02/10/2013

Pela manhã

Todos os dias, pela manhã, abria a janela do quarto e conversava com o vaso das sardinheiras pendurado no beiral, conversava com os passarinhos, o gato preto que se enrolava nas pernas, a gata malhada que ronronava por festas, a ninhada bicolor que saltitava de entusiasmo infantil; conversava com o espelho, com as divisões da casa, reclamava com a máquina do café e a máquina de lavar roupa, indagava o jornal, questionava o frigorífico, falava consigo própria e com todos os objectos e seres da casa. Só não falava com pessoas, para essas guardava o desentendimento do mundo.