18/06/2013

Na nossa cabeça, todos somos estranhos

Pode um homem que não é nada ambicionar ser alguma coisa? Pode a materialidade dos objectos ocupar o nada que o veste por dentro? Pensamentos insistentes na cabeça de um homem despido, atravessado sobre uma cama perfeitamente arrumada, perdido na penumbra do quarto, onde dançam acordes de jazz. A sombra de um corpo humano perdida no silêncio da noite e da música, afundada na maciez do colchão, num desapegado esvaimento, em que nada importa, nem o passado, nem o presente, nem o futuro. A sombra de um corpo liberto das amarras das obrigações, flutuando nas teclas do piano. 

Todos os dias, por volta da meia-noite, hora em que se deita, o quarto apaga-se, nas paredes dançam as sombras projectadas pelas luzes da rua que entram, sem pedir licença, pelos vidros das janelas de sacada, nuas de cortinas. Umas vezes, entrelaça as mãos sobre o abdómen, outras tapa os olhos com os braços ou cruza-os por cima da cabeça, o corpo estático, os olhos fechados, a audição a elevar-se acima dos outros sentidos – apenas ouve a música, o bater do coração e o seu respirar, no mesmo compasso da solidão. As horas passam-lhe numa cadência lenta, tão lenta que lhe levam a pele, lhe devoram os ossos, lhe queimam o sangue que lhe corre nas veias. O seu interior é em tudo semelhante a uma caverna escurecida, a profundidade de um monturo, onde goteja uma tristeza viscosa e espessa que o cobre com a sua goma lodosa.

6 comentários:

  1. Conheço esse gajo, o do 2º parágrafo...

    ResponderEliminar
  2. Críptico, o teu texto de hoje...

    Mas o novo fundo, esse, transpira Primavera! Ao menos aqui!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É um bocadinho de texto recuperado, deve ter sido a chuva e o frio que mo lembrou.

      Gosto tanto do meu fundo, este feliz acaso que combina tão bem com resto. Venha a primavera. (:

      Eliminar
  3. E o tanto que esse título tem de verdade...
    Um beijinho Rapariga

    ResponderEliminar