07/02/2013

Um bacalhau por dia era o bem que me fazia

Há cerca de 30 anos, era comum ir com a minha mãe comprar bacalhau a casa de uma senhora que vendia no mercado. Podia-se comprar na mercearia, mas ali os preços eram mais convidativos e toda a aldeia aproveitava.

A senhora, sempre que eu ia com a minha mãe, costumava dar-me uma apara de bacalhau com que eu me entretinha até chegar a casa. Seriam os salgados da altura, uma espécie de tiras de milho do mar. Lembro-me que uma noite ela deu-me um rabo de bacalhau e aquele pedaço de peixe salgado soube melhor do que os pirolitos de caramelo que a minha mãe me comprava na feira e que eu tão bem espalhava pela cara, cabelo e roupa. Era uma coisa em grande, um bom pedaço para mastigar devagarinho, trabalho para uma noite inteira. Não durou muito a minha alegria. À saída da casa da senhora, um enorme cão vadio abocanhou-me o peixe e levou-o.

Não é que o animal me tivesse feito mal, que não fez, só me deixou em lágrimas e berros o tempo todo do regresso. A minha mãe lá me tentou consolar, sem grande resultado. O bacalhau era meu e o cão tinha-o levado. Lembrar desta história fez-me sempre rir. 

Hoje, quando fui à aldeia fazer umas coisas, vi um papel afixado, dando conta do dia e da hora do funeral da senhora que vendia o bacalhau. Pela primeira vez, ao contar isto, fiquei triste.

5 comentários:

  1. Não fiques. Almocei bacalhau à minhota. Devia ser ela. Devia ser ele.

    A senhora e o pedaço. Não se perderam.

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  2. Gosto das tuas histórias que me fazem recuar.
    Sabes, havia uma senhora bem parecida com esta que também vendia bacalhau e também vendia outras coisas e também já morreu e também fiquei triste.

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  3. Memórias da infância... Também me andam a assolar...

    Beijos

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  4. Feitas as contas, Entre o Deve e o Haver, o saldo é positivo, verdade?
    A vida é assim...

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