04/06/2013

Prótese dentária

Usava uma prótese dentária. Nada de muito assustador, servia apenas para lhe ocupar o espaço vazio de dois molares - talvez um dia, com mais talentos, pudesse trocá-la por dois modernos pivots que lhe restituíssem a dignidade de uma boca sem muletas. Convivia bem com o excesso dentro da cavidade oral, pelo menos, facilitava-lhe as refeições - o que não era de desprezar.

No entanto, naquele dia de manhã, sem que nada o fizesse prever, sentiu-se cheio, usurpado, plastificado, diminuído e aleijado. Dentro da boa, a prótese crescia como inchasse com o café do pequeno-almoço, empurrava dentes, arrancava dentes, ocupava o lugar dos dentes, maxilar, garganta. Uma prótese gigantesca a ocupá-lo por inteiro, invadindo-o para além da função estética e prática da arte de mastigar.

Com esforço, lançou as mãos à boca, procurou os arames que se cravavam nas gengivas e arrancou-a com violência.

As refeições são agora mais difíceis de mastigar, o sorriso mais comedido, mas a boca, essa, mais espaçosa e menos esfolada, do que quando a ocupava o ferro e a massa anti-natura.

1 comentário:

  1. :))))
    Nunca usei aparelho nos dentes (no meu tempo só quem tivesse sérios problemas, tipo dentes de elefante, ou duas fiadas, como os tubarões, é que usava), mas sempre achei que deve ser aborrecidíssimo. Mas a minha mais velha até gostou, e ele e as amigas competiam nas cores do dito! :)

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