04/01/2013

Quem pôs aquele hífen a segurar a saudade?

Há um baloiço pendurado em caudas de cometas
de onde observas o nosso mundo e questionas,
por certo questionas,
a poeira do espaço e o leite derramado
entre as estrelas.

Inclina-te nesse assento alado,
interessa-te uma vez mais pela rotina
entediante dos dias que passam
em acelerado vagar.
Vês-me? Consegues ver os meus cabelos arruivados, à mesma luz
de janeiro que já passou?
Hoje não me maquilhei, mas vesti a minha saia das pregas
e calcei as minhas meias pretas.

Não foi assim. Hoje calcei as
minhas meias pretas e pintei os olhos
de cinzento escuro
bem carregado pelo negro do lápis,
desafiando a ordem do acaso.
No meu dedo, a prata martelada não cumprirá o seu papel,
foi substituída por duas metades frias de metal que
aproximo à licra negra,
cheias de intenções malignas, e que me
estremecem  no ranger do corte:
bem-vindo ao caos!
A perfeição é incomodativa.

Inclina-te mais um pouco.
Vês-me? Vês as malhas da minha meia?
Sou uma punk de saia às pregas e
meias rotas, miragem no deserto de areia,
onde só o vento remexe o tecido,
como mãos grandes e macias que me arrepiam.
Levanto a saia acima da medida
da decência: é preciso que vejas
as marcas nas meias, é preciso
que saibas que elas estão
irremediavelmente quebradas,
que as meias, como eu, não voltarão a ser as mesmas.

Sai desse baloiço e vem ver com o mesmo
despudor da primeira vez
as minhas pernas nuas
aos teus olhos, enegrecidas de espanto!

Não vens? Que faço às meias?
Não servem para nada.
Nada é tudo o que resta,
resto de amargura,
amarga saudade,
saudoso lamento,
lamentável estado
vazio.

Baixo a saia. Aperto o casaco.
O caos mitiga as certezas.
Tudo o que sei é que esse baloiço
está alto demais e eu tenho vertigens
e um diferendo com Caronte.

Balança, pequeno encantador de estrelas,
e pergunta à ursa maior se o frio do inverno
ficará para sempre.

[é impossível que já tenha passado um ano]

11 comentários:

  1. Cuidado com o resfriado.
    E com a sanidade dos leitores.
    Foi muito levantar e baixar a saia...

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    1. E eu nem escrevi as vezes que reais que ela foi levantada (se calhar isto vai parecer muito mal, em minha defesa digo que aquele dia esteve particularmente ventoso).

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  2. Esse baloiço arrepia mais que o frio do inverno.
    Não tenho palavras... mas deixo-te uma flor.

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  3. Não esquecer de levar moeda, caso contrário Caronte faz-nos vaguear pelas margens por cem anos...
    Xissa!!

    Brilhante Rapariga (Nada) Simples!

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    1. O euro desvalorizou grandemente lá para aqueles lados e Caronte não aceita Visa.

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  4. O teu poema é mais que sugestivo. Tanto, que qualquer resquício de frio se esfumou num estalar de dedos.
    Ano Muito Feliz, Rapariga :)

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    1. Não tinha essa intenção, estava até muito longe disso.
      Para ti também, Vic, e para a tua família e respectivos bichanos. :)

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  5. Saúde
    para dar

    mais força à indignação

    e aos relâmpagos

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  6. És maravilhosa, tu. Que poema tão tão tão bonito.

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    1. Vindo de ti, por todas as razões, é a minha maior recompensa.
      Perder o medo e a vergonha dá nisto.
      Um beijinho para ti. (:

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