29/05/2013

O doloroso dever



Arlindo da Cunha e Silva e família cumpre o doloroso dever de
anunciar o falecimento de Maria das Dores… 

Arlindo riscou o que tinha escrito. Era um pesado dever, fatigante dever, entediante dever, doloroso nem por isso. A morte da sua senhora tinha ocorrido na placidez do leito, sem sobressaltos, nem transtornos, muito diferente do que tinha sido a sua vida. A grande dor que lhe provocara residia na alteração forçada do seu rigoroso horário semanal de lazer e no necessário adiamento da cartada que todas as quartas-feiras jogava com os compadres e que começava pontualmente às vinte e duas horas e terminava no rigor das badaladas da meia-noite – único alívio de todas as outras horas de tormento que aquela mulher lhe causava. 

Arlindo da Cunha e Silva – não esquecer nunca o e Silva – era agora um homem livre, libertado dos grilhões com que ele mesmo se prendera a Maria das Dores – e que dores, meu Deus, que dores! –, separado da sua terra prometida de tranquila viuvez por aquele deserto de ideias que era ter de anunciar ao mundo que as dores tinham terminado, restava enterrar a Maria. «Em frente, camarada, ânimo, que o décimo segundo trabalho de Hércules está prestes a cumprir-se, aqui não hei de penar quarenta anos!». Assim, na sua calma de obediente funcionário das Finanças, adquirida ao longo de cinquenta anos de trabalho metódico e honesto, recomeçou: Arlindo da Cunha e Silva informa os interessados da morte de Maria das Dores…

continua num ficheiro .doc

3 comentários:

  1. continua num ficheiro .doc...

    E nós? Podemos ler esse ficheiro? :)

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  2. E depois partilhas aqui connosco :)

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