14/05/2013

Espelho meu, espelho meu

A forma como olhamos para nós não é tábua rasa, nem depende em exclusivo da capacidade de nos reinventarmos a cada oportunidade. Grande parte do que acreditamos ser está-nos marcado qual tatuagem feita por outros, pelos seus comentários - nem sempre honestos, nem sempre amáveis -, pelas escolhas que nos incluem ou excluem, pelos silêncios que conseguem tantas vezes falar mais alto do que todas as palavras que já foram ou serão inventadas.

De tanto ouvirmos o que nos dizem, de tanto prestarmos atenção às opiniões de quem julga saber sempre mais, distorcemos a imagem que temos de nós: detestamos, muitas vezes, como pensamos, como agimos, como vivemos, como parecemos. Deixamos que o desejo desmedido de ser diferente, ou mais parecido com o que idealizamos, nos marque, nos limite, nos aprisione.

De tão convencidos que estamos de que somos mesmo assim, de que não temos remédio, de que isto é uma maldição, um fardo que temos de carregar, abrimos mão. Mão das pessoas que amamos porque não somos bons o suficiente para fazer parte das suas vidas. Mão dos projectos, das vontades mais íntimas, porque não somos suficientemente capazes de os levar a bom termo. Mão das coisas grandes e das coisas pequenas que queríamos e precisávamos porque alguém melhor do que nós é mais merecedor.

Vivemos na ditadura da insatisfação até ao dia em que capitulamos.

imagem: Two_Sides_of_Me_by_carrionshine

8 comentários:

  1. Já o Variações cantava isso. Mas não teve tempo para capitular...

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  2. Hoje venho dar-te música, posso? "Tábua rasa" ou gordinha, mas sem "tatuagens".
    :)

    https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=JWzhjjn1F9Q

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    1. Claro que podes. ;) E que boa música é.

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  3. Mão tua para te mudares e ires mudando o que fazes e escreves, tal como fizeste aqui, e aí não há espelho que resista.

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    1. Uma coisa eu aprendi: ser como os outros não me faz mais feliz, pelo contrário, causou-me grandes transtornos com pessoas que são muito importantes para mim. Prefiro ser como sou, mesmo que a maioria continue a torcer o nariz.

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  4. "vivemos na ditadura da insatisfação até ao dia em que capitulamos"
    Até me deixaste sem ar, miúda.

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  5. Concordo. Aliás, não podia concordar mais. Mas também acho que boa parte dessa imagem distorcida que temos de nós, somos nós que alimentamos. Teimamos, muitas vezes, em olhar para uma imagem menos boa de nós, quase como se "gostássemos" de nos pôr para baixo. Os outros fazem, sem dúvida, a sua parte e deixam em nós marcas que nem sempre são as melhores mas, na minha opinião temos também a nossa responsabilidade nisso.
    Um beijinho Rapariga

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