14/06/2013

A rua

A rua daquele lugar que pode ser qualquer um, em qualquer país do mundo, é hoje diferente do que era quando pela primeira vez a visitámos. Se o mundo é composto por mudança, a rua, tal qual a conhecemos, não poderia permanecer estável pelos dias e dias. Não que se tenham derrubado casas ou construído outras casas, mas passaram meses e passaram anos, houve chuva e sol e vento – o rigor do verão e o rigor do inverno – a desgastarem a tinta das fachadas, a redesenharem jardins e a marcarem o corpo dos moradores daquela rua.

A morte varreu a rua com a força de uma nortada. Não houve uma casa que não tivesse sido estremecida nas suas fundações por ela ou pela proximidade. Talvez não seja correcto afirmar que foi a Morte, antes que foram várias mortes, cada uma à sua maneira, cada uma ocupada com os seus – porque a morte que leva uma criança não é a mesma que leva um adulto, muito menos a que leva uma mulher se assemelha à que leva um homem –, cada caso é um caso, cada morte é uma morte.

Por esta razão, as consequências da varredura foram diferentes. A uns aliviou, a outros erradicou, a outros pesou como chumbo – o mesmo chumbo do esquife a cobrir os ombros de quem ficou para trás. 

Quem hoje voltar àquela rua encontra-la-á diferente. Se melhor ou pior, cada um que ajuíze.