípio ao fim, mas de chorar mesmo, daquele tipo de chorar que encharca lenços, que pede ajuda à fralda da camisa, que deixa os olhos e o nariz numa lástima, que até dá dores de cabeça.

Este é um chorar que conheço bem, passámos umas temporadas juntos, dias e noites inteiras, incluindo refeições e momentos de lazer. De vez em quando, ainda volta, diz que vem matar saudades - nunca viu uns olhos castanhos ficarem tão líquidos, quase transparentes, como os meus, sempre que me visita.

Foi preparada para tudo que o vi. De peito aberto e lenço por perto. E chorei, chorei muito, nas partes erradas do filme e também nas certas. Não porque a história não me comovesse, não que as personagens não fossem tão deliciosamente normais que quase nos esquecêssemos que é um filme, mas porque perder pessoas dói. 

Perder pessoas que amamos é uma violência para a qual nunca estamos preparados. Quer elas vão de repente, quer saibamos que têm de ir; quer morram, quer apenas se mudem, dói. De zero a dez, muitas vezes são um onze - e isto foi o que realmente me fez chorar nas partes certas do filme e nas erradas também.

29/09/2014

Não há coincidências?

Ello, a rede social anti-Facebook sem anúncios

Independente, livre de anúncios e acessível apenas por convite. É assim que se apresenta o Ello, uma rede social que começou por ser privada mas que, com o crescente número de pedidos de acesso, acabou por tornar-se pública — mas com entrada controlada. Criada por sete artistas e programadores, é já conhecida como a rede social anti-Facebook.



Em todo o caso, estou tentada a experimentar.





(o logótipo parece-me o lado negro da EDP, mas não digam a ninguém)

Guerra fria cibernética

Já não bastava ter os Americanos a vigiarem-me o blogue à palavra, agora são os Russos que não me largam o url. Lamento informar mas aqui não há agentes secretos, nem espiões, nem gajas boas em biquíni, só uma rapariga simples.

27/09/2014

Agradeço ao Anónimo

esta música que me deu. Foi-me deixada num comentário a uma entrada de blogue. Do autor Anónimo desconheço a identidade, ou então desconfio, ou então sei mesmo. De qualquer das formas, se o Anónimo assim desejar, o Formulário de Contacto está disponível e garante total confidencialidade.

Da minha caixa de comentários, para o vosso mundo virtual:

Magic - Coldplay

26/09/2014

Natureza humana

A gente sabe que aconteceu. Acontece sempre da mesma forma: quando as palavras escasseiam.
Depois a gente espera.
Depois nada mais acontece.

25/09/2014

Agarrem que é ladrão!

Estou muito triste. A mim ninguém rouba nada, nem leva «emprestadado» o que escrevo, só uma vez me roubaram o rádio do carro, mas não conta.




(o josé luís costuma levar-me poemas, mas também não conta. é que isso nem é roubo, é mais desvario da parte dele ;)

24/09/2014

Natureza humana

O terreno propício à elevação do espírito pode ser um baldio. É dos nutrientes, dizem, apuram com a falta de cultivo.

23/09/2014

E inventaram o amor com carácter de urgência

Bettina Lewin

A invenção do amor
Daniel Filipe

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos
           autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de
           rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
           esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio   A descoberta   A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor sùbitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou   A TV anuncia
iminente a captura   A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada
           para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos   Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o   Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
          inexplicàvelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
          razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo   Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros.  É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença

E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de
          discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam ao temor
         do castigo

Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da
         correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher
         amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável
             descobri-los

[...]

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

[...]

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando as esquinas


poema completo
declamação do poema pelo poeta

22/09/2014

As telecomunicações entre os dois lados do rio foram suspensas até nova ordem

Diz-me a razão que os que passam o Aqueronte não acedem a contas de email ou a endereços de blogues dos que ficaram do lado de cá. Diz-me essa mesma razão que serão outros, necessariamente vivos, que o fazem. A razão diz-me, mas de todas as vezes há um fio de uma esperança louca que teima em prender-me ao absurdo. Cérbero roeu os cabos de fibra óptica -- esta é a inalterável certeza.

21/09/2014

Os Domingos à tarde


Josef Breitenbach, nu, 1950s
Josef Breitenbach, nu, 1950s

Os Domingos à tarde são dias proibidos à contemplação sentimental. Tudo isto a bem da paz de espírito, muitas vezes podre, ainda assim paz. É aos Domingos à tarde que tudo faz mais falta e as distâncias são maiores e os abismos mais fundos e a alma mingua até que o que vale a pena seja quase nada. Aos Domingos devia proibir-se a tarde. Aos Domingos só se devia permitir um salto largo entre o fim da manhã e a noite avançada. A bem da paz de espírito, por muito podre que esteja.

19/09/2014

Retalhos da vida doméstica

podia ser este, o meu orçamento é que não está pelos ajustes

(ao telefone)

-- Olha, estive a pensar na vida.
-- Ai, sim?
-- Sim. Na vida, isto é, na minha vida. E na tua também.
-- Humm... e a que conclusão chegaste?
-- Quero que sejas minha madrinha.

(silêncio)

-- Já tinha pensado no assunto, depois não disse nada, mas gostava.
-- Caramba, puto, só tu para me pregares sustos destes!
-- 'Tão? Aceitas?
-- Claro, parvo!
-- Eh, eh! Assim já levo madrinha, para além de dois padrinhos.
-- Ai a minha vida! Já não bastava ter de arranjar um vestido de irmã, agora tenho de arranjar um de madrinha...


18/09/2014

A chuva insiste em musicar o dia

autor desconhecido

A chuva insiste em musicar o dia. Um correr constante contra as pedras e as vidraças, a melodia do Outono que se anuncia em gotas a que já se perdeu a conta. Os quartos de pêra descansam em frascos e o cheiro a doce aninhou-se nos cantos da casa e nos cabelos das mulheres que seguraram colheres de pau e os rodaram sem esforço em panelas antigas. O sossego apoderou-se da casa, dos gatos, da pequena estufa onde alfaces suspiram pela chuva e pequenos tomates vermelham por entre a folhagem. São como um gotejar constante as lembranças que trazem arrepios à pele de uma mulher entretida a dispor frascos de compota como quem arruma o coração.

Curso Rápido de Gramática

Tomemos com exemplo filho da puta, nos seguintes contextos:


1) "Conheci um político filho da puta."- complemento do nome;

2) "O político é um filho da puta." - predicativo do sujeito;

3) "Esse filho da puta é um político." - sujeito.

4) "Agora nega o roubo, filho da puta!" - vocativo.

5) "O ex-ministro, (escolha o nome que lhe interessar), aquele filho da puta, desviou o dinheiro dos submarinos." - é aposto.

Agora vem o mais importante:
6) "Saiu da presidência em janeiro e ainda se considera presidente." - o filho da puta é sujeito subentendido.


Ou então consultem o Dicionário Terminológico em linha.

15/09/2014

Ah, se eu pudesse!


O mundo vive bem sem ser informado ao pormenor das minhas actividades diárias. O mundo real e o virtual, está bem de ver, que entre ambos não dista assim tanta diferença como a que nos querem convencer. À medida que luto com o shift, a tecla A e o acento grave, chego à nobre conclusão de que qualquer dos mundos até agradece que guarde recato sobre o que faço da minha vidinha. 


E eis-nos chegados ao recato, esse substantivo singular, que o dicionário não me diz de onde vem mas é bastante explícito no seu significado: 1. Resguardo; segredo. 2. Prudência. 3. Lugar escondido. 4. Honestidade, pejo, modéstia.

Aconselha-me, por isso, a prudência que guarde segredo das minudências dos meus dias. Para ser honesta, melhor é que as mantenha resguardadas, digo, num lugar escondido, e nem é bem por modéstia, é mesmo por pejo de dar a conhecer tal volume de insignificâncias.

Só por isto não vos faço saber que vou experimentar fazer compota de pêra. Não fora o recato, caríssimos, e escarrapacharia tudo aqui, com reportagem fotográfica e tudo. Assim não podendo ser, guardo silêncio.

10/09/2014

as mentiras que te conto são mentiras em que não te minto

Correspondência - Ermo


Todas estas palavras más serão palavras de dor
Que quem se maltrata, se maltrata por amor
Perdoa-me esta vã, triste dialética
Mas o meu coração não me cabe nesta métrica

Chegasse a força humana para descrever o que eu sinto
Que as mentiras que te conto são mentiras em que não te minto
Que te importa o meu amor? Eu sou só mais um pretendente
Que canta a pretensão que toda a gente sente

Toda a gente sente, incorrespondente.

Todas estas palavras más só descrevem o que eu sinto
Te maltratam por amor as mentiras em que não te minto
Perdoa este vão triste pretendente
Que o meu coração só sabe o que sente

Só sabe o que sente, incorrespondente. 
Toda a gente sente, incorrespondente.

Descoberto ali na página da Antena 3.

Sobre a morte deve guardar-se silêncio

Há certas mortes das quais não falo, pela simples razão de já ter dito tudo o que sentia sobre elas. Na escala de medição da perda, há os que a sentem no limite e um pouco mais além. Esses são aqueles a quem certas morte pesarão como chumbo, mesmo quando a maioria já se tiver esquecido de quem morreu.

08/09/2014

Eu pleonasmito, tu pleonasmitas, todos pleonasmitamos

A “pleonasmite” é uma doença congénita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos. Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.

O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.


Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: “Subir para cima”“descer para baixo”“entrar para dentro” e “sair para fora”.

Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.

Vai dizer-me que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos “pequenos detalhes”? E que nunca partiu uma laranja em “metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?

Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais” para lhe dar este “aviso prévio”de que esta “doença má” atinge “todos sem excepção”.

O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em “cidades do mundo”. No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um “acabamento final” naquele projeto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara metade, diga lá que às vezes não tem vontade de “gritar alto”: “Cala a boca!”?

O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que “estreia pela primeira vez” em Portugal.

E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus.

Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a pleonasmite em direto no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque. Um “governante” dirá que gere bem o “erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um “consenso geral” para sairmos juntos desta crise.

E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma “multidão de pessoas”?

Ao contrário de outras doenças, a pleonasmite não causa “dores desconfortáveis” nem “hemorragias de sangue”. E por isso podemos “viver a vida” com um “sorriso nos lábios”. Porque um Angolano a pleonasmar, está nas suas sete quintas. Ou, em termos mais técnicos, no seu “habitat natural”.

Mas, como lhe disse no início, o descontrolo da pleonasmite pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades. Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada. E “já agora” siga o meu conselho: não “adie para depois” e comece ainda hoje a “encarar de frente” a pleonasmite!

Ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso estar só “maluco da cabeça”.


Autor desconhecido em.

05/09/2014

A minha vida dava uma banda sonora #23

A diferença maior entre um amor e uma paixão é a permanência e o detalhe. Um amor faz-nos companhia por mais tempo, mesmo morto, e deixa-nos mais memórias pormenorizadas de cheiros, sabores, gestos, palavras, o que for. Não é uma qualquer paixão que os substitui, alguns podem nem chegar a sê-lo.

Comfortable – John Mayer

I can't remember what went wrong last september
Though I'm sure you'd remind me if you had to

01/09/2014

Arruinaste o meu prazer pela leitura.



Arruinaste o meu prazer pela leitura.

Depois de ti não houve mais livros. Não houve mais configurações das personagens masculinas, não houve mais inflexões de voz adivinhadas ou gestos imaginados. Todos -- qualquer que seja o seu nome, a compleição, a cidade onde vive, a língua que fale -- são tu. És tu que persegues os maus, salvas as donzelas, cavalgas na terra dos índios, passeias de bengala pelas capitais, és capitão de exércitos, mestre de barcos, astronauta destemido. Pertencem-te todos os dilemas, todas as depressões, as ousadias e as cobardias. São sempre os teus olhos, as tuas mãos, o teu encolher de ombros, o teu rir.

A cada página virada, a cada avanço na narração, somos nós que viramos dias, saltamos para a frente, por cima dos excedentes literários e das descrições enfadonhas. São nossos todos os diálogos, somos nós que nos enganamos, nos complicamos, nos descompreendemos; como são nossas as piadas, as despedidas, as discussões, as chegadas. És tu a arrastares-me para a ficção e eu a ir sem resistência.

Arruinaste o meu prazer pela leitura. Depois de ti não houve mais livros.