21/09/2013

As tempestades também se abatem

Chegou ao fim da tarde. Há muito tempo que o esperava, só não sabia dizer o dia exacto e a hora certa a que chegaria. Chegou de mansinho e fez-se anunciar. Previra, desde que a certeza da chegada se tinha tornado tão certa quanto a descida de temperatura no Inverno, que se abateria uma tempestade sobre si. Não sabia por que motivo as tempestades sempre se abatiam sobre alguém ou alguma coisa, desconhecia a necessidade que tinham do acto dramático de se sacrificar, para se fazerem notar. Não era tão pouco justo para a vítima - para além de ter de juntar os próprios pedaços, ainda tinha de limpar a sujidade que um suicídio sempre deixava. E as explicações, meu Deus!, como era difícil ter de explicar por que razão nos cabelos e nas roupas, nas mãos e na cara, havia restos de chuva, noite e trovoada. 

De qualquer das formas, acontecera ao contrário do que esperara - tinha sido uma chegada serena, sem choros compulsivos que duravam a noite inteira, nem pensamentos rodopiantes que a mantinham acordada, nem olhos inchados e uma dor de cabeça aguda, pela manhã. Menos um suicídio a contar para a estatística das tempestades.

Chegou ao fim da tarde. De mansinho. Deitou-se com ela na cama e a meio da noite acordou-a, para lhe lembrar que «o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura».

5 comentários:

  1. 'Os cavalos também se abatem' é um título que já fez correr muita tinta :)

    gostei deste texto especialmente da conclusão...o amor pode ser uma doença :)

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  2. gosto especialmente da citação da "Ouvi Dizer"

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  3. é um alívio quando finalmente chega a tempestade que se espera. Sou doente por essa música.

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    Respostas
    1. É, pelo menos fica-se a saber que as coisas estão a ir em alguma direcção. Se o povo tiver razão, a bonança está mesmo ao virar da esquina. (:

      Por esta e pelas outras todas - acho que não há uma que me desagrade.

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