27/11/2013

Dias assim

Está frio. Na rua sopra uma aragem cortante que me faz cerrar os olhos e me maltrata as bochechas. São sensíveis as minhas bochechas, pouco menos sensíveis que o meu coração, muito mais sensíveis que as mãos que se escondem nos bolsos, à procura de uma brasa quente. Está frio. Evidência redundante, olhando o calendário que me diz que Novembro exala os últimos suspiros, em pequenas baforadas de calor que evaporam ao ar. As frentes frias varrem as extensões que ousam atravessar-se no seu caminho, querem deixá-las para trás das costas, como seres mínimos, congelados na rotina de cigarras pouco precavidas. O chão está escorregadio, é preciso cuidado para não escorregar – o chão oferece pouco conforto em dias assim, ainda que seja o único capaz de verdadeiramente nos amparar nas quedas. Os casacos não travam a extinção do calor, o afastamento do ardor do corpo; enrolo fios de lã entrançados, no pescoço, subo a gola e resisto.


Está frio. Ainda assim, há um pensamento insistente que me aquece, como o crepitar recorrente da lareira, como uma manta quente, o chá a ferver. Esse pensamento leva-me a dias menos frios, a lugares menos expostos, a horas mais tardias, a um consolo da alma. Viajo à boleia da memória e sorrio, enquanto caminho – é um vício que tenho e espanta quem passa por mim, vejo-lhes os olhares agudos e sorrio ainda mais. É um desejo de multiplicação desse momento que me repassa os ossos: a aproximação tímida, um certo medo, uma ousadia, a prisão dos braços, o descanso das bocas. 

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