12/07/2013

No silêncio da noite

Ou como se guarda mais um maço de folhas no fundo da gaveta, para memória futura do que não se deve insistir.


No silêncio da noite


Uma arma é disparada na noite escura, o que vem depois disso é
silêncio − o estrondo do tiro, a noite a escurecer de tristeza.
O cão a guiar o dedo, o dedo a fazer recuar o cão, a bala
a atingir o alvo, uma pancada seca a ensurdecer o chão.
Os olhos apertam-se com força para não sentir.
No chão há um pedaço de metal capaz de matar o que mais amamos.
Os vizinhos param os garfos que levam à boca.
Uma criança cala-se. Um grito desesperou a cidade.
A rua é um uivo de sirenes e murmúrios inquiridores:
as perguntas acendem o seu próprio rastilho.
Há olhos que não param de ver,
há ouvidos que ecoam o tiro.
Chove uma chuva miudinha. Inunda-se o chão.
Fotografa-se o circo sem piedade.
Se houvesse respostas, todos iriam embora −
são as dúvidas que atormentam os vizinhos,
não se sabe o porquê. Sabe-se que um partiu.
O outro ficou. No mais do que isto é o silêncio,
sempre o ensurdecedor silêncio. Na cabeça, as vozes não se calam,
uma réstia de culpa. Ninguém saberá nunca o que aconteceu.
Só sabem dele. Que morreu.

6 comentários:

  1. esse estrondo do tiro pode ter sido gazes tb... as vezes confunde-se com um tiro de caçadeira! :p

    ResponderEliminar
  2. Faz-me lembrar algo, faz-me ter vontade de reler :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As voltas que aquilo deu...
      Depois dou-te a versão imprimida. (;

      Eliminar