11/11/2013

Piratarias à socapa

À revelia da capitã do navio, da última vez que lançámos âncora, fiz umas investigações por contra própria. Receio que a tripulação escolhida não seja tão vil quanto os currículos e as cartas de recomendação fariam supor. Por isso, quando o rum tinha já tomado conta da cabeça e da vontade dos meus companheiros, aventurei-me pelos becos escuros das docas.

A animação inicial deu lugar a um estado de irritação que aumentava consideravelmente. As minhas investigações apenas me tinham feito encharcar a roupa, uns trapos a que meti a mão numa das vezes que nos aproximámos de terra o suficiente. Não me agradava a situação, para mais depois da barrela a que a capitã nos tinha forçado, por ter assumido que a sua condição de líder valia, por si só, para nos usurpar a piscina e enegrecer por fora, num tom que desconfio aquém do tom com que estamos pintados por dentro.

Nem ouro, nem um diamante sequer, quanto mais um zircão, nem um vestido novo, muito menos umas botas menos gastas, vislumbrei. Naquelas docas escuras e húmidas, só se encontravam barris, cordas velhas, pedaços de pau e, claro, o perfume do peixe e dos homens que não se lavam há muito tempo.

Foi então que o vi, encostado a uma parede, fumando um relaxado cigarro, enquanto teclava no ecrã do telemóvel de última geração – confesso que fiquei surpreendida por ver um pirata tão conhecedor da tecnologia de ponta, mas depois lembrei-me do tablet que escondo de todos, debaixo da almofada, para ir actualizando o perfil do facebook e o mapa dos lugares visitados, e considerei que era grande hipocrisia o meu espanto. De qualquer das formas, aquele pirata parecia-me um espécime superior quando comparado com os decadentes, feios, porcos e maus com quem viajava.

Não sei se por excesso de literatura, se por uma excitação fora de série, abordei o estranho, num passo de mulher fatal, retirando-lhe o cigarro e aspirando profundamente. Teria resultado, não fosse eu ser uma não-fumadora, logo, inábil no jeito a dar ao cigarro e ao fumo que me intoxicava os pulmões. O que se passou a seguir não foi propriamente bonito, nem creio que faça parte dos livros de pirataria, mas o ataque de tosse que me atingiu, quase resultou na minha morte – destino ingrato para quem deixou o trabalho que não tinha e a existência parda, para conquistar os mares e ser má. O pirata usurpado do seu cigarro estaria, talvez, habituado a abordagens do género, tendo prontamente iniciado uma reanimação boca-a-boca que, como seria de esperar – visto que um homem é sempre um homem, com a agravante de este ser corsário – levou a coisas que a decência me impede de mencionar.

- Vem comigo para o barco – pedi-lhe, em loucura apaixonada.
- Não posso!
- Não sejas cruel – pestanejei com tímida mágoa, a ver se o quebrava na vontade férrea.
- Sou um pirata, é da minha natureza ser cruel.
- És tudo o que precisamos lá no barco. Que eu preciso!
- Não vou. Agora, não, que joga o Benfica.

E assim me deixou, nas docas escuras e a feder a peixe podre e rum de má qualidade, afastando-se em passo certo, cigarro no canto da boca, em direcção ao café, com a Benfica TV.

Por mil cobras e lagartos!, aquilo não ficaria assim. Com toda a violência do despeito, procurei o barco daquele pirata. «Hás-de pagar-mas, pirata!», murmurei, enquanto tentava decifrar pelo cheiro do cigarro qual seria o barco certo. Com mil diabos, os barcos cheiravam todos ao mesmo – mal, muito mal –, daí que tenha acabado por perguntar ao guarda-nocturno. O homem foi gentil, ou então era o meu decote que lhe despertava sentimentos gentis, e lá me disse qual era a embarcação.


Com uma gargalhada maligna, soltei as amarras do barco e naveguei-o, cortando ondas, velas içadas, iluminada pelo luar, até aos meus companheiros. Não sei como vou explicar onde o desencantei, mas como piratas que todos somos, admitir que o roubei deve chegar como justificação.


Agora, só falta encontrar um forte onde descansar. Os meus ossos precisam urgentemente de uma cama fofa e eu preciso de um banho de espuma.





P.S.: Todas as fotos são minhas e foram tiradas propositadamente para ilustrar o Projecto de Pirataria. :D

10 comentários:

  1. Respostas
    1. O senhor também está dentro desse navio.... convém lembrar!

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    2. Acho que se esqueceu. Sabes que o sangue leva muitos dias a chegar lá cima à moleirinha! :D

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    3. É o problema dos gigantes. Já me tinham avisado.

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  2. pirata moderno esse:) mas com instintos de primata. os instintos, sempre os instintos:P

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    1. Instintos de primata, mas conhecimentos das artes do amooorrr ao nível de um D. Juan. (;

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  3. Se esse corsário de quinta categoria te afrontou, vamos persegui-lo até à morte. A barcaça que trouxeste para "casa", podes ficar com ela para a usar como playground... :)

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    1. Parece-me bem. Ah, também podemos usá-la para pôr de castigo quem se portar bem - sim, que os piratas portam-se sempre mal. (;

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  4. que coisa mais estranha, a pirataria é o meu forte, aproveito para te convidar a dar um passeio no meu barco, pertenço à ordem dos piratas enquanto senhores da real pirataria. conheces-me? aposto que não, não sou muito conhecido, só mesmo entre os meus pares, por enquanto, todos dizem que sou um destruidor de corações, acreditas?

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    1. Acredito. Mas depois desta experiência, levo sempre uma faca na liga. Qualquer tentativa de don juanismo e sentirás o frio da minha lâmina. muaahhhaahhh

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