23/05/2013

A verdade dói


exato momento em que a verdade atinge o estado da ignorância produz no corpo a sensação de um murro no estômago que ensurdece os sentidos e o arrasta, para uma dimensão ausente de tempo. Primeiro, é o embate do punho fechado contra a carne desprotegida. Depois, a contração dos músculos, o punho que entra mais dentro e toca mais fundo. Um som estrangulado escapa-se pelos lábios abertos em mudo espanto. Os olhos abrem-se de dor e surpresa. O corpo recolhe-se sobre si, para amparar o golpe. Um instante prolongado no tempo, intensificando a perceção das terminações nervosas. 

– Morreu. 

– O quê? 

O punho novamente contra o estômago. Agora mais forte, agora mais doloroso na carne já massacrada. O mesmo som estrangulado na garganta, os mesmos lábios espantados, os mesmos olhos que se abrem e turvam, o mesmo corpo recolhido a amparar o golpe. O tempo a dilatar-se em agoniante lentidão. 

É o corpo contra a verdade ou a verdade a atingir o corpo vezes sem conta. É o corpo que se atira ao punho fechado, é o corpo que insiste na luta, cada vez que a resposta é lembrada. A carne a enegrecer-se nos golpes. 

A mesma pergunta em circuito ininterrupto na mente, o corpo a gemer de dor; a resposta a queimar nas veias, o corpo a contorcer-se de dor. Pergunta-resposta, resposta-pergunta e o corpo prostrado, amálgama informe, indefeso aos ataques daquela verdade que lhe dói mais e mais e mais e tanto até não a sentir. 

Sucedem-se os lamentos e as dores e as lágrimas. Uma espiral de sofrimento que não tem fim, uma angústia da alma, um pranto que não cessa. Os braços erguem-se, para afastar aquela verdade; os braços recolhem-se, para proteger o corpo. Rouca fica a garganta pelos muitos gritos que passam por ela; cansado o peito do ar que lhe não chega. Os olhos apertam-se, para não ver, as mãos curvam-se – querem segurar, prender, agarrar o que já perderam. 

Não há vitória nesta luta desigual, impotente para o corpo derrotado. E o corpo ali fica, abandonado e doído. Um instante sem fim.

3 comentários:

  1. Estranha e dolorosamente belo, o texto. Pungente, tanto que às vezes dá vontade de interromper a leitura, fazer uma pausa para respirar.

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  2. É o que diz a Vic: tira-nos o ar... Até porque praticamente todos nós já sentimos isto!

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  3. Este texto tem mais de um ano. Só agora tive coragem de o trazer à luz. Há telefonemas que nunca deveríamos de receber, notícias que nunca deveriam de ser dadas.

    Agradeço a ambos os vossos comentários. (:

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