30/11/2013

Cartas para o meu futuro - 2

Caro Futuro,

Não sei quando lerás estas cartas, fiz um cálculo mental de trinta anos, o suficiente para que sejas já uma reformada enxuta, ainda com a cabeça cheia de projectos megalómanos e uma considerável dose de inocência. É, talvez, um cálculo a pecar por defeito – se te quiser apanhar no estado da reforma, é melhor que aponte para daqui a quarenta anos. Se não for mais.

Independentemente da altura em que leias isto, é importante que conserves uma das poucas certezas que me posso gabar de ter alcançado: do passado não guardo mágoas.

Às vezes, encontro bocadinhos do passado por aí, fiapinhos digitais que vão ficando presos nos espinheiros virtuais em que circulamos. É inevitável, por onde passamos deixamos um rasto e, se alguém tiver paciência que chegue, todos os nossos passos podem ser refeitos.

Confesso que já os procurei, fui eu mesma à procura das pegadas marcadas no chão que certos passos costumavam pisar; na maioria das vezes, acho-os, como fósseis solidificados, pequenas reminiscências à espera de ser encontradas. Ultimamente, parece que não faço mais do que tropeçar neles.

Sinto, então, uma ternura muito grande, uma saudade incompleta, uma exclamação: «olha, o meu passado!». Fico assim algum tempo, perdida nas coisas boas, que as há sempre, sem esquecer as menos boas, que também abundaram.

Não que queira voltar àquele tempo, àquelas pessoas – não quero – só não posso ignorar que hoje sou o somatório de tudo o que vivi, que foram aqueles tempos e aquelas pessoas que me moldaram neste mulher que escreve.

Peço-te, por isso, que sejas sempre delicada com a lembrança do que deixaste para trás, que te lembres de todos e os guardes com ternura, e te lembres de mim como alguém a quem falta percorrer trinta ou quarenta anos para ser como tu.


Do passado não guardo mágoa. Nunca te esqueças. 

Sábado preguiçoso

Nem por isso.
Onde é que anda a minha lista de tarefas?


29/11/2013

Rituais pré-escrita

Se eu perguntasse quais os vossos rituais antes de começarem uma tarefa, éramos capazes de ter aqui assunto para umas conversas engraçadas. Mesmo que não pensemos muito nisso, acredito que todos temos umas quantas manias ou rituais pré-tarefas. Os escritores são conhecidos por terem muitas e estranhas, as estrelas da música não lhes ficam atrás.

Eu, que não sou nem escritora, nem cantora, assumo que tenho os meus tiques, sempre que abro uma folha no Word, para começar a escrever: ter o espaço arrumado, principalmente a mesa de trabalho; estar eu mesma arrumada; uma manta e uma garrafa de água; os óculos e música. Não uma música qualquer, mas duas músicas em particular. 

Qualquer que seja o tom do texto ou a finalidade dele, tenho comprovado vez após vez que flui com maior naturalidade se estiver a ouvir «Dream is Destiny», mais do qualquer outra, e «I Don't Think About You Anymore But, I Don't Think About You Anyless», de preferência com os auscultadores. Acompanha-as uma carga emocional acima da média e estão ligadas a alguns dos textos mais difíceis de escrever, mas são sempre a escolha primeira.

Manias!


Dream is Destiny  - No Clear Mind


I Don't Think About You Anymore But, I Don't Think About You Anyless - Hungry Ghosts

28/11/2013

The Pirate's Gospel

Aproximam-se dias difíceis, parece-me. Está na altura da tripulação se juntar e cantar (alguém que procure o Álvaro, que desta ele não se safa) -- pode ser que assim evitemos males maiores.

Alela Diane - The Pirate's Gospel

We're gonna sing
The pirate's gospel
We're gonna chant
The pirate's gospel
You'll find us clap
The pirate's gospel

Yo ho yo ho
Yo ho ho
Yo ho yo ho ho
Yo ho yo ho
Sing the pirate's gospel
Sing the pirate's gospel 

27/11/2013

Dias assim

Está frio. Na rua sopra uma aragem cortante que me faz cerrar os olhos e me maltrata as bochechas. São sensíveis as minhas bochechas, pouco menos sensíveis que o meu coração, muito mais sensíveis que as mãos que se escondem nos bolsos, à procura de uma brasa quente. Está frio. Evidência redundante, olhando o calendário que me diz que Novembro exala os últimos suspiros, em pequenas baforadas de calor que evaporam ao ar. As frentes frias varrem as extensões que ousam atravessar-se no seu caminho, querem deixá-las para trás das costas, como seres mínimos, congelados na rotina de cigarras pouco precavidas. O chão está escorregadio, é preciso cuidado para não escorregar – o chão oferece pouco conforto em dias assim, ainda que seja o único capaz de verdadeiramente nos amparar nas quedas. Os casacos não travam a extinção do calor, o afastamento do ardor do corpo; enrolo fios de lã entrançados, no pescoço, subo a gola e resisto.


Está frio. Ainda assim, há um pensamento insistente que me aquece, como o crepitar recorrente da lareira, como uma manta quente, o chá a ferver. Esse pensamento leva-me a dias menos frios, a lugares menos expostos, a horas mais tardias, a um consolo da alma. Viajo à boleia da memória e sorrio, enquanto caminho – é um vício que tenho e espanta quem passa por mim, vejo-lhes os olhares agudos e sorrio ainda mais. É um desejo de multiplicação desse momento que me repassa os ossos: a aproximação tímida, um certo medo, uma ousadia, a prisão dos braços, o descanso das bocas. 

26/11/2013

Correspondência íntima - XIV

Sempre foste ótima nessa arte de dissimular o que te vai na canalização emocional. Junte-se a isso a minha eterna dislexia no que diz respeito à leitura de emoções alheias e percebe-se facilmente porque é que não acerto uma. ;)


Qualquer epístola que contenha a expressão «canalização emocional» tem, por força, de ser dada à estampa.

O calçado português

ganha prémios, é do mais caro do mundo e escolhido pela Rihanna, mas nem assim consegue fazer meia dúzia de pares acima do 41. Bem que eu gostava de saber onde é que desencantam os sapatos de salto que vejo os homens calçar em produções de moda, cinema ou teatro. E não me venham dizer que os homens calçam números pequenos - aquilo tem de vir de algum lado. 

25/11/2013

Quem isto ouvir e contar, em pedra se há-de tornar

Quem isto ouvir e contar, em pedra se há-de tornar.


http://www.eumof.unic.ac.cy

24/11/2013

22/11/2013

Cartas para o meu futuro - 1

Caro Futuro,

li algures que conversar consigo mesmo é um sinal de loucura em fase inicial. Também tenho a impressão de que é vício dos professores falarem sozinhos, em monólogos, que dificilmente chegam a ser diálogos, com a consciência. Agora que penso nisto, tenho a vaga ideia de alguém mo ter dito. Se li, se mo disseram, não tem relevância alguma, a questão principal é que falamos em voz alta connosco mesmos e isso pode não ser lá muito saudável – por via das dúvidas, decidi escrever-me.

Bons parceiros de diálogo são tão difíceis de encontrar como uma casa com acabamentos de topo, vistas fantásticas, no melhor sítio da cidade e a um preço para amigos – a menos que se tenha um amigo empreiteiro, e mesmo assim é de desconfiar, «não há almoços grátis» – e eu, confesso, tenho fases de grande cansaço em que não me apetece ter de explicar mais uma vez por que razão tenho a mania das organizações, medos que só a custo confesso e os motivos por que fui deixando de existir em tantos contextos. Pode ser só preguiça minha.

Seja lá por que for, conto por metade dos dedos de uma mão o número de pessoas com quem realmente converso… aqui num parêntesis, estou mesmo a ver à minha frente uns quantos pares de sobrolhos franzidos a pensar «se não falas, é porque não queres» e tenho de lhes dar razão…

É inquietante a consciência da galopante solidão acompanhada em que estou a mergulhar. Não de repente, antes como se de areias movediças se tratasse. São as pequenas indiferenças, as pequenas desconsiderações, os pequenos esquecimentos, os pequenos fingimentos, tudo muito subtil, muito inocente, muito na famigerada maldade de quem interpreta as coisas mal.

Li certa vez que um cônjuge não deve encarar o casamento como uma relação parental em que o outro é uma espécie de filho que tem de educar e orientar, sob pena de o cônjuge-filho vir a sofrer daquilo que todos os filhos sofrem – o desejo de fugir dos seus pais. Devo ter sido uma espécie de mãe para muita gente, é natural que ao atingirem a maioridade emocional queiram ir correr mundo, ver a vida, pintar a cana verde, fazer trinta por uma linha, tudo menos perderem tempo com a «progenitora».

Este intróito tinha um sentido… devia ser o de justificar o título – tem sempre de se justificar o título, não é?, «em que medida o título aponta para o sentido geral da obra?» –,  já que não posso chamar a isto tão só Ideias verdes em folhas rosa choque, o que é uma pena! Uma lastimável pena.


Posto isto, funcionarão estas cartas como reflexões avulso do eu que sou hoje, dirigidas ao eu que serei num dia qualquer do futuro, que espero seja longo. No fundo, são criancices pseudo-literárias, não vejo já grande margem de progressão para a minha personalidade. A menos que me torne um pouco mais calada, um pouco menos interessada, um mais ou menos descaracterizada.

21/11/2013

R.I.P, Rimas Imperfeitas

Há dias em que acordamos e tomamos decisões que nem sabíamos querer tomar. Foi isso mesmo que aconteceu hoje, embora a ideia já andasse a rondar há muito: as Rimas Imperfeitas despediram-se da blogosfera e foram substituídas pelos Cais das Letras.
Salvo o nome e o cabeçalho, mantém-se tudo igual -- dos poemas às imagens, passando necessariamente pelos melhores leitores do mundo que me dão a enorme honra de me ler e comentar.
A ver vamos como corre a viagem.

Caro dente do siso

Se vieste trazer-me o juízo, chegaste irremediavelmente atrasado.

20/11/2013

São os implícitos, senhoras, são os implícitos

http://badengagementphotos.tumblr.com

À boleia de um post do João Miguel Tavares, estou há uma boa meia-hora a ver fotos de noivado. Todas terríveis, assim é suposto. No meio de todo o kitsch e saloiice, há um tema que me tem feito pensar. 

Pode parecer muito cómica, até tragicómica, a mensagem da imagem (bela cacofonia) que vos deixo. Para mim, não é e pode dizer muito da forma como se encaram relações e principalmente casamentos. 

«Ele roubou-me o coração e eu roubei-lhe o apelido»? A sério que é esta ideia deslavada que querem passar?, que tudo se resume a uma mudança do estado civil e um acrescento aos apelidos? Será que as alminhas femininas não alcançam o cinismo da afirmação? É que o sexo forte e tradicionalmente bruto até assume uma dose de romantismo apreciável - podiam tê-las deixado roubar a pureza, as pratas da mãe, os brincos da avó, mas não, deixaram-nas roubar-lhes o coração. Já elas estão mais interessadas em roubar-lhes o estatuto social.

Talvez seja assim que as relações se processem e até explique muito coisa, como o meu inalterável estado civil.


19/11/2013

A imensurável medida das coisas

Quanto mede um palmo? Quanto mede a distância daqui para aí? Quanto mede a felicidade? E o amor? Talvez nada disto se meça, talvez só algumas coisas se meçam. Será ao peso? Em medidas pré-estabelecidas ou a granel? Como se quantificam as coisas que realmente importam? E por que há-de ser tão necessário saber valores exactos? O pai e a mãe pesaram o mesmo na balança dos afectos? Porquê a necessidade nauseante de saber de qual se gosta mais?

Qual o volume do coração? E do medo? Vale mais uma dúvida ou uma esperança? De que são feitas as certezas – e por que não podem ser feitas de nuvens e algodão? Como se pesa a saudade? E as cerejas? A balança velha da avó perdeu alguns pesos e a cor vermelha, tem agora muitas lascas e muitos quilos de cerejas pesados. Algumas maçãs. E muitas dores na alma.

Como se aproxima o norte do sul? E as duas margens do rio? Porque é que do perto é tão fácil fazer longe e o contrário custa mais? Como se cose um botão? E quais os melhores fios, para tecer uma teia durante vinte anos? E por que não montou Ulisses o cavalo, para chegar mais depressa a Ítaca? Porque é que o tempo passa depressa quando estamos bem e o amanhã nunca mais chega, quando estamos com pressa?


Por que razão as noites são tão tristes e os dias tão faltos de presença? Por que razão, as perguntas não acabam e as respostas nunca são suficientes?

Acordar com um gato

é coisa para deixar ambos bastante contentes.


18/11/2013

17/11/2013

Palhaços!

E não é sequer um elogio insulto.



Com os animais habituais
Tem outros tais, bem especiais
São lobos, cobras, lagartos
Palhaços ricos e fartos
Artistas nas faces das revistas
De pés pró ar e vice-versa
Ilusionistas bem malabaristas
Balões de ar e de conversa

15/11/2013

Eles comem tudo

Vampiros - Nicolas Jaar e Gisela João - Lux (Lisboa)

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada 

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Zeca Afonso

Esta noite morri muitas vezes

Segredo


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma,
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de Fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome -- essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral, em Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Coord. Pedro Mexia

14/11/2013

Natureza humana

As mulheres em particular são engenho de multiplicar homens, são todas feitas de bívios as mulheres, artistas de povoar mesmo sem prenhez, basta-lhes falar ou ser, no resto pensam eles: falo-lhe ou não lhe falo? Beijo-a ou não beijo? São irremediáveis e estúpidos os homens, se se aguentam na vida é mais por privilégios de género do que por competência, os homens são idiotas carregados de sementes.



As mulheres belas podem ser becos e as feias também. Ruas estreitas onde enfiar sob o risco de não sair nunca, porque as mulheres não se acabam. Todas as mulheres são autoras discretas, responsáveis por maridos, filhos, amigos e solitários.

Nuno Camarneiro, No meu peito não cabem pássaros, p. 179 e 180

13/11/2013

Belzebu anda à solta na aldeia. Outra vez.

12/11/2013

Percorrer a avenida entre o relógio e a rotunda dos pescadores exige um esforço da memória superior ao esforço do corpo, para fazer corresponder todos os espaços vazios às lojas que os ocuparam.

11/11/2013

Piratarias à socapa

À revelia da capitã do navio, da última vez que lançámos âncora, fiz umas investigações por contra própria. Receio que a tripulação escolhida não seja tão vil quanto os currículos e as cartas de recomendação fariam supor. Por isso, quando o rum tinha já tomado conta da cabeça e da vontade dos meus companheiros, aventurei-me pelos becos escuros das docas.

A animação inicial deu lugar a um estado de irritação que aumentava consideravelmente. As minhas investigações apenas me tinham feito encharcar a roupa, uns trapos a que meti a mão numa das vezes que nos aproximámos de terra o suficiente. Não me agradava a situação, para mais depois da barrela a que a capitã nos tinha forçado, por ter assumido que a sua condição de líder valia, por si só, para nos usurpar a piscina e enegrecer por fora, num tom que desconfio aquém do tom com que estamos pintados por dentro.

Nem ouro, nem um diamante sequer, quanto mais um zircão, nem um vestido novo, muito menos umas botas menos gastas, vislumbrei. Naquelas docas escuras e húmidas, só se encontravam barris, cordas velhas, pedaços de pau e, claro, o perfume do peixe e dos homens que não se lavam há muito tempo.

Foi então que o vi, encostado a uma parede, fumando um relaxado cigarro, enquanto teclava no ecrã do telemóvel de última geração – confesso que fiquei surpreendida por ver um pirata tão conhecedor da tecnologia de ponta, mas depois lembrei-me do tablet que escondo de todos, debaixo da almofada, para ir actualizando o perfil do facebook e o mapa dos lugares visitados, e considerei que era grande hipocrisia o meu espanto. De qualquer das formas, aquele pirata parecia-me um espécime superior quando comparado com os decadentes, feios, porcos e maus com quem viajava.

Não sei se por excesso de literatura, se por uma excitação fora de série, abordei o estranho, num passo de mulher fatal, retirando-lhe o cigarro e aspirando profundamente. Teria resultado, não fosse eu ser uma não-fumadora, logo, inábil no jeito a dar ao cigarro e ao fumo que me intoxicava os pulmões. O que se passou a seguir não foi propriamente bonito, nem creio que faça parte dos livros de pirataria, mas o ataque de tosse que me atingiu, quase resultou na minha morte – destino ingrato para quem deixou o trabalho que não tinha e a existência parda, para conquistar os mares e ser má. O pirata usurpado do seu cigarro estaria, talvez, habituado a abordagens do género, tendo prontamente iniciado uma reanimação boca-a-boca que, como seria de esperar – visto que um homem é sempre um homem, com a agravante de este ser corsário – levou a coisas que a decência me impede de mencionar.

- Vem comigo para o barco – pedi-lhe, em loucura apaixonada.
- Não posso!
- Não sejas cruel – pestanejei com tímida mágoa, a ver se o quebrava na vontade férrea.
- Sou um pirata, é da minha natureza ser cruel.
- És tudo o que precisamos lá no barco. Que eu preciso!
- Não vou. Agora, não, que joga o Benfica.

E assim me deixou, nas docas escuras e a feder a peixe podre e rum de má qualidade, afastando-se em passo certo, cigarro no canto da boca, em direcção ao café, com a Benfica TV.

Por mil cobras e lagartos!, aquilo não ficaria assim. Com toda a violência do despeito, procurei o barco daquele pirata. «Hás-de pagar-mas, pirata!», murmurei, enquanto tentava decifrar pelo cheiro do cigarro qual seria o barco certo. Com mil diabos, os barcos cheiravam todos ao mesmo – mal, muito mal –, daí que tenha acabado por perguntar ao guarda-nocturno. O homem foi gentil, ou então era o meu decote que lhe despertava sentimentos gentis, e lá me disse qual era a embarcação.


Com uma gargalhada maligna, soltei as amarras do barco e naveguei-o, cortando ondas, velas içadas, iluminada pelo luar, até aos meus companheiros. Não sei como vou explicar onde o desencantei, mas como piratas que todos somos, admitir que o roubei deve chegar como justificação.


Agora, só falta encontrar um forte onde descansar. Os meus ossos precisam urgentemente de uma cama fofa e eu preciso de um banho de espuma.





P.S.: Todas as fotos são minhas e foram tiradas propositadamente para ilustrar o Projecto de Pirataria. :D

10/11/2013

A minha vida dava uma banda sonora #16

É necessária uma certa maturidade que vem com a ainda mais necessária passagem do tempo, para que algumas músicas façam sentido e outras deixem de o fazer. É a flutuação na hierarquia musical que lança para o fundo da tabela as que foram líderes indiscutíveis e traz para o pódio as que, por muito tempo, estiveram abaixo da linha de água.



Ouço uma voz ao fundo
Que me jura existir
Mais que um amor no mundo

09/11/2013

A cabra solitária


Autor David Freitas
Data Fotografia 1950 - 1960
Legenda Pastor e cabra
Cota DFT7905 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME @

LA CAPRA

Ho parlato a una capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d'erba, bagnata
dalla pioggia, belava.

Quell'uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno,
ha una voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in una capra solitaria.

In una capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
ogni altra vita.

Umberto Saba


A CABRA

Falei a uma cabra.
Estava sozinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, berrava.

Aquele berro monótono era fraterno
à minha dor. E eu respondi-lhe, primeiro
por brincadeira, depois porque a dor é eterna,
possui uma única voz e não varia.
Esta voz ouvia
gemer numa cabra solitária.

Numa cabra de rosto semita
ouvia o lamento de cada mal,
de cada vida.

Tradução minha

Universo feminino


Eu quero guardar teu beijo
Na concha das mãos
Teu cheiro eu levo feito mancha na roupa
Que eu não lavo, não

Sou alvo pros teus olhos claros parecidos
Com essa estação
E adoro os efeitos sonoros de quando você sussurra
Absurdos no ouvido do meu coração
«Se eu corro», A Banda Mais Bonita da Cidade

07/11/2013

House of no regrets

Sei que o conceito casa está em mim muito enraizado, não só enquanto espaço físico, mas como sinónimo de abrigo, família. Sei também que tenho a necessidade, até há pouco tempo inconsciente, de planear, organizar, arrumar o meu espaço, como forma de me arrumar por dentro. Por isso, a minha casa tem sido um projecto meu - bastante imperfeito na sua execução -, como aplicação prática da metáfora da criação do ninho: pintar, arrumar, restaurar, todos estes trabalhos têm passado pelas minhas mãos e, na verdade, não era capaz de substituir os objectos que lá tenho por outros novos, mas impessoais. É também por isso que vou resistindo a abrir as portas a terceiros, pelo menos, não pelo tempo mais do que suficiente para que a conheçam, sem a conhecerem.

Veio esta divagação a propósito de ontem ter esbarrado com esta música da Dulce Pontes, incluída no álbum Focus que gravou com Ennio Morricone, em 2003.

É uma boa definição de casa. A diferença está nos muitos arrependimentos que guardo nas gavetas e nas prateleiras.


House of no regrets - Dulce Pontes e Ennio Morricone


The house where I was born still stands for who I am
Every stone laid is a bridge made to my past

The house where I grew tall towers over me
Shadows bring everything back in soft light
I wouldn't change yesterday, not in my life
And so I live in a house of no regrets

There are many rooms inside my head
Corridors that wind through time, never end
They are journeys meant to be
Every house is part of me

The house where I found love lingers
Sends me shivers, like the first time
Stairways I climb to the heights

The house where I grow old will be free of ghosts
From what I've done, I won't run, come the dark night
I wouldn't change yesterday, not in my life
The years show, I've lived in a house of no regrets

Regressa-se à casa azul

A guardiã da rua é a casa do fundo – a casa da Maria. Um jardim seco, composto a espaços por tufos de plantas medicinais que a dona utiliza em unguentos, remédios e chá, separa o alcatrão da casa da fachada azul, como um fosso à volta de um castelo. Dificilmente o dia rompe a escuridão que se abateu sobre a casa, um negrume de floresta amaldiçoada que assusta a vizinhança e deslumbra Catarina.

06/11/2013

Que dizer das que estão um ano sem lá ir, como eu

Medusa (de Arnold Böcklinc.1878).

4 _ «Nunca fui de grandes interpretações simbólicas. Só consigo encontrar um significado psicológico no mito da Medusa: é mostrar a ansiedade da mulher que já não vai ao cabeleireiro há mais de duas semanas.»
(Malgorzata Zajac)

em Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal, p. 73

Assim se explica o meu súbito emagrecimento

A verdadeira gordura é passado que não se liberta, que não retorna ao mundo e fica encafuada no corpo, sólida, densa, nos quadris, nas coxas, nas articulações. É por isso que os velhos têm dificuldade em mexer o corpo. Estão carregados de passado nos ossos, nas rótulas, no espinhaço, na cerviz. Tudo calcinado por ontens. Quando o homem liberta as suas memórias, pela palavra, fica leve [...]
(Tal Azizi, Discursos)

em, Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal, p. 25

Natureza humana

ADÃO SAIU PRIMEIRO DO PARAÍSO
«A sua passada era maior do que a da mulher, uma questão antropométrica. Por isso saiu ligeiramente à frente de Eva, que tinha passinhos pequeninos, delicados. O segundo a mais que Eva se demorou no Jardim é responsável pela beleza redonda das suas formas, sem grandes pilosidades, tal como os anjos e as crianças. Um segundo a menos no Éden, e Adão saiu cheio de pêlos no peito, um grande bigode turco e um profundo amor pela sua equipa de futebol.»
(J. Dameron, Primeiro Segundo)

em Afonso Cruz, Enciclopédia de Estória Universal

05/11/2013

Ler em fúria

Estava no primeiro ano da faculdade quando precisei de ler O Alto dos Vendavais. Como as leituras eram muitas e diversificadas, reservei-lhe o dia livre, para ter tempo de ler, talvez saltar umas páginas, traçar linhas de leitura que me parecessem relevantes. Lembro-me perfeitamente de o ter lido com um nível de irritação bastante alto - várias vezes o pousei, reclamei com as personagens, me levantei e fui fazer um chá, e voltei à leitura. Naquela quinta-feira, não houve mais texto que me ocupasse as ideias, só aquele e uma raiva permanente com Heathcliff, aquele homem soturno e mau.

Do lado esquerdo do computador, descansa O remorso de baltazar serapião. Experimento uma sensação semelhante - uma irritação, quase nojo, que me faz fechar o livro a meio de frases, contar até dez e retomar a leitura. São odiosos os homens Sarga. E eu não consigo deixar de me inteirar das suas vidas.

Tudo é ridículo, até os e-mails de amor

Todos os e-mails de amor são
Ridículos.
Não seriam e-mails de amor se não fossem
Ridículos.

Também escrevi em meu tempo e-mails de amor,
Como os outros,
Ridículos.

Os e-mails de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículos.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
E-mails de amor
É que são
Ridículos.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
E-mails de amor
Ridículos.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Desses e-mails de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).


04/11/2013

Dúvida que me atormenta

Não sei se inclua O Guião da Reforma do Estado, que dá pelo sonante nome Um Estado Melhor, no rol dos livros lidos do Goodreads. Até porque não sei se o incluiria nos livros históricos, ficção, fantasia ou terror.

02/11/2013

Hoje, a campa dos mortos encher-se-á de flores. E aqueles que estão sepultados em mim, onde lhes ponho as flores?

Universo Feminino

É com frequência que encontro um eu que desconheço. Com maior frequência me desencontro do eu em que me reconheço.

01/11/2013

Expectativas irreais

Criámos para nós metas que só alguns escolhidos, pelo quê ou por quem depende de cada um, atingiriam: aos trinta, deveríamos ter emprego estável, bem pago, aliciante, se possível na chefia; uma casa e uma família em construção; um carro de cilindrada considerável e férias a sul ou no estrangeiro.
Criámos para nós estas metas, mas porque tantos falharam, tornámo-nos mais permissivos e apontámos o sucesso para os quarenta.

Universo feminino

A esperança anuncia-se pelo telefone.

Freud explicaria?

Sei que estou demasiado preocupada com a situação quando passo a noite inteira a sonhar com gatinhos que são atacados por gatos adultos e que falho sucessivamente em salvar.