29/08/2013

A casa foi tomada por pequenos incêndios

A casa foi tomada por pequenos incêndios. Atrás das portas, dentro dos armários da cozinha, entre os lençóis, nos cortinados, ardem pequenas labaredas invisíveis que deixam um rasto de árvores queimadas. Junto aos tapetes e aos rodapés lacados de branco, há uma nuvem de pó de cinza. Suspensa nos tectos, balançando nos candeeiros, uma névoa de pinheiro consumido. São pequenos incêndios que ardem noutros hectares de chão irregular, em escarpas, vales, montes, tão longe que tudo o que se sente é o cheiro da terra queimada por um Vulcano endoidecido.  

28/08/2013

A minha vida dava uma banda sonora #11

Delimitar o campo semântico da saudade é tarefa a que linguistas, filósofos, artistas e nós, seres humanos normalíssimos, nos propomos cada vez que tentamos explicitar o sentimento. Daí, uma mudança na reflexão antecessora da música: dois excertos de um ensaio de Joaquim de Carvalho, ilustre figueirense e pensador português, cujos textos tive a oportunidade de estudar em Filosofia. Aconselho a leitura deste a par de Problemática da Saudade. Que as minhas fustigações públicas sirvam para alguma coisa mais do que a minha flagelação emocional.


Elementos constitutivos da consciência saudosa

O estar saudoso exprime psicologicamente um estado em que a consciência opõe ao que lhe é dado na experiência patente a preferência de algo já vivido e ausente. O passado é representado em conexão de algo atual e presente, cuja dimensão afetiva é inferior à dimensão afetiva do passado representado.

A posição saudosa é ensimesmada e contemplativa; por isso o conhecimento inerente à saudade não é um conhecimento que é ou possa vir a ser científico, isto é, impessoal, de todos e para todos, nem o comportamento da consciência saudosa dá ensejo ao remorso, apesar da saudade e do remorso radicarem em tendências e concretizações que se enraizaram no âmago do eu pessoal. Assim considerada, a saudade não é a captação sensível de uma realidade extramental, nem a emanação de existências ideais ou irreais, nem tão pouco a criação fantasista da pura subjetividade, porque é um estado que se constitui a partir de uma situação presente mediante a representação de entes ausentes ou de situações anteriormente vividas com plenitude ou vitalmente imaginadas. 


A música é do Manel Cruz, na faceta Foge Foge Bandido, As minhas saudades tuas.

26/08/2013

Tenho umas saudades esquisitas

dentro de mim: saudades do que não chegou a ser.
Carrego-as todos os dias,
como excessos da vontade.

Indo eu, indo eu

a caminho do sul.
Vou num pé, volto noutro. A ver se corre tudo bem.


25/08/2013

23/08/2013

Engarrafamentos na blogosfera

Lembro-me perfeitamente de ver o meu avô com o rádio na mão, a ouvir o relato, a gritar golo segundos antes de vermos na televisão esse golo que parecia já atrasado e irreal. Lembro-me também de estarmos em divisões diferentes da casa a ver jogos decisivos e uns gritarem golo antes dos outros. Lembro até de haver vizinhos a quem o sinal chegava primeiro, começando uma onda de euforia que haveria de chegar a todos.

Eram instantes, segundos, tempo mínimo que fazia toda a diferença.

O Blogger anda a proporcionar-me experiências semelhantes, com a diferença de o atraso ser de horas. Há actualizações vossas que chegam com uma hora de diferença, as minhas estão a demorar no mínimo seis - ontem foram oito.

Publico textos ao início do dia que só serão vistos lá pelo cair do mesmo. Não faço ideia porquê. O que me vale é o Feedly que me vai mantendo realmente actualizada.

22/08/2013

Brincadeiras com a máquina fotográfica - Lisboa a quanto obrigas

Antes de mais, o aviso: Não percebo nada de fotografia! 

É com muita pena que o admito, em abono da verdade o faço, embora ache piada em andar com a maquineta na mão a disparar para todos os lados que me entrem pelos olhos dentro. Claro que em 34028 fotografias salva-se uma ou duas, mas a tentação é demasiado forte.

Estes dias em Lisboa foram pródigos em disparos - com flash e sem flash - e deram para umas fotos engraçadas. A parte menos engraçada foi ter ficado sem pilhas a caminho do Padrão dos Descobrimentos, logo, sem poder fotografar o chão com tão bonitos dizeres, e antes de entrar no Museu Berardo. 

Evidentemente que, como é meu apanágio, não há fotografias com pessoas, porque nunca me ocorre registar para a posteridade esses momentos. Guardo as imagens na cabeça - a minha memória também é um bom álbum de fotografias.

21/08/2013

Liberdade de escolha

«[...] qual é a vantagem da liberdade para escolher? Temos liberdade para escolher, e escolhemos - lixo alimentar, música mentecapta, telenovelas, cinema imbecil, arte ridícula. Se a liberdade serve para isto, não seria melhor acabar com ela?»
MURCHO, Desidério (2011). Filosofia em Directo. Lisboa: FFMS. p.21 

20/08/2013

O meu sobrinho Tomás não quer que me case

Chego a casa e vou mudar de roupa. Tomás vai atrás de mim e começa a mexer no que está em cima da mesa de cabeceira.
— O que é isto?
— É um livro.
— Porquê?
— Porque a tia anda a ler o livro. Tu não gostas de histórias?
— Sim.
Segue-se uma algaraviada sobre a história dos três porquinhos.
— A tia aqui não tem histórias, mas quando eu for a minha casa trago-te algumas.
— Posso ir a tua casa?
— Podes. Queres ir agora?
— Sim. Ó tia, na tua casa tens filhos?
Pensamento: «What?».
— Não, Tomás, a tia não tem filhos em casa. Nem tem filhos.
— Porquê?
Resmungo mental.
— Porque a tia ainda não casou.
— Porquê?
Outro resmungo mental.
— Porque a tia não encontrou um namorado com quem queira casar. Um dia destes, arranjo um e tu ganhas um tio novo, sim?
— Não!
— Não? Então tu não queres que a tia tenha filhos, para tu teres primos?
— Não!!
— Porquê??
— Porque eu quero a tia só para mim.


O Tomás tem 4 anos e quer que eu morra solteirona. Bonito.

19/08/2013

Cuidado para não ires tão longe que não encontres o caminho de volta

Sei por experiência própria que escrever sobre as perdas emocionais ou físicas, a morte de sentimentos ou pessoas, não é simples, não tem nada de fácil. 

Há uma linha ténue que separa a banalidade de uma forma de dizer mais íntima, com sentido mais profundo. Sabemo-lo por instinto mais ou menos aperfeiçoado pelo conhecimento explícito das técnicas do fazer ou do observar. Sabemo-lo, nem sempre o alcançamos.

O como dizer as coisas sem que se ultrapasse a fronteira do piroso, da lágrima fácil, dos lugares-comuns e do sentimentalismo, deixar claro como a água que dói, que dói em intensidades que nos prostram e tiram o ar, pode ser um processo angustiante. 

É este equilíbrio que separa a boa literatura da má, por exemplo, que nos deu um Camões e demasiada poesia aquém. É este equilíbrio que separa uma boa história contada de mais um filme de domingo à tarde que não acrescenta nada.

É este equilíbrio que faz deste filme um filme belo, triste, sem ser banal.

17/08/2013

Até à próxima, Lisboa

foto minha

15/08/2013

E pur mi muovo

Houve um momento preciso durante o percurso, em que me lembrei de ti. Ocorreu-me, sem que nada o fizesse prever, que terias gostado de deambular por aquelas ruas, sem destino, vagueando ao sabor das opções do momento. Ocorreu-me que o terias feito com prazer - talvez tivéssemos de parar uma ou outra vez, para que te sentasses e apreciasses a tua bebida, certamente mais refrescante que da última vez, e deambulasses por pensamentos privados que nunca me atrevi a querer conhecer; talvez me contasses outras aventuras de ti menino; talvez me contasses planos para ti mais velho. Haveríamos de andar, isso eu sei, andar por horas e horas, em quase silêncio, sem esforço, sem mostras de cansaço.

Agora, eu ando. Cumpro a minha parte do destino caminhante, calco chão com a convicção de um soldado, sou um romeiro à procura do sentido entre as ruas sem sentido.

O nosso tempo desencontrou-se sem remédio. O meu relógio emocional trabalha num movimento impreciso de lentidão assinalável; o relógio das pessoas normais parece marcar já muitos meses e um aproximar de anos; o teu, não sei - nunca percebi como se mede a eternidade.

De um miradouro apinhado de turistas avermelhados, uma música. Coincidências? 

Tenho de dar corda ao relógio. Vou passar pelo mercado e comprar-lhe um par de asas. Vens comigo?

14/08/2013

Esta pombinha é um charme

Primeiro, olhou; depois, desdenhou e compôs-se. Por fim, aborrecida, deitou-se.


E, se em vez de andarmos a apanhar bonés, começarmos

a apanhar alguidares?


13/08/2013

12/08/2013

Se me virem por Lisboa

digam: BUHH!

O mais certo é eu mandar um grito, mas serve perfeitamente como desbloqueador de conversa.
Deixa cá pegar no mapa e ver por onde é que me vou perder hoje.

11/08/2013

10/08/2013

A minha vida dava uma banda sonora #10

A concretização de grandes arroubos costuma cingir-se ao ficcional e artístico. A realidade tende a ser mais pragmática e menos romântica.


Vambora – Adriana Calcanhoto

Entre por essa porta agora e diga que me adora
Você tem meia hora pra mudar a minha vida

07/08/2013

Continuando a explorar a utilidade dos homens

Lá em casa, levamos a igualdade de género tão a sério que é ele quem dá à luz.

David Blazquez

06/08/2013

O trabalho aquece

Há a ideia generalizada que quem está desempregado não faz nada. Nadica de nada, um dolce far niente constante, sem horários, sem preocupações, relaxe total. Pois bem, desde que fiquei oficialmente em condição desempregada, outra vez, que a minha vida é um corropio tal que ando presa por arames. 

Só de pensar que a qualquer me momento me batem à porta dois monstrinhos aos gritos de contentes, vulgo sobrinhos, até se me arrepia a pele. Não me entendam mal, adoro os meus garotos, mas o meu desejo de uma tarde tranquila é tal que era capaz de trocar metade dos meus livros para a ter.

Infelizmente, este trabalho todo não tem direito a remuneração, mas alguém tem de o fazer.

Desculpem-me muito, muito, porque nem vos visito, nem comento, mas nem ao meu venho. À noite, tudo o que apetece é dormir e não pensar.

Juntem a isto os nervos de mandar currículos, não ter resposta, viver todos os dias na corda bamba, estar já a duvidar de todas as capacidades e habilidades, e lá se vai a ideia de que estar desempregado é um mar de rosas. E sem subsídios, que os trabalhadores independentes que passam recibos verdes não têm direito a estas regalias, só a pagar bem à SS.

Maneiras que preciso de férias. Ou mais uma chávena de café. Talvez de ir à praia, que ainda lá não fui este ano. Ou então de trabalho pago, estável - lol -, e coiso.

02/08/2013

o mundo é composto de mudança

era hábito encontrarem-se no mesmo café, a horas tardias de domingo, e conversar. nas noites frias ou respingadas da chuva, sentavam-se em frente à lareira do espaço, um café quente nas mãos frias, o consolo do fogo inopinadamente acesso no meio da cidade. nas noites quentes e abafadas, escolhiam uma mesa na esplanada, num canto discreto que lhes permitisse discorrer sobre o bulício da noite. foi assim por muitos domingos:  juntaram-se semanas, seguiram-se meses, muitos, tantos que era sempre com surpresa que os contavam pelos dedos, como se fosse não fosse possível ter passado tanto tempo, quando para eles sabia sempre a primeira vez.


o café ainda lá está. as noites de domingo continuam a suceder-se, umas vezes com frio e chuva, outras vezes quentes e abafadas. eles deixaram de se encontrar, dizem pelas esquinas que se mudaram.

01/08/2013

As minhas mãos

envelheceram anos, por estes dias.


Ou então estão apenas cansadas. Proporcionalmente.

São, na verdade, pedidos singelos